A insignificância da linha costeira para os açorianos

Numa das minhas leituras aleatórias, li um pequeno artigo sobre um estudo realizado à gestão da linha costeira das ilhas açorianas. Neste documento, falava-se da forma como os ilhéus tinham usufruído das estruturas geológicas para criar zonas balneares, umas vezes utilizando-as tal como elas são e outras modificando-as para torná-las mais cómodas. O texto desencadeou em mim uma reflexão sobre a forma com que o açoriano vê o limite entre a terra e o mar.

Anonymous Paradise by André Farinha on 500px.com

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Durante os meus estudo no continente, muitas pessoas perguntavam-me como é que eu conseguia viver num espaço tão circunscrito. A questão parecia afligi-las, como se imaginassem a ilha enquanto prisão de quatro paredes por onde não se consegue escapar. A minha resposta baseava-se simplesmente em descrever dois pontos distintos: por um lado, expor a naturalidade com que o ilhéu olha para a linha costeira, i.e. trata-se apenas da faixa onde o mar e a terra se misturam; e, por outra, da forma aberta com que o açoriano acolhe a vastidão do mar.

A percepção do limite, enquanto ilhéu, é muito clara e presente. O limite é a linha que o mar desenha na terra. No entanto, não é barreira, o mar é continuidade e não motivo de exílio, é o espaço onde o ilhéu mensura a sua própria concepção de infinito, onde desenha o seu caminho de evasão.

Por Filipa Bettencourt Picanço

Nunca senti que o mar fosse um monstro claustrofóbico e inibidor de ver mundo. Pelo contrário, sempre senti que o mar fosse libertador. Enquanto que uns vêem o oceano como o limite do alcançável, os açorianos vêem-no como a certeza de que conhecem tudo o que existe, que não há mais nada a observar ou conquistar. Assim, o mar é o expoente máximo do que há para conhecer: nele tudo começa e acaba.

O mar é uma referência geográfica, olhá-lo é saber onde se está. Da mesma forma que o pastor usa os montes para se guiar pelos campos, os açorianos usam o mar e a linha costeira para vaguear pelas ilhas (de forma física ou espiritual). Assim, é expectável que alguns açorianos se sintam desnorteados e encurralados quando estão nas grandes cidades, onde os prédios os sufocam, inibindo-os de ver o mar. Nesta perspectiva, o oceano, por estar libertado e ser libertador, é também entendido como uma enorme fonte de inspiração. A arte no açoriano surge em pleno mar deserto: é na [falsa] percepção de se conhecer tudo o que a visão alcança que a criação decorre. Provavelmente, é este mesmo facto que leva à originalidade e excepcionalidade da cultura açoriana, criando-se um paradoxo: o que inibe é simultaneamente o que liberta.

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A naturalidade com que o açoriano vê a linha costeira torna-a insignificante. Não importa se é uma calheta, uma angra ou uma falésia: o açoriano vê a costa como uma porta para o mar, numa relação de respeito e profunda ternura como aquela que se tem com um amigo de longa data.

Terceira Island Azores by Eduardo Marques on 500px.com Terceira Island Azores by Eduardo Marques on 500px.com

Esta é, a vez primeira. A vez primeira: que neste auditório canto.

Nasci numa ilha em pleno oceano atlântico que, com outras oito, forma o arquipélago dos Açores. Todos os dias, há diferentes tons de azul e verde que me enchem os olhos. Apenas o basalto negro permanece igual, lembrando a origem vulcânica destas ínsulas.

Tendo em conta que estão distribuídas ao longo de 600km, designá-las num todo como arquipélago é relativamente recente.

Então, o que há de interesse num local tão remoto? Esta é a questão de partida. Seria mais correto definir cada ilha como um arquipélago per si, do que num conjunto. Nos Açores, cada ilha é um arquipélago.

A posição do conjunto insular no atlântico tornou-se fundamental nos trajectos marítimos dos séculos XV a XVIII, permitindo o interesse e fixação de gentes. As condições atmosféricas e solo rico levaram ao desenvolvimento de indústrias agrícolas e pecuárias produtivas. Contudo, estas ilhas não se deixam domar facilmente e lembram constantemente que são filhos da natureza: erupções vulcânicas, terramotos e tempestades são as mais temíveis demonstrações da soberania destas ilhas.

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Todos estes factores influenciaram as gentes que se fixaram e prosperaram nestas terras de basalto negro, desenvolvendo assim uma identidade açoriana, fruto do isolamento e circunstância insular.

O tempo e o isolamento poderiam ser os causadores da sua morte, mas são estes que [também] mantêm a identidade que ainda hoje se manifesta de forma intensa através de oralidades, tradições e vivências.

Basalto Salgado é um blogue que materializa reflexões sobre a insularidade açoriana: o seu imaginário, identidade e vivência. Estes pensamentos, mais ou menos profundos, não se preocupam com atributos científicos porque são fruto de uma figura simultaneamente passiva e ativa que observa, toca, prova, ouve e sente a insularidade açoriana.

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