Turistas? São como as vacas das ilhas!

Pronto. Já me rendi ao facto de que o turismo veio para ficar. Agora vou [tentar] convencer-me de que esta indústria é melhor do que a que vingava anteriormente (i.e. a «lavoura»).

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by Rui Caria

Num claro ensaio de automutilação intelectual, vou comparar o impacto dos turistas e das vacas na vivência açoriana, argumentando que os bovinos estão claramente em desvantagem.

É tão desagradável olhar para um lindo pasto verde e depararmo-nos com a serenidade de umas manchas brancas e pretas – algo completamente desenquadrado do ponto de vista estético. Não há nada melhor do que ver os turistas desnorteados em vestes pseudodesportivas, foleiras e altamente coloridas, que se confundem com as barras das casas de Angra.

Importa mencionar que o impacto sonoro produzido por estes é comparativamente menor, pois um badalo de uma vaca é bem mais ruidoso do que a câmara fotográfica que os forasteiros penduram no pescoço.

Esta nova indústria também beneficia praticamente os mesmos sectores que a primeira, só que no espectro oposto. Por exemplo, na medicina, se antes recorríamos aos médicos veterinários para cuidar das vacas, agora recorremos aos médicos para tratar de turistas que levaram marradas numa tourada ou que interagiram com uma água-viva. Também no sector alimentar, existem semelhanças: antes importávamos rações, agora importamos congelados.

É impossível não mencionar as melhorias no trânsito. Se antes tínhamos gado a circular aleatoriamente pelas estradas da ilha, agora temos turistas em carros alugados. A diferença não reside no estorvo, lentidão, imprevisibilidade e óbvio perigo, mas no facto de que os forasteiros, pelo menos, usam pisca-pisca.

Enfim, muitos outros exemplos poderiam ser alvo de reflexão, mas julgo que já estou convencido. Ao fim e ao cabo, os turistas são como as vacas das ilhas, não são?

Segunda à sexta, em Angra.

O relógio da igreja da Sé desperta a sonolência dos angrenses que, pelas oito e meia da manhã, já voam pelas ruas da cidade a pé, de carro ou nos minibuses em direção aos seus trabalhos. Num passo menos acelerado, vagueiam algumas velhas arrematadas que já se despacharam dos seus compromissos e agora fazem tempo para apanhar a próxima carreira. A esta hora, quem está parado na rua só pode ser louco.

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by Tiago Ormonde

Angra está a todo o gás às dez horas. O empregado de balcão já serviu nove cafés. A comerciante já atendeu oito clientes. O fiscal dos parquímetros já passou sete multas. O desempregado já deixou o currículo em seis empresas. O estafeta já entregou cinco encomendas. O contabilista já tratou das contas de quatro clientes. O médico já atendeu três pacientes. O reformado já deu dois dedos de conversas. O estudante já se baldou a uma aula.

O meio-dia anuncia a maratona dos funcionários públicos, não porque é hora de almoço mas por que precisam dar umas voltas. Desde ir à farmácia até ver o que há de novo nas lojas de roupa, os 60 minutos dividem-se entre saborear o papo-seco e aguardar na fila de atendimento das Finanças.

O martelo pneumático escondido atrás de uma casa em obras, o taxista mal humorado a apitar e uma ambulância em emergência, são a santíssima trindade das 15 horas na cidade. O júbilo do dia acontece com a chuva ou com o sol que decidiram aparecer.

Duas horas depois terminam as aulas e existem tantos putos a atravessar as ruas quanto adultos no dia inteiro. Entre pais e avós mal estacionados, há quem precise de circular por Angra por questões de trabalho.

Às sete da tarde, só se vêm turistas equipados com meias brancas e camisas arregaladas, divididos entre uma selfie com o Vasco da Gama e um olhar atento ao preço dos pratos apresentados à porta dos restaurantes.

Ao final da noite, não se vê nada nem ninguém na rua. A réstia de vida angrense esconde-se nos cafés, no cinema ou numa palestra sobre qualquer coisa, num qualquer lugar.

Depois a humidade traz frio e Angra adormece. Até amanhã, boa noite.

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by Luís Godinho

É impossível visitar os Açores sem trazer um galo de Barcelos de recordação

A relação do homem com o meio em que está inserido leva-o muitas vezes a desenvolver artefactos únicos, ora para garantir a sua sobrevivência, ora por outros motivos​. Assim, é normal que determinados costumes e objetos fiquem associados a um sítio ou labor.

