Um mal que veio por bem?

As estatísticas recentes indicam que o turismo na Terceira teve um crescimento inferior quando comparado com as outras ilhas açorianas. A maioria das pessoas e empresários receberam esta notícia com desagrado, apontando o dedo à sagacidade micaelense e à incompetência do Governo na promoção da igualdade entre todas as ínsulas.

Poucas almas irão perceber que este contratempo poderá ser bem aproveitado para, por exemplo, organizar a oferta, clarificar a estratégia turística e salvaguardar a nossa identidade. Contudo, a ferocidade terceirense é de tal ordem, que tudo o que esteja além do curto-prazo não é equacionado no presente.

Lagoa do Fogo and green valley on San Miguel island by aragami12345 on 500px.com
by Aragami

Alguém já reparou que a centralidade de São Miguel poderá ser uma forma de nos tornarmos mais sustentáveis? Vejamos: se a ilha-ananás for a porta de entrada do turismo nos Açores, ela ficará com os visitantes de todas as classes, mas só as que têm posses e grau de interesse superiores (de grosso modo, as mais «endinheiradas» e «cultas») darão os passos necessários para visitarem outras ínsulas. A título de exemplo ilustrativo, enquanto São Miguel ganha 1000€ com 100 turistas  (e acarreta as responsabilidades inerentes), as restantes ilhas, com o tal público mais avantajado, precisa de 25 forasteiros para angariar o mesmo valor.

Nesta perspectiva satisfaz-se, claramente, a questão da sustentabilidade do destino, pois é mais fácil lidar com um milhar de turistas em São Miguel do que no Corvo.

Posto isto, e voltando à questão de partida, será que queremos mesmo igualdade em todas as ilhas? É claro que o acesso aos apoios para a criação das infraestruturas turísticas tem de ser uniformemente permitido – mas não é isso que está em causa.

Deixem São Miguel ficar com tudo e que ele sirva para separar o trigo do joio. Sejamos espertos e saibamos tirar o melhor proveito da sagacidade dos outros. Geralmente, na Terceira, todos os males vêm por bem.

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A ressurreição política dos mortos

As eleições autárquicas são uma espécie de ressurreição dos mortos. As motivações dos candidatos oscilam entre a sede de poder, a obrigatoriedade de marcar presença partidária e o verdadeiro interesse em melhorar o rumo das localidades.

O Toureiros de Terceira by SkyBlue Photography on 500px.com
«O toureiro da Terceira» by SkyBlue

As autárquicas são, provavelmente, a mais nobre materialização da democracia, pois dão a hipótese de eleger pessoas cujo passado, capacidade e motivações são conhecidas dos eleitores. Ora, nesta conjuntura, as campanhas deveriam ser sempre uma época de intensa e rica discussão de ideias e estratégias. Muito mais do que discursos partidários, seriam uma oportunidade para dialogar sobre o passado, o presente e o futuro de cada sítio, com implicações reais no dia-a-dia da população.

Contudo, este ano as autárquicas parecem a folha dos jornais dedicada a anunciar quem faleceu, pois não existem propostas verdadeiramente úteis para a realidade que enfrentamos. Os candidatos não sabem onde começam e terminam as responsabilidades das autarquias. Desconhecem que algumas das suas propostas não fazem parte da esfera pública e que são do âmbito privado. Insistem em falar da ilha como um todo, quando cada concelho tem os seus próprios problemas e prioridades. Inventam adversidades que não existem e soluções que já foram implementadas.

Rua do Galo by Rui Caria on 500px.com
Rua do Galo by Rui Caria

Tratam-se de mortos em espírito, inteligência e sabedoria. São zombies que nem estiveram atentos ao que aconteceu nos últimos anos e que agora, subitamente, ressuscitam para a vida. Se estas pessoas estivessem verdadeiramente interessadas na esfera pública, estariam sempre vivas no dia-a-dia do povo, e as campanhas autárquicas seriam uma oportunidade para reforçar ideias e mudar o rumo do futuro. Contudo, são projetos dedicados a apresentarem pessoas desconhecidas (ou adormecidas), fretes, ideias descabidas e interesses duvidosos. Atinem, porque dos fracos não reza a história.

