A política dos pensos rápidos

A máquina governativa socialista açoriana está a descaracterizar a autonomia, a ludibriar o povo e a exterminar o futuro da região.

A independência na administração dos Açores ganhou sentido quando o governo de Lisboa, depois da Revolução dos Cravos, continuava a emanar políticas que não se ajustavam à realidade insular. Foi este o mote que criou o princípio autonomista, onde se defende que as pessoas mais indicadas para encontrar uma solução, são as mesmas que conhecem o problema.

Desde 8 de setembro de 1976, data em que o primeiro Governo Regional tomou posse, os açorianos experimentaram, primeiro, uma lide social-democrata e, desde 1996, um maneio socialista. Em 22 anos, a esquerda conseguiu desenvolver uma máquina implacável que, em vez de servir os açorianos, serve ela própria. Como é que chegamos a este ponto?

Para garantir as sucessivas reeleições, os governos de Carlos César e Vasco Cordeiro dão aquilo que as pessoas mais desejam: emprego. Isto poderia ser uma utopia tornada realidade, contudo o problema reside na qualidade dessa dádiva, pois são trabalhos precários que replicam e complicam as responsabilidades do poder regional. Naturalmente, este facto materializa-se, sobretudo, através da criação de entidades público-privadas, onde o governo paga as despesas, e uns privados [muito saudosos e exclusivos] arrecadam os lucros. Este método tem «ocupado» o povo que retribuí o «favor» através de votos, mantendo a esquerda na dianteira.

Esta receita, com resultados repetidamente comprovados, levou ao estado atual das coisas: um Governo insolvente que usa o dinheiro para sustentar empregos fictícios e serviços duplicados. Na verdade, o que a administração açoriana deveria fazer – porque é esta a sua responsabilidade primordial – seria minimizar os condicionalismos da insularidade, com vista à melhoria da importação e exportação de bens e serviços produzidos na região, para que as empresas locais pudessem ser competitivas no panorama extrarregional e, por sua vez, permitir a criação de empregos dignos para os açorianos.

Há muito tempo que esta forma de governança demonstrou que dá peixe em vez de ensinar a pescar. Qual poderá ser o futuro de uma região que é incapaz de pensar num prazo mais lato que quatro anos? Qual é o futuro de um Governo que há demasiado tempo recorre a pensos rápidos, em vez de suturar as feridas?

Advertisements

A nova feira medieval da ilha Terceira

Field by Rui Caria on 500px.com
Field by Rui Caria

Foram necessários oito anos para construir o Parque Multissetorial da Ilha Terceira, ou seja, para erguer meia dúzia de paredes e colocar umas placas a servir de tecto.

A construção de um novo espaço dedicado à realização de eventos de grande dimensão representava uma oportunidade para aproveitar a centralidade da Terceira no arquipélago, e dos Açores no atlântico. Entre a insolvência do empreiteiro e a inércia do funcionalismo público, demasiados milhões de euros sumiram-se ao sabor do tempo. A jornada deste projeto, desde o papel até ao mundo metafísico, foi tenebrosa: era suposto os terceirenses ganharem um espaço para feiras futuristas e acabaram por receber um lugar para organizar feiras medievais. Um parque de estacionamento insuficiente, uns hangars pequenos e mal ventilados, entre outras coisas reles, mostram que o povo ficou mal servido.

Não bastava a triste e morosa história da sua construção, o Governo dos Açores decidiu usar o Wine In Azores – uma feira de degustação de vinhos – para inaugurar o Parque Multissetorial da Ilha Terceira. Deus abençoe os iluminados que julgaram que a melhor forma de mostrar o potencial deste novo equipamento, seria usar um evento de nicho. Como esta iniciativa não era suficientemente volumosa para ocupar todo o espaço, os servos de Cristo lembraram-se de encher com chouriço o resto da feira… Aliás, com chouriço, carros, sapatos, electrodomésticos, perfumes, e muitas outras coisas que nada têm a ver com a vinicultura.

Neste episódio ficou claro que o destino medíocre do Parque está traçado. Menos de um mês depois, a Feira Agrícola Açores 2018 demonstra, com clareza, que o espaço está a ser utilizado negligentemente: a sensibilidade dos gestores do lugar é nula para a organização, componente expositiva e design da experiência, com prejuízo para todos os empresários que lá investem e todos os visitantes que de lá saem com as expectativas furadas.

Para bem de todos os açorianos, faço este serviço público: necessitam-se indivíduos capazes de organizar feiras, potenciando a venda de produtos mediante as suas especificidades, recorrendo aos equipamentos e espaços do Parque Multissetorial da Ilha Terceira.*

* Apenas se aceitam candidatos com experiência comprovada na matéria.**
** Feiras medievais não contam.

Entre mortos e feridos, alguém há de escapar

Hoje, a autonomia açoriana é uma ditadura, disfarçada de democracia e movida pelo populismo. Aquilo que poderia ser uma região desenvolvida, vertical e invejável, é, na verdade, um bando de cegos, surdos e mudos controlados por uns quantos espertos que olham apenas para o seu umbigo.

"I 'm a tuna fisherman" by Nuno Ferreira on 500px.com
by Nuno Ferreira

A autonomia administrativa é um privilégio de poucos. Ter legitimidade para resolver os problemas próprios de um lugar, é ter a liberdade para tomar as melhores opções para todos – a bonita universalidade da autonomia. Nos Açores, existe essa legitimidade, contudo o sistema está povoado de ganância.

Ao governo regional cabia a responsabilidade de criar uma máquina, bem oleada, que servisse os açorianos. Contudo, acabou por criar um mecanismo implacável que serve a ele próprio, aniquilando os que lhe são opostos e domando todos os outros.

Atualmente, o povo dos Açores é composto por pessoas cegas (que vêem, mas não denunciam), surdas (que ouvem, mas fazem ouvidos moucos) e mudas (que vêem e ouvem, mas não podem falar). O que acontece nos nossos dias não se trata de uma fase negativa da autonomia, mas de um status quo imutável.

A pequenez insular faz com que tenhamos de estar ligados uns aos outros, para o bem e para o mal. Numa região onde abundam demasiados milhões de euros oriundos de fundos comunitários, a moeda de troca são a cunha, a conveniência e o favor. É este o preço a pagar por viver nestas ilhas de basalto salgado.

Será que este paradigma irá terminar um dia? A única esperança é que a ganância seja a causa da sua morte. Até lá, entre mortos e feridos, alguém há de escapar.

O socialismo é a morfina dos males dos fracos, a venda que tapa os olhos aos idiotas e a arma dos gananciosos. Aos outros, resta-lhes o silêncio ou uma batalha a solo.