«A última palavra é do mar!»

Era quarta-feira e a proximidade do sol ao horizonte reclamava o que restava daquele dia. O desacelerar do quotidiano já se fazia sentir mas as responsabilidades ainda tinham de ser cumpridas. Em busca de um lanche apressado, fomos ao terminal de Multibanco levantar dinheiro. Lá, na moldura de chapa suja, estava um autocolante suficientemente grande para chamar à atenção da minha namorada, mas tão pequeno que o meu olhar desatento não reparou. O pedaço de papel anunciava uma peça de teatro que seria exibida no sábado seguinte. Curiosa, a minha companheira foi saber mais sobre o assunto e descobriu um texto com mais detalhes, que nos incentivaram a não perder o acontecimento.

No sábado fazia junho e a humidade açoriana criara um final de tarde agradável. Num compasso de espera acompanhado por uma conversa animada, uma cerveja e uma bebida citrina, fazíamos tempo para a peça que iria começar às 22:00 horas, na Casa do Sal. À porta, pagámos quatro euros por cada bilhete, esperámos mais um pouco e subimos as escadas. Connosco estavam outras 15 pessoas, no máximo. O piso superior era pequeno e a iluminação improvisada denunciava um teatro alternativo e íntimo. À frente das cadeiras com alguns lugares vazios (talvez das pessoas que recorreram a outros terminais de Multibanco) estavam Hélder Xavier e Ricardo Ávila, prontos para interpretar «Os amores encardido de Padi e Balbina: uma dúbia estória do revenge», encenada por Ana Brum.

Já tínhamos assistido à peça no Núcleo de História Militar Manuel Coelho Baptista de Lima, mas toda a magia daquela pequena sala da Casa do Sal, fazia com que sentíssemos que estávamos a assistir à peça pela primeira vez.

Entre música, choros, gritos, risos e surpresas, o teatro de verdade refletia-se numa história que misturava ingleses, espanhóis, a ilha das Flores e umas caixas misteriosas. Foi, provavelmente, a melhor peça teatral deste ano em Angra do Heroísmo.

Sem efeitos luminosos, sem palco, sem vestes caras, sem merdas. O teatro fez-se à frente de uma parede branca, com as janelas abertas e voltadas para o único figurante da peça: o mar.

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by Rui Caria

Ode à ilha sonsa – Um ensaio de storytelling.

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Bruma by Rui Caria

A ilha Terceira apresenta-se hoje como uma oportunidade para experienciar o arquipélago dos Açores de forma diferenciada. Mais do que heróica e vitoriosa, é a Capital do Atlântico Norte.

Há quinhentos anos que tem uma Angra que acolhe e faz heróis. Há quinhentos anos que tem uma Praia que defende e espalha ideais. A Terceira é um símbolo vivo do intercâmbio entre as grandes civilizações, foi o berço da primeira globalização.

A centralidade da ilha foi um dos principais motivos pelos quais se tornou a sede dos poderes religioso, político, económico e militar no arquipélago durante os vários períodos da História de Portugal.

Vaidosamente renascentistas, e de braços abertos para o mar, as suas cidades têm pedras que contam histórias e janelas coloridas que desvendam paixões ardentes.

Apesar da insularidade, foram as gentes da Terceira que, de forma notável, nobre, leal e sempre constante, estiveram na vanguarda do liberalismo português. Hoje, através dos Bailinhos de Carnaval (a maior manifestação de teatro popular da Europa), o espírito crítico conjunto ainda se faz ouvir.

Circunscrito na ilha, está um cordão de freguesias pitorescas, com terceirenses hospitaleiros que cantam ao improviso, organizam festas de rua e agradecem as graças que recebem ao Divino Espírito Santo.

São nos bovinos que percorrem as estradas, nas famosas touradas à corda, que se observa a verdadeira alma terceirense, apaixonadamente ligada a uma tradição que promove o convívio e a amizade há séculos.

