Balbuciar o futuro

O progresso da sociedade assenta num esforço contínuo pela criação e concretização de objetivos. Contudo, atualmente, este empreendimento funciona ao solavanco.

The long road by Rui Caria on 500px.com
The long road by Rui Caria

Durante séculos, muitos indivíduos acreditaram que uma sociedade perfeita permitiria que cada indivíduo pudesse expressar-se livremente e intervir diretamente nos sistemas sociais onde estivesse inserido. Por outras palavras, ansiava-se a vinda da internet (onde qualquer pessoa, independentemente da sua posição social, pode manifestar e proliferar as suas ideias e opiniões sem qualquer filtro) e da democracia (onde cada cidadão pode intervir, através do voto, na escolha, por exemplo, do próximo chefe de governo). Contudo, os (mais ou menos) vinte anos da rede e quarenta e quatro do sistema democrático já mostraram que estas duas coisas não são a melhor combinação para estar presente numa sociedade. A internet deu voz aos idiotas e fê-los perceber que são a maioria. Os políticos inseridos na democracia já apreenderam a receita para movimentar o rebanho de palermas a seu favor (meia dúzia de provocações basta), apenas necessitam de ser corretos, i.e. politicamente corretos, não vá algum dos idiotas ficar ofendidinho e gerar uma onda de protesto. Tudo isto está envolto por uma espécie de «novo» populismo (as aspas servem para demarcar o populismo numa era prévia à internet) que se tem manifestado em países tão vastos como os Estados Unidos da América. Se este modus operandi já está estabelecido a nível nacional, ele é naturalmente ampliado nos planos regional e local. Isto nota-se, sobretudo, no uso exagerado das redes sociais por parte dos políticos.

Parece que vivemos num tempo onde já não existem políticas nacionais, regionais ou locais de médio ou de longo prazo que visem realmente o progresso da sociedade. Só são realizados os esforços que mostrem resultados em menos de quatro anos. Pior, uma parte significativa das iniciativas visam apenas alguns likes nas redes sociais, ou seja, tentar mostrar que se estão a fazer coisas.

Já não existem políticas que resolvam problemas e melhorem a vida das pessoas. Parece que os países, as suas regiões e localidades passaram a ser grandes infantários onde se vive continuamente num jogo do faz-de-conta. Nesta sentido, o povo são as crianças pequenas que vão brincando na areia que os mais crescidos, os políticos, lhes atiram para os olhos. Também são estes bullies que vão manuseando os brinquedos (ou seja, as instituições públicas) com muita destreza para chamarem à atenção do professor (i.e. o seu próximo e ambicioso cargo político), na esperança de receberem atenção e passarem a pertencer ao grupo dos favoritos. Entretanto, espera-se calmamente que o tempo passe, para que, sem esforço, sejam todos integrados num novo ano letivo.

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Fazedeiros, fazedores e desfazedores

Este poderá ser um ensaio filosófico sobre o tempo e o legado dos homens.

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My donkey and me by Nuno Ferreira

Parece-me que existem três tipos de homens: os que fazem as coisas (os fazedores), os que fazem fazer as coisas (os fazedeiros, numa analogia aos rendeiros) e os que não fazem coisa nenhuma (os desfazedores).

Quando me debruço sobre os anais desta terra, percebo que os nomes que lá estão firmados são os de homens que fizeram fazer. Ou seja, falo de pessoas com cargos ligados à governança das instituições e grupos de trabalhos, que levaram avante a implementação de ideias ou estratégias, e a construção de objetos ou edifícios. Homens que movimentaram esforços alheios para por em prática o que julgaram pertinente.

Muitas destas coisas já não existem porque foram corroídas pelo tempo e os nomes dos homens que as fizeram não foram descriminados. Por vezes, talvez por redenção do esquecimento, estes homens – engenheiros, artistas, construtores, marinheiros, etc. – sofrem uma espécie de «enaltecimento pluralizado», sendo-lhes atribuído o nome de «povo» – massa densa, uniforme e, quase convenientemente, sem uma voz distinta. Os homens que nada fazem, também são incluídos neste conjunto. Estes homens defendem-se dizendo que não vale a pena fazer nada, porque nada resiste ao tempo. Entretanto, vão vivendo ao sabor do tempo, desfazendo as coisas feitas.

No caso dos homens que fazem as coisas, será que vale a pena as fazerem mesmo? O seu nome não consta nos anais e toda a sua obra é corroída pelo tempo. O que mede um homem? A sua obra ou a sua memória? Parece que o tempo consome a metafísica mais depressa que o legado. Será que vale a pena fazer alguma coisa? Um homem que se conheça a ele próprio, sabe o que pode fazer, quais são as suas praias e quais são as batalhas que quer travar.

A política dos pensos rápidos

A máquina governativa socialista açoriana está a descaracterizar a autonomia, a ludibriar o povo e a exterminar o futuro da região.

A independência na administração dos Açores ganhou sentido quando o governo de Lisboa, depois da Revolução dos Cravos, continuava a emanar políticas que não se ajustavam à realidade insular. Foi este o mote que criou o princípio autonomista, onde se defende que as pessoas mais indicadas para encontrar uma solução, são as mesmas que conhecem o problema.