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Sunny blue by Alessandro Marini

O passar do tempo, a intervenção​ de diversos agentes ou as alterações de circunstância, fazem com que as associações mencionadas percam força, ficando muitas vezes retraídas na, por vezes fraca, memória coletiva. Ora, se o presente é fruto do passado, é fundamental que este se mantenha vivo, por exemplo, através de tradições orais, recreativas, etc. – marcas vivas da identidade de um povo.

Os Açores têm vivências muito próprias e é natural que quem nos visita queira levar recordações palpáveis de algo relacionado connosco ou com a sua experiência no arquipélago – os chamados souvenirs. Como é claro, os turistas não nos conhecem profundamente e, por isso, não têm a obrigação de entender os souvenirs que lhes colocamos à escolha. Contudo, o contrário já não é válido. Nós temos a obrigação de saber interpretar e dar a escolher recordações lógicas – peças de basalto, bandeiras do Espírito Santo, gaiolas de toiros, etc.

Neste sentido, é fundamental que deixemos de vender galos de Barcelos, louças decoradas com desenhos característicos do Alentejo, canecas com desenhos ridículos, entre outras coisas parvas, desprovidas de significado na cultura local e sem qualquer nível de qualidade de fabrico ou, pelo menos, feitas com matérias primas locais. Há tópicos nos quais temos de ser puristas e os souvenirs é um deles, pois não só são uma forma de espalhar a curiosidade pela nossa vivência e memória (i.e. promover o destino Açores), mas sobretudo um modo de as respeitar, preservar e contribuir para uma indústria turística sustentável.

“O vento enche o meio da vela, as vagas purpúreas
Saltam a grande altura, em volta da esteira do navio, que avança
e corre pelas ondas, trilhando o seu caminho.”
Homero, Ilíada

Ode à ilha sonsa – Um ensaio de storytelling.

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Bruma by Rui Caria

A ilha Terceira apresenta-se hoje como uma oportunidade para experienciar o arquipélago dos Açores de forma diferenciada. Mais do que heróica e vitoriosa, é a Capital do Atlântico Norte.

Há quinhentos anos que tem uma Angra que acolhe e faz heróis. Há quinhentos anos que tem uma Praia que defende e espalha ideais. A Terceira é um símbolo vivo do intercâmbio entre as grandes civilizações, foi o berço da primeira globalização.

A centralidade da ilha foi um dos principais motivos pelos quais se tornou a sede dos poderes religioso, político, económico e militar no arquipélago durante os vários períodos da História de Portugal.

Vaidosamente renascentistas, e de braços abertos para o mar, as suas cidades têm pedras que contam histórias e janelas coloridas que desvendam paixões ardentes.

Apesar da insularidade, foram as gentes da Terceira que, de forma notável, nobre, leal e sempre constante, estiveram na vanguarda do liberalismo português. Hoje, através dos Bailinhos de Carnaval (a maior manifestação de teatro popular da Europa), o espírito crítico conjunto ainda se faz ouvir.

Circunscrito na ilha, está um cordão de freguesias pitorescas, com terceirenses hospitaleiros que cantam ao improviso, organizam festas de rua e agradecem as graças que recebem ao Divino Espírito Santo.

São nos bovinos que percorrem as estradas, nas famosas touradas à corda, que se observa a verdadeira alma terceirense, apaixonadamente ligada a uma tradição que promove o convívio e a amizade há séculos.

Nessa terra de basalto salgado, o vinho tem uma personalidade própria, a carne um sabor autêntico e o peixe um trato inesquecível. Aliás, é no bolo D. Amélia que se demonstra a hospitalidade terceirense, e na alcatra que se saboreia a abundância e tradição.

É na Serra de Santa Bárbara que se pode apreciar a floresta imaculada de laurissilva, que representa uma oportunidade para deslumbrar a natureza que existia antes do homem povoar a Europa.

É nesta ilha que os milhafres e os priolos apreciam a brisa sobre uma imensa manta de retalhos verdes. É nesta ilha que vaguear pelas fumarolas de enxofre, é sentir a respiração de uma natureza dócil e profunda. É na Terceira que os homens entram no ventre da ilha, descendo até ao Algar do Carvão, o único vulcão visitável do mundo.