Nessa terra de basalto salgado, o vinho tem uma personalidade própria, a carne um sabor autêntico e o peixe um trato inesquecível. Aliás, é no bolo D. Amélia que se demonstra a hospitalidade terceirense, e na alcatra que se saboreia a abundância e tradição.

É na Serra de Santa Bárbara que se pode apreciar a floresta imaculada de laurissilva, que representa uma oportunidade para deslumbrar a natureza que existia antes do homem povoar a Europa.

É nesta ilha que os milhafres e os priolos apreciam a brisa sobre uma imensa manta de retalhos verdes. É nesta ilha que vaguear pelas fumarolas de enxofre, é sentir a respiração de uma natureza dócil e profunda. É na Terceira que os homens entram no ventre da ilha, descendo até ao Algar do Carvão, o único vulcão visitável do mundo.

Todos estes fatores levaram a que os terceirenses saibam celebrar a vida. Por isso, não faltam festas e festivais, desde profanos a religiosos.

A ilha Terceira é a embaixatriz da História dos Açores, exemplar imaculado da natureza vulcânica, a guardiã de uma vivência e cultura únicas e Património da Humanidade.

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Road by Rui Caria

O entretenimento noturno que oferecemos aos turistas é de plástico

Uma das principais queixas que recebemos dos turistas que visitaram a Terceira em 2015/2016, prendia-se com a «inexistência» de atividade noturna. Como qualquer pessoa que vai de férias para o estrangeiro, é compreensível que os nossos visitantes tenham uma determinada expetativa do que vão encontrar na ilha – segurança, gastronomia, estadia e mobilidade, são alguns dos «requisitos mínimos», por exemplo. A isto junta-se uma lista de «coisas» para ver e/ou experimentar, que se esperam, sempre ou maioritariamente, «diferentes» ou «iguais» ao que conhecemos, consoante a nossa sede pela descoberta.

É este conflito entre o cumprimento das expetativas que os turistas trazem e a vivência açoriana, que muitas vezes nos leva a «deturpar» a realidade para nos tornarmos mais «apetecíveis turisticamente».

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Para combater a queixa acima apresentada, o Governo Regional desenvolveu um mecanismo de entretenimento noturno que se baseava no financiamento de música ao vivo nos bares e cafés da cidade. É claro que isto beneficia diretamente os artistas e estabelecimentos locais. Também é óbvio que os turistas ficam satisfeitos pois têm «o que fazer» à noite. Esta conjuntura levou-me a questionar o que é que nós, terceirenses, fazemos à noite, enquanto os forasteiros estão nos cafés e bares a ouvir música? A resposta é óbvia quando pensamos no verão e na primavera: estamos distribuídos pelos terreiros da ilha, a celebrar as festas em honra de divindades. Contudo, quando nos debruçamos sobre o inverno, a resposta é mais densa.

Agasalhado do frio e da chuva, o entretenimento noturno dos terceirenses começa logo em janeiro, nos ensaios de bailinhos e danças de Carnaval, «escondidos» em garagens e sociedades; acontece nas igrejas e centros paroquiais, onde se juntam para resolver problemas sociais; têm lugar nas igrejas e salas onde os grupos de jovens, escuteiros e filarmónicas funde a sabedoria com a partilha, a música e os valores; acontece nas casas de pasto, entre as botas de cano de um dia de trabalho e as discussões sobre as partidas de futebol; aparece nos impérios, onde se preparam as festas do Divino Espírito Santo, e onde a arrematação é bem mais divertida do que a novela que passa na televisão. O entretenimento noturno terceirense existe e é munido de partilha, amizade e tradição – uma experiência única que demonstra com veracidade a vivência da nossa insularidade.

Será que vale a pena «dar música» aos turistas, quando podemos partilhar pedacinhos da nossa imensa riqueza cultural?