Turistas? São como as vacas das ilhas!

Pronto. Já me rendi ao facto de que o turismo veio para ficar. Agora vou [tentar] convencer-me de que esta indústria é melhor do que a que vingava anteriormente (i.e. a «lavoura»).

. . by Rui Caria on 500px.com
by Rui Caria

Num claro ensaio de automutilação intelectual, vou comparar o impacto dos turistas e das vacas na vivência açoriana, argumentando que os bovinos estão claramente em desvantagem.

É tão desagradável olhar para um lindo pasto verde e depararmo-nos com a serenidade de umas manchas brancas e pretas – algo completamente desenquadrado do ponto de vista estético. Não há nada melhor do que ver os turistas desnorteados em vestes pseudodesportivas, foleiras e altamente coloridas, que se confundem com as barras das casas de Angra.

Importa mencionar que o impacto sonoro produzido por estes é comparativamente menor, pois um badalo de uma vaca é bem mais ruidoso do que a câmara fotográfica que os forasteiros penduram no pescoço.

Esta nova indústria também beneficia praticamente os mesmos sectores que a primeira, só que no espectro oposto. Por exemplo, na medicina, se antes recorríamos aos médicos veterinários para cuidar das vacas, agora recorremos aos médicos para tratar de turistas que levaram marradas numa tourada ou que interagiram com uma água-viva. Também no sector alimentar, existem semelhanças: antes importávamos rações, agora importamos congelados.

É impossível não mencionar as melhorias no trânsito. Se antes tínhamos gado a circular aleatoriamente pelas estradas da ilha, agora temos turistas em carros alugados. A diferença não reside no estorvo, lentidão, imprevisibilidade e óbvio perigo, mas no facto de que os forasteiros, pelo menos, usam pisca-pisca.

Enfim, muitos outros exemplos poderiam ser alvo de reflexão, mas julgo que já estou convencido. Ao fim e ao cabo, os turistas são como as vacas das ilhas, não são?

«A última palavra é do mar!»

Era quarta-feira e a proximidade do sol ao horizonte reclamava o que restava daquele dia. O desacelerar do quotidiano já se fazia sentir mas as responsabilidades ainda tinham de ser cumpridas. Em busca de um lanche apressado, fomos ao terminal de Multibanco levantar dinheiro. Lá, na moldura de chapa suja, estava um autocolante suficientemente grande para chamar à atenção da minha namorada, mas tão pequeno que o meu olhar desatento não reparou. O pedaço de papel anunciava uma peça de teatro que seria exibida no sábado seguinte. Curiosa, a minha companheira foi saber mais sobre o assunto e descobriu um texto com mais detalhes, que nos incentivaram a não perder o acontecimento.

No sábado fazia junho e a humidade açoriana criara um final de tarde agradável. Num compasso de espera acompanhado por uma conversa animada, uma cerveja e uma bebida citrina, fazíamos tempo para a peça que iria começar às 22:00 horas, na Casa do Sal. À porta, pagámos quatro euros por cada bilhete, esperámos mais um pouco e subimos as escadas. Connosco estavam outras 15 pessoas, no máximo. O piso superior era pequeno e a iluminação improvisada denunciava um teatro alternativo e íntimo. À frente das cadeiras com alguns lugares vazios (talvez das pessoas que recorreram a outros terminais de Multibanco) estavam Hélder Xavier e Ricardo Ávila, prontos para interpretar «Os amores encardido de Padi e Balbina: uma dúbia estória do revenge», encenada por Ana Brum.

