O segredo açoriano para a longevidade das tradições

A insularidade açoriana é inúmeras vezes apontada como um dos principais motivos pelos quais a nossa cultura tem muitos traços distintivos. Contudo, julgo que há um outro fator determinante: o envolvimento ativo das gerações mais novas nas tradições.

É recorrente que um determinado costume de uma comunidade conte com a participação de indivíduos que encarnam papéis distintos – por exemplo: um padre, um fogueteiro, etc. Quanto mais abrangente for uma determinada manifestação cultural (i.e. quanto mais pessoas estiverem envolvidas), maior a hipótese das crianças, adolescentes e jovens adultos dessa determinada comunidade estarem presentes. No caso açoriano, além destas faixas etárias assistirem, são envolvidas ativamente nas manifestações culturais, encarnando também papéis [muitas vezes] distintos.

«Com pombas aos quatro cantos
E no meio uma mais forte,
Serves de lenço nos prantos
E de sudário na morte.»
Vitorino Nemésio

Apesar da ilha Terceira ser rica em exemplos deste envolvimento, julgo que a tradição que melhor o ilustra é a coroação do Divino Espírito Santo.

Resumidamente, as coroações são uma espécie de procissão em dois atos: o primeiro constituí-se na concentração de pessoas num determinado ponto de encontro, que se organiza num desfile rumo à igreja onde, depois de uma missa e coroação (no sentido literal da palavra), começa o segundo ato no qual a comunidade (com cada um dos indivíduos bem cientes do seu papel) enverga bandeiras, coroas e varas, dirigindo-se até ao Império (pequena ermida do Divino Espírito Santo).

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Espírito Santo, por António Araújo

Apesar do número geralmente elevado de participantes, todos conhecem o seu lugar. Ora vejamos:

a) As crianças de muito tenra idade (aquelas que começaram a andar à pouco tempo) são recrutadas para serem coroadas (i.e. ostentarem uma coroa de prata sob a cabeça).

b) As crianças mais crescidas, aquelas que andam pela primária, seguram, aos pares, a coroa de quem está a ser coroado.

c) Intercalados com as coroas, vão os adolescentes masculinos (embora, hoje, já se tolerem meninas) que levam as bandeiras do Divino Espírito Santo ao ombro (desde que a sua robustez física o permita), acompanhados por uma rapariga, também adolescente, em cada lado. Este padrão coroa/bandeira repete-se quantas coroas houverem disponíveis.

d) Os jovens adultos (candidatos à mordomia dos Impérios), levam as coroas (ou pratos destas, conforme o ato) no final da coroação, antes da filarmónica.

e) Todos os restantes elementos da comunidade, desde que a saúde o permita, acompanham o aparato em duas alas, uma de cada lado, junto às bermas da estrada.

f) Se a idade avançada ou a saúde não permitem que alguns dos membros da comunidade participem na coroação, estes assistem à mesma debruçados nas janelas abertas, enfeitadas com as melhores mantas de retalhos ou colchas que a casa tem.

Apesar destes papéis se alterem ligeiramente de freguesia para freguesia e de geração para geração, julgo que é um exemplo extraordinário do que foi exposto anteriormente.

es2012_363388.jpgEspírito Santo, por António Araújo

Muito mais do que assistir, julgo que é o envolvimento ativo das gerações mais novas que levam a que as tradições permaneçam nas comunidades. É este fator que justifica argumentos como «isto é assim desde que me lembro».

Além de permitir a manutenção de vivências, o envolvimento juvenil ativo permite que as tradições sejam otimizadas e modernizadas permanentemente, contribuindo para a sua longevidade, mesmo que, às vezes, estes ajustes não correspondam a uma melhoria efetiva das tradições.

«As festas do Espírito Santo, comuns a todas as ilhas açorianas, têm nesta ilha Terceira um esplendor mais alto e, com as touradas à corda, que são diversão exclusiva, constituem valioso repositório de todas as manifestações folclóricas do nosso povo, as únicas que não se têm abastardado pela introdução de modernismos, a que a aproximação de povos com outros costumes e diferente educação, não podem ser estranhos.»
Ata da 2ª sessão ordinária de 1960 no Boletim do IHIT

Ao refletir continuamente sobre a insularidade açoriana, percebi que a pequenez das ilhas são a sua maior riqueza, e que o mar, que as isola do resto do mundo, o seu melhor guardião. Claro, não poderemos viver infinitamente enclausurados do cosmos, mas a discussão sobre o limbo que diferencia a nossa cultura de outras deve ser constantemente vigiado, pelos menos para garantir que permaneceremos com a alma, dita, açoriana.

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A insignificância da linha costeira para os açorianos

Numa das minhas leituras aleatórias, li um pequeno artigo sobre um estudo realizado à gestão da linha costeira das ilhas açorianas. Neste documento, falava-se da forma como os ilhéus tinham usufruído das estruturas geológicas para criar zonas balneares, umas vezes utilizando-as tal como elas são e outras modificando-as para torná-las mais cómodas. O texto desencadeou em mim uma reflexão sobre a forma com que o açoriano vê o limite entre a terra e o mar.

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Durante os meus estudo no continente, muitas pessoas perguntavam-me como é que eu conseguia viver num espaço tão circunscrito. A questão parecia afligi-las, como se imaginassem a ilha enquanto prisão de quatro paredes por onde não se consegue escapar. A minha resposta baseava-se simplesmente em descrever dois pontos distintos: por um lado, expor a naturalidade com que o ilhéu olha para a linha costeira, i.e. trata-se apenas da faixa onde o mar e a terra se misturam; e, por outra, da forma aberta com que o açoriano acolhe a vastidão do mar.

A percepção do limite, enquanto ilhéu, é muito clara e presente. O limite é a linha que o mar desenha na terra. No entanto, não é barreira, o mar é continuidade e não motivo de exílio, é o espaço onde o ilhéu mensura a sua própria concepção de infinito, onde desenha o seu caminho de evasão.

Por Filipa Bettencourt Picanço

Nunca senti que o mar fosse um monstro claustrofóbico e inibidor de ver mundo. Pelo contrário, sempre senti que o mar fosse libertador. Enquanto que uns vêem o oceano como o limite do alcançável, os açorianos vêem-no como a certeza de que conhecem tudo o que existe, que não há mais nada a observar ou conquistar. Assim, o mar é o expoente máximo do que há para conhecer: nele tudo começa e acaba.

O mar é uma referência geográfica, olhá-lo é saber onde se está. Da mesma forma que o pastor usa os montes para se guiar pelos campos, os açorianos usam o mar e a linha costeira para vaguear pelas ilhas (de forma física ou espiritual). Assim, é expectável que alguns açorianos se sintam desnorteados e encurralados quando estão nas grandes cidades, onde os prédios os sufocam, inibindo-os de ver o mar. Nesta perspectiva, o oceano, por estar libertado e ser libertador, é também entendido como uma enorme fonte de inspiração. A arte no açoriano surge em pleno mar deserto: é na [falsa] percepção de se conhecer tudo o que a visão alcança que a criação decorre. Provavelmente, é este mesmo facto que leva à originalidade e excepcionalidade da cultura açoriana, criando-se um paradoxo: o que inibe é simultaneamente o que liberta.

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A naturalidade com que o açoriano vê a linha costeira torna-a insignificante. Não importa se é uma calheta, uma angra ou uma falésia: o açoriano vê a costa como uma porta para o mar, numa relação de respeito e profunda ternura como aquela que se tem com um amigo de longa data.

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