Uma visão para Angra do Heroísmo

Tenho tenra idade e ocupo uma parte significativa do meu tempo com trabalho. Talvez por estar envolvido numa organização que tem jurisdição direta sobre a cidade, cruzo-me muitas vezes com tarefas que envolvem conhecimentos históricos. Este facto despertou em mim a necessidade de conhecer mais sobre o passado da Muito Nobre, Leal e Sempre Constante Cidade de Angra do Heroísmo. O conhecimento que vou apreendendo, de forma paulatina e parca, deixa-me sucessivamente maravilhado com a grandeza desta urbe. À vista da atualidade, custa-me acreditar que nesta mesma cidade já tenham passado reis e senhores de muitos mundos – Angra foi uma capital em muitos sentidos.

Hoje, Angra parece que não vale muito. Tem paredes que contam história, mas poucos sabem lê-las. É uma cidade que vive das 9h00 às 5h00, de segunda à sexta, e depois adormece, ficando ao mercê do turista desconsolado, que vagueia pelas ruas despidas de vida. Noutros dias, está entregue aos loucos que, embora inofensivos, não perdem a oportunidade para cravar uns trocos e contar a sua história, meia real, meia inventada. Esta urbe, outrora grandiosa, está a morrer paulatinamente nos nossos braços e nós, simultaneamente ingénuos e vis, entregamo-a à podridão. É uma cidade desgovernada que navega ao sabor do vento e do tempo.

“A concepção moderna do progresso chega a ser anti-histórica e, deste modo, contraditória: o passado é visto a partir dos sucessos atuais e tido sem valor referencial; e o presente a si próprio se aniquila, na ansia das promessas tecnológicas futuras, que desconhece. Como não há ponto transcendente e uma definição a priori, o progresso é ilusório. Há um eterno presente sem memória e insatisfeito.”
Mário T. Cabral

Pensar sobre o futuro de Angra, é cair num paradoxo desconfortável, onde a sua designação enquanto Património Mundial é simultaneamente amada e odiada. Os dois olhares futuristas vagueiam no limbo de duas ideias: ou evoluímos condicionando (ou mesmo “destruindo”) o que existe, ou mantemos o que temos, sobre o custo de “não evoluirmos”. Embalados pela crítica constante da corja desta cidade, parecemos incapazes de ultrapassar este paradoxo.

Nesta conjuntura, julgo que os problemas de Angra residem em três fatores basilares, nomeadamente: falta de auto-conhecimento, falta de criatividade e falta de vontade.

Passo a esmiuçar.

Só é possivel construir o futuro se estivermos munidos de dois alicerces fundamentais: uma visão e a vontade de alcançá-la.

Neste momento, Angra tem poucas visões aparentemente. Continua a centrar-se na resolução de pequenos focos de ação. Tal não é necessariamente mau, aliás, é através de pequenos passos que se alcançam objetivos maiores. Contudo, continua a faltar uma grande visão. Por exemplo, daqui a 10 anos, queremos ser quem? Queremos alcançar o quê? São as respostas a perguntas como estas que nos permitem entender o que pretendemos conquistar e, com isso, definir e seguir um caminho. Até agora, parece que existe falta de vontade para se desenvolver e perseguir um grande objetivo.

Esta aparente falta de motivação, ou sentimento de apatia, pode justificar-se por vários fatores. Talvez, o mais simples, trata-se do facto de não nos conhecermos a nós próprios. Será possível sabermos o que queremos, se não temos conhecimento de quem somos? Não me parece. Este é o primeiro desafio de Angra: promover o auto-conhecimento. Em Angra, é possível  chegar a tal objetivo, temos as infraestruturas e recursos humanos para tal.  Depois de nos conhecermos, saberemos com toda a certeza, onde nos posicionamos, o que temos e o que queremos alcançar.

“A paisagem é o testemunho das obras de todas as gerações que passaram, usaram ou viveram num determinado espaço.”
Ingold & Bradle, 1993

Outro problema recorrente nesta cidade, principalmente nas últimas décadas,  baseia-se no facto de termos assistido ao esvaziamento e abandono de muitos edifícios do centro histórico. Em parte, porque as condições de habitabilidade, face à contemporaneidade, tornam o centro histórico quase “desaquado” à qualidade de vida que muitas pessoas pretendem. Por outro lado, temos assistido à construção de muitos edifícios/equipamentos que nos primeiros tempos de vida parecem bastante úteis, mas que como passar dos anos, tornam-se casas despidas de vida e atividade. É na resolução destes dois sentidos que a criatividade, que nos tem faltado, é útil. Esta é sobretudo importante para reapropriar os espaços existentes para novas funções e rentabilizar os novos edifícios. A atual ausência de criatividade pode ser causada pela nossa insularidade, contudo, na atual aldeia global, a proximidade é tão distante quanto a vontade de atravessar fronteiras. Neste sentido, temos de nos conhecer e ser criativos no desenvolvimento de uma visão e estratégia.

Por fim, falta vontade. E não é só vontade política. Falta intenção institucional, organizacional e até mesmo individual.

Qual é o primeiro passo? Estarmos juntos. Para irmos longe, temos de juntar várias vontades, forças e pontos de vista. Esta tem sido a receita mais apropriada para as longas mas firmes caminhadas. Esta é uma das principais conclusões que tiro da discussão da gestão do centro histórico de Angra, que se tem traduzido em múltiplas conferências organizadas pela Direção Regional da Cultura.

Estas são as minhas sinceras ideias sobre o assunto. Teria imenso gosto em fazer parte desta caminhada, mesmo que a minha importância na discussão seja minúscula.

“(…) Se a Sapateira não der
Para acalmar a minha alma inquieta,
Estou para o seu der e vier
Nas voltas da Chamarrita.”
in Chamateia, 1987

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