Todos estes fatores levaram a que os terceirenses saibam celebrar a vida. Por isso, não faltam festas e festivais, desde profanos a religiosos.

A ilha Terceira é a embaixatriz da História dos Açores, exemplar imaculado da natureza vulcânica, a guardiã de uma vivência e cultura únicas e Património da Humanidade.

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Road by Rui Caria

A criação do bicho papão açoriano

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Ponta Delgada by João Moniz 

Estive presente na BTL 2017, onde o arquipélago dos Açores estive representado como uma região a visitar.

Se é verdade que a criação da Marca Açores veio impulsionar as ilhas enquanto destino turístico, utilizando esta aposta como um motor para a economia, tornam-se cada vez mais visível que esta desrespeita a singularidade das ilhas. Ou seja, projetar o arquipélago como um todo é negar a individualidade de cada ínsula. No fundo, a Marca transmite uma falsa realidade.

Além disto, o egoísmo micaelense, que continua a julgar-se um espelho de todo o arquipélago, faz com que as outras ilhas fiquem à sombra, sem brilho e vítimas de mitos. Passo a um exemplo prático: numa conversa informal, dois continentais demonstraram-se bastante interessados em visitar os Açores, contudo apenas podiam fazê-lo em maio. Devido ao facto de, em São Miguel, decorrerem as festas de Santo Cristo dos Milagres, eles tinham a informação de que os preços praticados no arquipélago eram mais elevados e, por isso, não iriam realizar a viagem. Blasfémia! Tendo em conta que nas outras oito ilhas a vida decorre com normalidade.

Este exemplo revela que a Marca Açores cometeu um erro estratégico grave que negligencia todas as ilhas e compromete a sua própria visão: “vender” o destino Açores como um todo é negar a insularidade que é responsável pelas nossas vivências únicas, ricas e bem preservadas.

Perante este cenário, só imagino duas soluções: ou as ilhas começam a atuar por conta própria (como é o caso das Ilhas do Triângulo) ou, no futuro, iremos tornarmo-nos numa mixórdia de coisas sem alma alguma.

É tempo de refletir e perceber o que realmente interessa e faz sentido.

O entretenimento noturno que oferecemos aos turistas é de plástico

Uma das principais queixas que recebemos dos turistas que visitaram a Terceira em 2015/2016, prendia-se com a «inexistência» de atividade noturna. Como qualquer pessoa que vai de férias para o estrangeiro, é compreensível que os nossos visitantes tenham uma determinada expetativa do que vão encontrar na ilha – segurança, gastronomia, estadia e mobilidade, são alguns dos «requisitos mínimos», por exemplo. A isto junta-se uma lista de «coisas» para ver e/ou experimentar, que se esperam, sempre ou maioritariamente, «diferentes» ou «iguais» ao que conhecemos, consoante a nossa sede pela descoberta.

É este conflito entre o cumprimento das expetativas que os turistas trazem e a vivência açoriana, que muitas vezes nos leva a «deturpar» a realidade para nos tornarmos mais «apetecíveis turisticamente».

.. by Rui Caria on 500px.compor Rui Caria

Para combater a queixa acima apresentada, o Governo Regional desenvolveu um mecanismo de entretenimento noturno que se baseava no financiamento de música ao vivo nos bares e cafés da cidade. É claro que isto beneficia diretamente os artistas e estabelecimentos locais. Também é óbvio que os turistas ficam satisfeitos pois têm «o que fazer» à noite. Esta conjuntura levou-me a questionar o que é que nós, terceirenses, fazemos à noite, enquanto os forasteiros estão nos cafés e bares a ouvir música? A resposta é óbvia quando pensamos no verão e na primavera: estamos distribuídos pelos terreiros da ilha, a celebrar as festas em honra de divindades. Contudo, quando nos debruçamos sobre o inverno, a resposta é mais densa.