E tudo o turismo levará…

Escrevo estas linhas poucos dias depois das low-cost chegarem à Terceira. Entre os benefícios e devaneios que elas trazem (tópicos que já foram tratados neste blogue), hoje gravo, para memória futura, aquilo que foi, ainda é, mas provavelmente deixará de ser alguns aspetos da vivência da ilha Terceira. No fundo, farei uma pequena lista de ocorrências que são próprias da nossa açorianiedade e que, provavelmente, vão perder-se a breve trecho. Recordo que o investimento no turismo foi sobretudo fomentado pelo fim das cotas leiteiras. Registo aqui, aquilo que eu, nascido em meados dos anos noventa, em pleno ciclo da vaca, vi, ouvi e senti como sendo a forma de ser terceirense.

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Green by Rui Caria

Comecemos pelas casas dos lavradores (ou vaqueiros, no calão local) tipicamente grandes e acompanhadas de tratores e cães (das raças Fila de São Miguel, Barbado da Terceira ou Pastor Australiano) que, acorrentados, defendiam os pátios de potenciais intrusos que viessem roubar umas bilhas ou a panóplia de atrelados e máquinas de trabalhar a terra. Recordo também as carrinhas de caixa aberta em madeira, meticulosamente decoradas, que demonstravam a ostentação da lavoura que serviam. O símbolo da casa gravado nas postas, a quantidade e grossura das cordas presas na dianteira e caixa do veículo, assim como a grelha, sempre personalizada e robusta, são alguns dos exemplos da importância dos lavradores. No outono e inverno são particularmente detestáveis, pois transportam silo nauseabundo pelas ruas da ilha.

cows by António Sousa on 500px.comCows by António Sousa

As vacas (felizes, por sinal), tal como as pessoas, vagueiam de um ponto A para um ponto B utilizando as estradas. Num sentido mais concreto, vão de pasto para pasto (ou de  cerrado para cerrado, como se diz por aqui) navegando, em manada, entre os carros que teimam em meter-se no caminho. Nos Açores, um dos requisitos para ser considerado um bom condutor passa por saber como atravessar uma manada de vacas, numa qualquer estrada, sem magoá-las, sem danificar o veículo e sem pisar excrementos bovinos.

Mas é na cidade que mais noto a diferença. Já se vêem poucas velhas vestidas de preto (sinal de viuvez), que vieram no autocarro (urbana ou carreira, como chamamos) para fazer as suas voltas, desde levantar os cheques (quer o grande, quer o pequenino) até comprar umas meias, ir ao mercado, ir ao médico, ou comprar umas lembranças para os netos. Tudo isto intercalado com pausas no meio da rua, quando se cruzam com outra qualquer velha, e aproveitam para fazer um briefing de mexericos ora sobre as suas vidas, ora sobre a vida dos outros. Odiadas por muitos, acredito que vão deixar saudades quando forem (como estão a ser) substituídas por turistas, a falar outras línguas, de mapa na mão e máquina fotográfica ao pescoço.

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Maria João by Rui Caria

Muitas outras coisas mudaram e vão mudar. Estes são apenas alguns exemplos. Não são as mudanças que o ciclo do turista traz que me deixam triste, mas sim o desprezo, desvalorização, destruição, ganância e excessos que esta nova era poderá trazer, e o impacto que isso terá na forma de ser terceirense. Cá para mim, o cúmulo acontecerá no dia em que fizermos uma tourada à corda para turista ver. Nesse dia, deixaremos de ser terceirenses e passaremos a ser gente sem identidade, que representa o que outrora foi, só para garantir o pão na mesa, mas cuja miséria está na alma. Oxalá, não cheguemos a esse ponto.

O segredo açoriano para a longevidade das tradições

A insularidade açoriana é inúmeras vezes apontada como um dos principais motivos pelos quais a nossa cultura tem muitos traços distintivos. Contudo, julgo que há um outro fator determinante: o envolvimento ativo das gerações mais novas nas tradições.

