Vivenciar a Cidade sem exageros

A minha deslocação recente ao Porto fez-me reflectir sobre o conceito de cidade. Para mim, uma urbe é muito mais do que ruas e edifícios. Uma cidade é um sistema aberto composto por diferentes elementos que se relacionam entre si. É a mistura de interações entre pessoas, ruas, edifícios, serviços, cultura, entre muitas coisas, mais ou menos complexas, mais ou menos humanas. Assim, quando visito uma cidade, mais do que apreciar a sua arquitetura, quero contemplar e envolver-me na sua vivência. Entenda-se vivência como o dia-a-dia das gentes que vivem/trabalham/revêem-se na cidade.

“Cidade: Meio geográfico e social caracterizado por uma forte concentraçãopopulacional que cria uma rede orgânica de troca de serviços (administrativos, comerciais, profissionais, educacionais e culturais).”
Dicionário Português

Ora, ao visitar o Porto, fiquei com a sensação que só consegui contemplar a sua parte arquitetónica, pois a vivência da cidade estava camuflada por uma maré gigante de turistas. Estes, que vagueavam desgovernadamente pela cidade, fotografando cada pedacinho de estátua, igreja ou rua.

Está observação fez-me levantar uma questão: será que esta mancha turística deve ser vista como uma espécie de “à parte” da vida da cidade ou deve ser aceite como a nova realidade da vivência da cidade?

Coloquei esta questão a uma amiga portuense que me indicou que existem grandes diferenças entre o Porto antes do turismo e o Porto depois do turismo. Ela começou por falar na nova vida: certas partes desta cidade, outrora entregues à criminalidade, estão agora alegremente movimentadas e seguras. Muitos dos edifícios que estavam devultos estão a ser recuperados, muitas das lonas que estavam fechadas estão a ser reabertas.

Na perspetiva da minha amiga nota-se, portanto, consequências positivas face à introdução do turismo na cidade. Contudo, no extremo oposto, fala num “exagero de turistas”. Ou seja, o balanço entre visitantes e locais é desproporcional.

Na nossa conversa notei que ela via os turistas como pessoas à parte da cidade, como uma realidade que pouco interessa à vivência quotidiana.

Fazendo agora a ponte para os Açores: será que o turismo será sempre um “à parte” ou tronar-se-á, efetivamente, na nova realidade açoriana? Tudo aponta para que esta segunda opção vingue. Tal como no Porto, o turismo trará benefícios. Mas tenhamos cuidado e aprendamos com os erros dos outros para não cairmos no “exagero”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s