A nova feira medieval da ilha Terceira

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Field by Rui Caria

Foram necessários oito anos para construir o Parque Multissetorial da Ilha Terceira, ou seja, para erguer meia dúzia de paredes e colocar umas placas a servir de tecto.

A construção de um novo espaço dedicado à realização de eventos de grande dimensão representava uma oportunidade para aproveitar a centralidade da Terceira no arquipélago, e dos Açores no atlântico. Entre a insolvência do empreiteiro e a inércia do funcionalismo público, demasiados milhões de euros sumiram-se ao sabor do tempo. A jornada deste projeto, desde o papel até ao mundo metafísico, foi tenebrosa: era suposto os terceirenses ganharem um espaço para feiras futuristas e acabaram por receber um lugar para organizar feiras medievais. Um parque de estacionamento insuficiente, uns hangars pequenos e mal ventilados, entre outras coisas reles, mostram que o povo ficou mal servido.

Não bastava a triste e morosa história da sua construção, o Governo dos Açores decidiu usar o Wine In Azores – uma feira de degustação de vinhos – para inaugurar o Parque Multissetorial da Ilha Terceira. Deus abençoe os iluminados que julgaram que a melhor forma de mostrar o potencial deste novo equipamento, seria usar um evento de nicho. Como esta iniciativa não era suficientemente volumosa para ocupar todo o espaço, os servos de Cristo lembraram-se de encher com chouriço o resto da feira… Aliás, com chouriço, carros, sapatos, electrodomésticos, perfumes, e muitas outras coisas que nada têm a ver com a vinicultura.

Neste episódio ficou claro que o destino medíocre do Parque está traçado. Menos de um mês depois, a Feira Agrícola Açores 2018 demonstra, com clareza, que o espaço está a ser utilizado negligentemente: a sensibilidade dos gestores do lugar é nula para a organização, componente expositiva e design da experiência, com prejuízo para todos os empresários que lá investem e todos os visitantes que de lá saem com as expectativas furadas.

Para bem de todos os açorianos, faço este serviço público: necessitam-se indivíduos capazes de organizar feiras, potenciando a venda de produtos mediante as suas especificidades, recorrendo aos equipamentos e espaços do Parque Multissetorial da Ilha Terceira.*

* Apenas se aceitam candidatos com experiência comprovada na matéria.**
** Feiras medievais não contam.

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Uma ilha será sempre uma ilha.

Esta é uma terra negra e salgada que faz tudo o que pode para sacudir a gente de si para fora. Mesmo aqueles que nascem nela e decidem aqui viver, não morrem quando querem, mas quando ela quiser. Uma ilha será sempre uma ilha. Um homem será sempre um homem.

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by Luís Melo

Nós vamos morrendo, obrigado.

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by Arsénio Romeiro

A contaminação dos solos da ilha Terceira despertou a atenção do Diário Insular em 2008. Desde então, este jornal local tem, incansavelmente, acompanhado, investigado e trazido à estampa todos os aspetos relacionados com esta temática. Foi uma batalha a solo com apenas duas frágeis armas: a persistência e a noção de que o jornalismo serve os cidadãos.

Hoje, passados dez anos, o tema que até agora estava contido no arquipélago, já está a ser discutido em canais de comunicação nacionais e internacionais.

Por que motivo é que o assunto só saltou para a ribalta agora? Quantas pessoas, inconscientes, é que já foram afetadas ou estão em contacto permanente com a contaminação?

O Governo dos Açores está de parabéns pela sua excelente capacidade para varrer o tema para debaixo do tapete e assobiar para o lado: foram dez anos a abafar o assunto; dez anos a fazer de contas que nada estava errado; dez anos a deixar os açorianos a morrer sem saberem por quê.

Agora que o tópico deixou de estar sob o seu controlo, o executivo está nitidamente desnorteado e defende-se deixando os seus santos e apóstolos dissertarem argumentos idiotas, numa tentativa de dissuadir o interesse no assunto.