É recorrente que um determinado costume de uma comunidade conte com a participação de indivíduos que encarnam papéis distintos – por exemplo: um padre, um fogueteiro, etc. Quanto mais abrangente for uma determinada manifestação cultural (i.e. quanto mais pessoas estiverem envolvidas), maior a hipótese das crianças, adolescentes e jovens adultos dessa determinada comunidade estarem presentes. No caso açoriano, além destas faixas etárias assistirem, são envolvidas ativamente nas manifestações culturais, encarnando também papéis [muitas vezes] distintos.

«Com pombas aos quatro cantos
E no meio uma mais forte,
Serves de lenço nos prantos
E de sudário na morte.»
Vitorino Nemésio

Apesar da ilha Terceira ser rica em exemplos deste envolvimento, julgo que a tradição que melhor o ilustra é a coroação do Divino Espírito Santo.

Resumidamente, as coroações são uma espécie de procissão em dois atos: o primeiro constituí-se na concentração de pessoas num determinado ponto de encontro, que se organiza num desfile rumo à igreja onde, depois de uma missa e coroação (no sentido literal da palavra), começa o segundo ato no qual a comunidade (com cada um dos indivíduos bem cientes do seu papel) enverga bandeiras, coroas e varas, dirigindo-se até ao Império (pequena ermida do Divino Espírito Santo).

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Espírito Santo, por António Araújo

Apesar do número geralmente elevado de participantes, todos conhecem o seu lugar. Ora vejamos:

a) As crianças de muito tenra idade (aquelas que começaram a andar à pouco tempo) são recrutadas para serem coroadas (i.e. ostentarem uma coroa de prata sob a cabeça).

b) As crianças mais crescidas, aquelas que andam pela primária, seguram, aos pares, a coroa de quem está a ser coroado.

c) Intercalados com as coroas, vão os adolescentes masculinos (embora, hoje, já se tolerem meninas) que levam as bandeiras do Divino Espírito Santo ao ombro (desde que a sua robustez física o permita), acompanhados por uma rapariga, também adolescente, em cada lado. Este padrão coroa/bandeira repete-se quantas coroas houverem disponíveis.

d) Os jovens adultos (candidatos à mordomia dos Impérios), levam as coroas (ou pratos destas, conforme o ato) no final da coroação, antes da filarmónica.

e) Todos os restantes elementos da comunidade, desde que a saúde o permita, acompanham o aparato em duas alas, uma de cada lado, junto às bermas da estrada.

f) Se a idade avançada ou a saúde não permitem que alguns dos membros da comunidade participem na coroação, estes assistem à mesma debruçados nas janelas abertas, enfeitadas com as melhores mantas de retalhos ou colchas que a casa tem.

Apesar destes papéis se alterem ligeiramente de freguesia para freguesia e de geração para geração, julgo que é um exemplo extraordinário do que foi exposto anteriormente.

es2012_363388.jpgEspírito Santo, por António Araújo

Muito mais do que assistir, julgo que é o envolvimento ativo das gerações mais novas que levam a que as tradições permaneçam nas comunidades. É este fator que justifica argumentos como «isto é assim desde que me lembro».

Além de permitir a manutenção de vivências, o envolvimento juvenil ativo permite que as tradições sejam otimizadas e modernizadas permanentemente, contribuindo para a sua longevidade, mesmo que, às vezes, estes ajustes não correspondam a uma melhoria efetiva das tradições.

«As festas do Espírito Santo, comuns a todas as ilhas açorianas, têm nesta ilha Terceira um esplendor mais alto e, com as touradas à corda, que são diversão exclusiva, constituem valioso repositório de todas as manifestações folclóricas do nosso povo, as únicas que não se têm abastardado pela introdução de modernismos, a que a aproximação de povos com outros costumes e diferente educação, não podem ser estranhos.»
Ata da 2ª sessão ordinária de 1960 no Boletim do IHIT

Ao refletir continuamente sobre a insularidade açoriana, percebi que a pequenez das ilhas são a sua maior riqueza, e que o mar, que as isola do resto do mundo, o seu melhor guardião. Claro, não poderemos viver infinitamente enclausurados do cosmos, mas a discussão sobre o limbo que diferencia a nossa cultura de outras deve ser constantemente vigiado, pelos menos para garantir que permaneceremos com a alma, dita, açoriana.