Agasalhado do frio e da chuva, o entretenimento noturno dos terceirenses começa logo em janeiro, nos ensaios de bailinhos e danças de Carnaval, «escondidos» em garagens e sociedades; acontece nas igrejas e centros paroquiais, onde se juntam para resolver problemas sociais; têm lugar nas igrejas e salas onde os grupos de jovens, escuteiros e filarmónicas funde a sabedoria com a partilha, a música e os valores; acontece nas casas de pasto, entre as botas de cano de um dia de trabalho e as discussões sobre as partidas de futebol; aparece nos impérios, onde se preparam as festas do Divino Espírito Santo, e onde a arrematação é bem mais divertida do que a novela que passa na televisão. O entretenimento noturno terceirense existe e é munido de partilha, amizade e tradição – uma experiência única que demonstra com veracidade a vivência da nossa insularidade.

Será que vale a pena «dar música» aos turistas, quando podemos partilhar pedacinhos da nossa imensa riqueza cultural?

E tudo o turismo levará…

Escrevo estas linhas poucos dias depois das low-cost chegarem à Terceira. Entre os benefícios e devaneios que elas trazem (tópicos que já foram tratados neste blogue), hoje gravo, para memória futura, aquilo que foi, ainda é, mas provavelmente deixará de ser alguns aspetos da vivência da ilha Terceira. No fundo, farei uma pequena lista de ocorrências que são próprias da nossa açorianiedade e que, provavelmente, vão perder-se a breve trecho. Recordo que o investimento no turismo foi sobretudo fomentado pelo fim das cotas leiteiras. Registo aqui, aquilo que eu, nascido em meados dos anos noventa, em pleno ciclo da vaca, vi, ouvi e senti como sendo a forma de ser terceirense.

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Green by Rui Caria

Comecemos pelas casas dos lavradores (ou vaqueiros, no calão local) tipicamente grandes e acompanhadas de tratores e cães (das raças Fila de São Miguel, Barbado da Terceira ou Pastor Australiano) que, acorrentados, defendiam os pátios de potenciais intrusos que viessem roubar umas bilhas ou a panóplia de atrelados e máquinas de trabalhar a terra. Recordo também as carrinhas de caixa aberta em madeira, meticulosamente decoradas, que demonstravam a ostentação da lavoura que serviam. O símbolo da casa gravado nas postas, a quantidade e grossura das cordas presas na dianteira e caixa do veículo, assim como a grelha, sempre personalizada e robusta, são alguns dos exemplos da importância dos lavradores. No outono e inverno são particularmente detestáveis, pois transportam silo nauseabundo pelas ruas da ilha.

cows by António Sousa on 500px.comCows by António Sousa

As vacas (felizes, por sinal), tal como as pessoas, vagueiam de um ponto A para um ponto B utilizando as estradas. Num sentido mais concreto, vão de pasto para pasto (ou de  cerrado para cerrado, como se diz por aqui) navegando, em manada, entre os carros que teimam em meter-se no caminho. Nos Açores, um dos requisitos para ser considerado um bom condutor passa por saber como atravessar uma manada de vacas, numa qualquer estrada, sem magoá-las, sem danificar o veículo e sem pisar excrementos bovinos.

Mas é na cidade que mais noto a diferença. Já se vêem poucas velhas vestidas de preto (sinal de viuvez), que vieram no autocarro (urbana ou carreira, como chamamos) para fazer as suas voltas, desde levantar os cheques (quer o grande, quer o pequenino) até comprar umas meias, ir ao mercado, ir ao médico, ou comprar umas lembranças para os netos. Tudo isto intercalado com pausas no meio da rua, quando se cruzam com outra qualquer velha, e aproveitam para fazer um briefing de mexericos ora sobre as suas vidas, ora sobre a vida dos outros. Odiadas por muitos, acredito que vão deixar saudades quando forem (como estão a ser) substituídas por turistas, a falar outras línguas, de mapa na mão e máquina fotográfica ao pescoço.

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Maria João by Rui Caria

Muitas outras coisas mudaram e vão mudar. Estes são apenas alguns exemplos. Não são as mudanças que o ciclo do turista traz que me deixam triste, mas sim o desprezo, desvalorização, destruição, ganância e excessos que esta nova era poderá trazer, e o impacto que isso terá na forma de ser terceirense. Cá para mim, o cúmulo acontecerá no dia em que fizermos uma tourada à corda para turista ver. Nesse dia, deixaremos de ser terceirenses e passaremos a ser gente sem identidade, que representa o que outrora foi, só para garantir o pão na mesa, mas cuja miséria está na alma. Oxalá, não cheguemos a esse ponto.