Já tínhamos assistido à peça no Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, mas toda a magia daquela pequena sala da Casa do Sal, fazia com que sentíssemos que estávamos a assistir à peça pela primeira vez.

Entre música, choros, gritos, risos e surpresas, o teatro de verdade refletia-se numa história que misturava ingleses, espanhóis, a ilha das Flores e umas caixas misteriosas. Foi, provavelmente, a melhor peça teatral deste ano em Angra do Heroísmo.

Sem efeitos luminosos, sem palco, sem vestes caras, sem merdas. O teatro fez-se à frente de uma parede branca, com as janelas abertas e voltadas para o único figurante da peça: o mar.

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by Rui Caria

Segunda à sexta, em Angra.

O relógio da igreja da Sé desperta a sonolência dos angrenses que, pelas oito e meia da manhã, já voam pelas ruas da cidade a pé, de carro ou nos minibuses em direção aos seus trabalhos. Num passo menos acelerado, vagueiam algumas velhas arrematadas que já se despacharam dos seus compromissos e agora fazem tempo para apanhar a próxima carreira. A esta hora, quem está parado na rua só pode ser louco.

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by Tiago Ormonde

Angra está a todo o gás às dez horas. O empregado de balcão já serviu nove cafés. A comerciante já atendeu oito clientes. O fiscal dos parquímetros já passou sete multas. O desempregado já deixou o currículo em seis empresas. O estafeta já entregou cinco encomendas. O contabilista já tratou das contas de quatro clientes. O médico já atendeu três pacientes. O reformado já deu dois dedos de conversas. O estudante já se baldou a uma aula.

O meio-dia anuncia a maratona dos funcionários públicos, não porque é hora de almoço mas por que precisam dar umas voltas. Desde ir à farmácia até ver o que há de novo nas lojas de roupa, os 60 minutos dividem-se entre saborear o papo-seco e aguardar na fila de atendimento das Finanças.

O martelo pneumático escondido atrás de uma casa em obras, o taxista mal humorado a apitar e uma ambulância em emergência, são a santíssima trindade das 15 horas na cidade. O júbilo do dia acontece com a chuva ou com o sol que decidiram aparecer.

Duas horas depois terminam as aulas e existem tantos putos a atravessar as ruas quanto adultos no dia inteiro. Entre pais e avós mal estacionados, há quem precise de circular por Angra por questões de trabalho.

Às sete da tarde, só se vêm turistas equipados com meias brancas e camisas arregaladas, divididos entre uma selfie com o Vasco da Gama e um olhar atento ao preço dos pratos apresentados à porta dos restaurantes.

Ao final da noite, não se vê nada nem ninguém na rua. A réstia de vida angrense esconde-se nos cafés, no cinema ou numa palestra sobre qualquer coisa, num qualquer lugar.

Depois a humidade traz frio e Angra adormece. Até amanhã, boa noite.

Vento by Luís Godinho on 500px.com
by Luís Godinho

É impossível visitar os Açores sem trazer um galo de Barcelos de recordação

A relação do homem com o meio em que está inserido leva-o muitas vezes a desenvolver artefactos únicos, ora para garantir a sua sobrevivência, ora por outros motivos​. Assim, é normal que determinados costumes e objetos fiquem associados a um sítio ou labor.

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Sunny blue by Alessandro Marini

O passar do tempo, a intervenção​ de diversos agentes ou as alterações de circunstância, fazem com que as associações mencionadas percam força, ficando muitas vezes retraídas na, por vezes fraca, memória coletiva. Ora, se o presente é fruto do passado, é fundamental que este se mantenha vivo, por exemplo, através de tradições orais, recreativas, etc. – marcas vivas da identidade de um povo.