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Handmade blankets by Jorge Borges

O verão açoriano é feito de tudo um pouco…

O verão açoriano tem um tanto de belo, religioso, profano, exagero, simplicidade, encanto e estranheza.

Antes do calor chegar, já o estalar de cascos bovinos no asfalto e de foguetes no ar anunciam aquilo que é o verão na ilha Terceira. A cerveja na mão, o riso no rosto e o olho a fitar o toiro para evitar um “Ai ai ai!” em sobressalto conjunto, definem a maioria das tardes terceirenses. Aos mais corajosos, está entregue a tarefa de manusear a capa encarnada para desassossegar a bravura dos toiros.

O verão açoriano ajuda a limpar o pó ao Santo António, a São João, às Nossas Senhoras da Conceição, da Ajuda, da Agonia, da Penha de França, dos Milagres, da Boa Viagem… Enfim, a todos aqueles e aquelas que vão em procissão dar uma volta às suas freguesias, servindo de mote para as festinhas e grandiosas festas dos lugarinhos e terreiros das freguesias desta ilha.

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Bravery por André Fagundes

O verão açoriano faz as cidades encherem-se de festa própria com luzes, desfiles e concertos que atraem residentes, emigrantes e forasteiros. Ao som da cantiga ao improviso, do fado, do pimba ou de um qualquer DJ, amores tornam-se em dissabores e namoricos em coisas sérias.

As noites de verão terceirenses são passadas num terreiro, de uma qualquer freguesia, iluminada e com um palco, ao qual sobem as bandas do costume, salve um ou outro artista do continente que as comissões mais arrojadas conseguiram pagar.

Ao sabor de tremoço, cerveja ou sangria (conforme o gosto de cada um), democratizam-se conversas animadas, ora sobre os problemas do dia-a-dia, ora sobre mexericos. Num ambiente de festa, fala-se de futebol, política, sociedade e de tudo o resto.

Mas existem pessoas que preferem ir só até à cidade mais próxima, teoricamente para tomar café com os amigos, quando, na verdade, acabam todos por beber cerveja na esplanada do costume. De quando em vez, também são surpreendidos com a atuação de uma qualquer banda constituída por amigos que às vezes vão para as esplanadas e outras vezes para os terreiros.

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Launching Site por Eduardo Marques

O verão açoriano é feito de churrascos no mato, à sombra de grandes árvores que acalmam o calor e que dão lugar às grandes jogadas de cartas, dominó e marralhinha. É a calmaria das criptomérias que dá o mote às canções de quem levou um violão e inspira os temperos de quem vira o frango sobre a brasa.

Enquanto o milho cresce nos cerrados, pescadores e outros entusiastas armam-se em punho com a pequena navalha com que apanham as lapas, cracas e caracóis, saboreados em todos os cantos e recantos da ilha.

Mais certo do que o pão do bodo, é banhar-se no mar em dias de sol, não vá o tempo virar no dia seguinte. É queimar a pele para ficar moreno e apanhar uma “vardascada” de água-viva. Ah! E depois colocar vinagre ou xixi em cima para aliviar a dor (embora sejam remédios cuja eficácia ainda deixe alguns turistas reticentes).

Existem também aqueles que, no verão, dão um salto a outra ilha para fazer estas mesmas coisas, mas ao som de um outro sotaque.

E lá para os fins de agosto e os inícios de setembro, aparece um ou outro furação, tempestade tropical ou chuva intensa que tentam anunciar o fim do verão, embora seja o dia 15 de outubro, já num outono maduro, que se fecha definitivamente. Os Açores devem ser dos poucos sítios do mundo onde a primavera e o outono se fundem no verão e este tem data de início e de fim, independentemente das circunstâncias.