Tenho a perfeita noção de que a inquietação, infelicidade e morte de 56.000 terceirenses não representa nada perante a sagacidade pela riqueza e bem-estar de 323 milhões de norte-americanos ou paz de 10 milhões de portugueses. Contudo, ainda tenho esperança de que algo será feito para minimizar (e, quiçá, eliminar) a contaminação dos solos da ilha do cancro. Até isso acontecer, sempre que nos perguntarem como estamos, basta responder com a verdade: “Nós vamos morrendo, obrigado”.

Entre mortos e feridos, alguém há de escapar

Hoje, a autonomia açoriana é uma ditadura, disfarçada de democracia e movida pelo populismo. Aquilo que poderia ser uma região desenvolvida, vertical e invejável, é, na verdade, um bando de cegos, surdos e mudos controlados por uns quantos espertos que olham apenas para o seu umbigo.

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by Nuno Ferreira

A autonomia administrativa é um privilégio de poucos. Ter legitimidade para resolver os problemas próprios de um lugar, é ter a liberdade para tomar as melhores opções para todos – a bonita universalidade da autonomia. Nos Açores, existe essa legitimidade, contudo o sistema está povoado de ganância.

Ao governo regional cabia a responsabilidade de criar uma máquina, bem oleada, que servisse os açorianos. Contudo, acabou por criar um mecanismo implacável que serve a ele próprio, aniquilando os que lhe são opostos e domando todos os outros.

Atualmente, o povo dos Açores é composto por pessoas cegas (que vêem, mas não denunciam), surdas (que ouvem, mas fazem ouvidos moucos) e mudas (que vêem e ouvem, mas não podem falar). O que acontece nos nossos dias não se trata de uma fase negativa da autonomia, mas de um status quo imutável.

A pequenez insular faz com que tenhamos de estar ligados uns aos outros, para o bem e para o mal. Numa região onde abundam demasiados milhões de euros oriundos de fundos comunitários, a moeda de troca são a cunha, a conveniência e o favor. É este o preço a pagar por viver nestas ilhas de basalto salgado.

Será que este paradigma irá terminar um dia? A única esperança é que a ganância seja a causa da sua morte. Até lá, entre mortos e feridos, alguém há de escapar.

O socialismo é a morfina dos males dos fracos, a venda que tapa os olhos aos idiotas e a arma dos gananciosos. Aos outros, resta-lhes o silêncio ou uma batalha a solo.

Os meus pêsames.

Biscoitos - Azores by Eduardo Marques on 500px.com
by Eduardo Marques

O povo diz que “a esperança é a última a morrer”, numa vã tentativa de enveredar algum alento nas lutas difíceis. Contudo, no que toca à gestão do turismo na Terceira, ela não resistiu a tanta negligência e acabou por falecer.

“A dôr é tão necessaria ás modificações sucessivas da Natureza como ao progresso e desenvolvimento humano. Ela é condição imposta á vida e elemento imprescindível da arte; ela é a base inevitavel da evolução social.”
por Gervásio Lima, 1929.

O POTRAA (Plano de Ornamento Turístico da Região Autónoma dos Açores) caducou e o governo insular está a realizar a sua [imperativa] atualização de forma faseada. Este processo conta com uma equipa multidisciplinar que está, na etapa atual, a visitar todos os concelhos açorianos para ouvir e debater sobre a sua realidade turística, a fim de desenvolver um plano exequível. Além de ser uma demonstração clara do sentido democrático da autonomia, é uma atitude humilde , que revela que o executivo está verdadeiramente interessado no desenvolvimento de uma estratégia de ordenamento turístico apropriado à nossa realidade.

Nesta sessão aberta ao público, onde se poderia debater a realidade atual da ilha face ao turismo e defender um melhor posicionamento no seu futuro, estavam presentes meia dúzia de gatos pingados, uns com objetivos ocultos e outros com cara de frete. Prezo a abertura da comissão que ouviu, com igual atenção e ânimo, todos os que quiseram falar. Condeno a atitude desprevenida dos gatos, pois entre palpites e distorções da realidade, os felinos (maioritariamente ligados às atividades náuticas) dedicaram-se ao debate de problemas internos do seu gatil (localizado na Marina, junto ao Cais d’Angra) e a pedinchar por coisas que qualquer empresa privada tem a obrigação de considerar (por exemplo, a promoção do produto e a garantia da qualidade do serviço prestado). A postura da Câmara do Comércio demonstrou a madrasta má que é, pois foi a primeira a intervir, num discurso fantasioso que visou representar todos os presentes e ausentes, tentando afastar qualquer outro contributo para a discussão.