Os Açores têm vivências muito próprias e é natural que quem nos visita queira levar recordações palpáveis de algo relacionado connosco ou com a sua experiência no arquipélago – os chamados souvenirs. Como é claro, os turistas não nos conhecem profundamente e, por isso, não têm a obrigação de entender os souvenirs que lhes colocamos à escolha. Contudo, o contrário já não é válido. Nós temos a obrigação de saber interpretar e dar a escolher recordações lógicas – peças de basalto, bandeiras do Espírito Santo, gaiolas de toiros, etc.

Neste sentido, é fundamental que deixemos de vender galos de Barcelos, louças decoradas com desenhos característicos do Alentejo, canecas com desenhos ridículos, entre outras coisas parvas, desprovidas de significado na cultura local e sem qualquer nível de qualidade de fabrico ou, pelo menos, feitas com matérias primas locais. Há tópicos nos quais temos de ser puristas e os souvenirs é um deles, pois não só são uma forma de espalhar a curiosidade pela nossa vivência e memória (i.e. promover o destino Açores), mas sobretudo um modo de as respeitar, preservar e contribuir para uma indústria turística sustentável.

“O vento enche o meio da vela, as vagas purpúreas
Saltam a grande altura, em volta da esteira do navio, que avança
e corre pelas ondas, trilhando o seu caminho.”
Homero, Ilíada

Ode à ilha sonsa – Um ensaio de storytelling.

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Bruma by Rui Caria

A ilha Terceira apresenta-se hoje como uma oportunidade para experienciar o arquipélago dos Açores de forma diferenciada. Mais do que heróica e vitoriosa, é a Capital do Atlântico Norte.

Há quinhentos anos que tem uma Angra que acolhe e faz heróis. Há quinhentos anos que tem uma Praia que defende e espalha ideais. A Terceira é um símbolo vivo do intercâmbio entre as grandes civilizações, foi o berço da primeira globalização.

A centralidade da ilha foi um dos principais motivos pelos quais se tornou a sede dos poderes religioso, político, económico e militar no arquipélago durante os vários períodos da História de Portugal.

Vaidosamente renascentistas, e de braços abertos para o mar, as suas cidades têm pedras que contam histórias e janelas coloridas que desvendam paixões ardentes.

Apesar da insularidade, foram as gentes da Terceira que, de forma notável, nobre, leal e sempre constante, estiveram na vanguarda do liberalismo português. Hoje, através dos Bailinhos de Carnaval (a maior manifestação de teatro popular da Europa), o espírito crítico conjunto ainda se faz ouvir.

Circunscrito na ilha, está um cordão de freguesias pitorescas, com terceirenses hospitaleiros que cantam ao improviso, organizam festas de rua e agradecem as graças que recebem ao Divino Espírito Santo.

São nos bovinos que percorrem as estradas, nas famosas touradas à corda, que se observa a verdadeira alma terceirense, apaixonadamente ligada a uma tradição que promove o convívio e a amizade há séculos.

Nessa terra de basalto salgado, o vinho tem uma personalidade própria, a carne um sabor autêntico e o peixe um trato inesquecível. Aliás, é no bolo D. Amélia que se demonstra a hospitalidade terceirense, e na alcatra que se saboreia a abundância e tradição.

É na Serra de Santa Bárbara que se pode apreciar a floresta imaculada de laurissilva, que representa uma oportunidade para deslumbrar a natureza que existia antes do homem povoar a Europa.

É nesta ilha que os milhafres e os priolos apreciam a brisa sobre uma imensa manta de retalhos verdes. É nesta ilha que vaguear pelas fumarolas de enxofre, é sentir a respiração de uma natureza dócil e profunda. É na Terceira que os homens entram no ventre da ilha, descendo até ao Algar do Carvão, o único vulcão visitável do mundo.

Todos estes fatores levaram a que os terceirenses saibam celebrar a vida. Por isso, não faltam festas e festivais, desde profanos a religiosos.

A ilha Terceira é a embaixatriz da História dos Açores, exemplar imaculado da natureza vulcânica, a guardiã de uma vivência e cultura únicas e Património da Humanidade.

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Road by Rui Caria