Há quem pense que o verão açoriano é palco de convívio, harmonia e festa porque o resto do ano é demasiado chuvoso, ventoso, friorento ou desajeitado para tudo isto. Nestes pedacinhos de basalto salgado pelo mar, assombrados por vulcões, terramotos e tempestades, percebemos, faz muito tempo, que o melhor que temos é o convívio uns com os outros. Por isso, é bom vivenciar todas estas coisas (e outras tantas que não foram aqui mencionadas) enquanto a severidade da natureza está de férias.

O presente do Carnaval da Terceira

Não consigo deixar de ficar emocionado quando ouço e vejo as primeiras danças e bailinhos de Carnaval a cada ano. Fico infinitamente maravilhado com a circunstância: homens e mulheres do dia-a-dia que, durante noites a fio, preparam músicas e representações teatrais sobre as mais variadas temáticas, para exibi-las a troco de alegria, boa disposição e pura tradição.

Os festejos carnavalescos remontam à época medieval. Esta celebração, que tem lugar entre o bom tempo da primavera e a escuridão do inverno, pretendia expulsar os demónios que o homem foi criando e acumulando durante o frio invernoso. Era necessário, a toque de música, exaltação e festa rija, expelir as trevas e preparar as comunidades para as colheitas e abundâncias da primavera.

2-carnavalFotografia de António Araújo

Desde os desfiles brasileiros ao som do samba até aos caretos de trás-os-montes,  o Carnaval é celebrado em inúmeras comunidades ao longo do planeta, com maior ou menor exuberância, sentido religioso ou festivo.

Esta manifestação cultural também tem lugar no arquipélago dos Açores, com principal destaque para a Terceira. Apesar de acontecer nos limitados quatrocentos quilómetros quadrados da ínsula, é largamente reconhecido como a maior manifestação de teatro popular de língua portuguesa em todo o mundo. O impacto do Carnaval na comunidade é tão alargado que o Governo Regional permite a realização de tolerâncias de ponto enaltecendo “a participação voluntariosa de milhares de cidadãos nas suas mais variadas vertentes: dramatúrgica, performativa, musical e logística”.

“(…) é um fenómeno cultural com um conjunto de características que o torna único. É um fenómeno que, uma vez por ano, durante quatro dias e quatro noites, transforma a nossa ilha numa plateia de trinta e cinco ou quarenta mil pessoas que naqueles dias comem e dormem à pressa para poderem assistir ao maior número possível de danças e bailinhos.”
por Hélio Costa

A alegria e amizade cozinhada e manifestada no carnaval terceirense atrai sucessivamente a participação de muitas pessoas. Popularmente reconhecido como o “bichinho”, o carnaval agarra emotivamente todos os seus participantes e admiradores.

No trabalho preparado pelos vários grupos, contam-se histórias do dia-a-dia saturadas de crítica social. O Carnaval terceirense, mais do que uma oportunidade, é um manifestação clara da opinião pública sobre os mais variados assuntos: política, sociedade, desporto, saúde, educação, etc. Tudo isto, cuidadosamente tecido em rimas e personagens tão bem trabalhadas quanto a experiência e o “jeito” (i.e. talento) permitir.

“(…) o Carnaval da Terceira é uma Mesa posta a toda a gente, incluindo quem nos visita. Onde todos podem saborear de forma gratuita, muita Harmonia, Amizade, Alegria, Criatividade, Música, Poesia e Fulgores. O Carnaval da Ilha Terceira é um Vulcão Cultural como no Mundo não há igual.”
por Hélio Costa

José Nelson Coderniz, numa crónica divulgada em fevereiro no Diário Insular, descreve de forma inteligentemente prática e sucinta o surgimento desde género teatral.