Depois deste encontro fatídico, a esperança quanto à possibilidade de virmos a ter uma gestão turística inteligente morreu. E agora? É fácil. Vamos continuar como até aqui fizemos: reconhecemos que há um problema mas depois vê-se o que se vai fazer, porque agora é hora de ir para os toiros.

Esperança? Paz à sua alma.

Guia para fugir à SPA no carnaval terceirense

Carnaval Ilha Terceira Açores. by Renato  Borges on 500px.com
by Renato Borges

O Instituto Açoriano de Cultura (IAC) promoveu recentemente uma mesa redonda sobre os direitos de autor e as tradições populares. A discussão foi instigada pela polémica que explodiu no carnaval terceirense deste ano, quando a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu cobrar direitos.

Não vale a pena esmiuçar os vários argumentos da «problemática», pois iria demorar demasiado tempo (já estamos quase no natal e daqui a nada as danças e bailinhos têm de estar nas sociedades a louvar o entrudo por esta ilha fora).

Assim, respondo à questão que realmente importa: como sobreviver à prepotência e incompreensão da SPA fase ao carvanal da Terceira? É fácil. Àqueles que agora começam a preparar os enredos, músicas, coreografias e afins: basta não copiar. Exato: não copiar. Pensem pela própria cabeça, não se limitem a copiar os trabalhos que já estão feitos. Lembrem-se que antes da internet, muitos amantes do entrudo escreveram e prepararam centenas (ou até milhares) de danças e bailinhos. Por eles e pelo futuro da nossa tradição, não copiem.

Um mal que veio por bem?

As estatísticas recentes indicam que o turismo na Terceira teve um crescimento inferior quando comparado com as outras ilhas açorianas. A maioria das pessoas e empresários receberam esta notícia com desagrado, apontando o dedo à sagacidade micaelense e à incompetência do Governo na promoção da igualdade entre todas as ínsulas.

Poucas almas irão perceber que este contratempo poderá ser bem aproveitado para, por exemplo, organizar a oferta, clarificar a estratégia turística e salvaguardar a nossa identidade. Contudo, a ferocidade terceirense é de tal ordem, que tudo o que esteja além do curto-prazo não é equacionado no presente.

Lagoa do Fogo and green valley on San Miguel island by aragami12345 on 500px.com
by Aragami

Alguém já reparou que a centralidade de São Miguel poderá ser uma forma de nos tornarmos mais sustentáveis? Vejamos: se a ilha-ananás for a porta de entrada do turismo nos Açores, ela ficará com os visitantes de todas as classes, mas só as que têm posses e grau de interesse superiores (de grosso modo, as mais «endinheiradas» e «cultas») darão os passos necessários para visitarem outras ínsulas. A título de exemplo ilustrativo, enquanto São Miguel ganha 1000€ com 100 turistas  (e acarreta as responsabilidades inerentes), as restantes ilhas, com o tal público mais avantajado, precisa de 25 forasteiros para angariar o mesmo valor.

Nesta perspectiva satisfaz-se, claramente, a questão da sustentabilidade do destino, pois é mais fácil lidar com um milhar de turistas em São Miguel do que no Corvo.

Posto isto, e voltando à questão de partida, será que queremos mesmo igualdade em todas as ilhas? É claro que o acesso aos apoios para a criação das infraestruturas turísticas tem de ser uniformemente permitido – mas não é isso que está em causa.

Deixem São Miguel ficar com tudo e que ele sirva para separar o trigo do joio. Sejamos espertos e saibamos tirar o melhor proveito da sagacidade dos outros. Geralmente, na Terceira, todos os males vêm por bem.