Foi a burguesia italiana do séc. XVII que começou por construir os primeiros teatros públicos. Com o objetivo de ter acesso à ópera (género que antes estava exclusivamente disponível para a nobreza), esta camada social apresentava temas sobretudo de teor mitológico que gradualmente, até ao séc. XIX, foram substituídos por temas do quotidiano. Este tipo de teatro era exibido em quatro momentos do ano, alcançando o seu expoente máximo no Carnaval (época em que as pessoas tinham maior propensão para o convívio noturno em lugares quentes e iluminados).

“Segundo uma perspetiva inglesa, podemos caracterizar os géneros artísticos, do Carnaval terceirense, quase como semi-óperas.”
Por José Nelson Coderniz

Na Terceira, e até aos anos 70 de novecentos, existiam apenas as Danças de Pandeiro (também conhecidas pelas Danças da Noite) e a Dança de Espada (ou Danças de Dia). A partir de 1980, os espaços de exibição sofreram alterações e os conceitos tratados nas danças alteraram-se.

“A Dança de Pandeiro definia-se, essencialmente, pela existência de duas alas de dançarinos, com cerca de 6 elementos por ala, uma composta por músicos e a outra pelos atores, sendo a figura central, o mestre, que além de cantar, devia usar mestria no manuseio do pandeiro. (…) Existia também, uma personagem típica, o ratão, que tinha a função de contraponto jocoso no contexto teatral. Por regra, este género performativo, cómico, só atuava de noite (…) em casas ou espaços particulares, normalmente dos participantes, e só assistia quem fosse convidado.”
Por José Nelson Coderniz

“A Dança de Espada caracterizava-se pela temática dramática, com assuntos históricos/religiosos que foram sendo gradualmente trocados por outros associados ao quotidiano. Composta por duas alas de dançarinos, a ação era dirigida por um mestre munido de uma espada. Atuava de dia, (…) tinha como espaços de atuação os terreiros e as zonas em frente às casas dos principais intervenientes.”
Por José Nelson Coderniz

Dadas as limitações de locomoção da época, os grupos apenas exibiam as suas peças na sua freguesias e nas vizinhas. Normalmente, só participavam homens e era comum estes vestirem-se de mulher para interpretar algum papel.

Com a construção de salões (i.e. pequenos teatros) pelas freguesias (e consequente melhoria das condições de visualização e audição), assim como o avanço nos meios de transportes, os grupos deixaram os pátios e ruas e começaram a atuar por toda a ilha.

Sendo uma manifestação totalmente organizada pelo povo e um organismo vivo que retrata a sua identidade, o Carnaval têm sofrido alterações mais ou menos naturais ao longo dos últimos 35 aos.

“Com a emancipação da mulher no Carnaval terceirense; a criação de escolas de ensino de guitarra/acordeão/bandolim e uma vontade generalizada dos músicos das bandas filarmónicas em participar no Carnaval,o número de grupos aumentou, havendo ainda uma transposição dos parâmetros que definiam tais géneros: o número de músicos ultrapassou os antigos cânones, obrigando a deslocação dos atores para fora das alas e surgiu outro género cómico, o Bailinho.”
Por José Nelson Coderniz

Contudo, nos últimos anos, e numa prespetiva pessoal, apesar do número de danças e bailinhos terem aumentado, o mesmo não tem acontecido com a qualidade. Cada vez mais, a vontade de participar na manifestação se sobrepõe à qualidade performativa. Tem havido uma tendência para a perda da rima e da história consistente. Aparentemente, os grupos têm-se protegido da falta de talento na concepção de histórias e músicas, recorrendo às “piadas da internet” e “arranjos do grupo” (baseados na adaptação de canções existentes). Não deixo de ficar frustrado, quando vejo que uma dança distorce o rumo da sua narrativa apenas para “colar à força” uma anedota com graça, mas descontextualizada. Tenho pena que muitos grupos estejam a seguir este rumo pois, no mínimo, retrata falta de genuinidade. Será que este é o preço do progresso?