Desde 8 de setembro de 1976, data em que o primeiro Governo Regional tomou posse, os açorianos experimentaram, primeiro, uma lide social-democrata e, desde 1996, um maneio socialista. Em 22 anos, a esquerda conseguiu desenvolver uma máquina implacável que, em vez de servir os açorianos, serve ela própria. Como é que chegamos a este ponto?

Para garantir as sucessivas reeleições, os governos de Carlos César e Vasco Cordeiro dão aquilo que as pessoas mais desejam: emprego. Isto poderia ser uma utopia tornada realidade, contudo o problema reside na qualidade dessa dádiva, pois são trabalhos precários que replicam e complicam as responsabilidades do poder regional. Naturalmente, este facto materializa-se sobretudo através da criação de entidades público-privadas, onde o governo paga as despesas e uns privados – muito saudosos e exclusivos – arrecadam os lucros. Este método tem «ocupado» o povo que retribuí o «favor» através de votos, mantendo a esquerda na dianteira.

Esta receita, com resultados repetidamente comprovados, levou ao estado atual das coisas: um Governo insolvente que usa o dinheiro para sustentar empregos fictícios e serviços duplicados. Na verdade, o que a administração açoriana deveria fazer – porque é esta a sua responsabilidade primordial – seria minimizar os condicionalismos da insularidade, com vista à melhoria da importação e exportação de bens e serviços produzidos na região, para que as empresas locais pudessem ser competitivas no panorama extrarregional e, por sua vez, permitir a criação de empregos dignos para os açorianos.

Há muito tempo que a forma de governança à esquerda nos Açores demonstrou que dá peixe em vez de ensinar a pescar. Qual poderá ser o futuro de uma região que é incapaz de pensar num prazo mais lato que quatro anos? Qual é o futuro de um Governo que há demasiado tempo recorre a pensos rápidos, em vez de suturar as feridas?

A nova feira medieval da ilha Terceira

Field by Rui Caria on 500px.com
Field by Rui Caria

Foram necessários oito anos para construir o Parque Multissetorial da Ilha Terceira, ou seja, para erguer meia dúzia de paredes e colocar umas placas a servir de tecto.

A construção de um novo espaço dedicado à realização de eventos de grande dimensão representava uma oportunidade para aproveitar a centralidade da Terceira no arquipélago, e dos Açores no atlântico. Entre a insolvência do empreiteiro e a inércia do funcionalismo público, demasiados milhões de euros sumiram-se ao sabor do tempo. A jornada deste projeto, desde o papel até ao mundo metafísico, foi tenebrosa: era suposto os terceirenses ganharem um espaço para feiras futuristas e acabaram por receber um lugar para organizar feiras medievais. Um parque de estacionamento insuficiente, uns hangars pequenos e mal ventilados, entre outras coisas reles, mostram que o povo ficou mal servido.

Não bastava a triste e morosa história da sua construção, o Governo dos Açores decidiu usar o Wine In Azores – uma feira de degustação de vinhos – para inaugurar o Parque Multissetorial da Ilha Terceira. Deus abençoe os iluminados que julgaram que a melhor forma de mostrar o potencial deste novo equipamento, seria usar um evento de nicho. Como esta iniciativa não era suficientemente volumosa para ocupar todo o espaço, os servos de Cristo lembraram-se de encher com chouriço o resto da feira… Aliás, com chouriço, carros, sapatos, electrodomésticos, perfumes, e muitas outras coisas que nada têm a ver com a vinicultura.

Neste episódio ficou claro que o destino medíocre do Parque está traçado. Menos de um mês depois, a Feira Agrícola Açores 2018 demonstra, com clareza, que o espaço está a ser utilizado negligentemente: a sensibilidade dos gestores do lugar é nula para a organização, componente expositiva e design da experiência, com prejuízo para todos os empresários que lá investem e todos os visitantes que de lá saem com as expectativas furadas.

Para bem de todos os açorianos, faço este serviço público: necessitam-se indivíduos capazes de organizar feiras, potenciando a venda de produtos mediante as suas especificidades, recorrendo aos equipamentos e espaços do Parque Multissetorial da Ilha Terceira.*

* Apenas se aceitam candidatos com experiência comprovada na matéria.**
** Feiras medievais não contam.

Nós vamos morrendo, obrigado.

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by Arsénio Romeiro

A contaminação dos solos da ilha Terceira despertou a atenção do Diário Insular em 2008. Desde então, este jornal local tem, incansavelmente, acompanhado, investigado e trazido à estampa todos os aspetos relacionados com esta temática. Foi uma batalha a solo com apenas duas frágeis armas: a persistência e a noção de que o jornalismo serve os cidadãos.

Hoje, passados dez anos, o tema que até agora estava contido no arquipélago, já está a ser discutido em canais de comunicação nacionais e internacionais.

Por que motivo é que o assunto só saltou para a ribalta agora? Quantas pessoas, inconscientes, é que já foram afetadas ou estão em contacto permanente com a contaminação?

O Governo dos Açores está de parabéns pela sua excelente capacidade para varrer o tema para debaixo do tapete e assobiar para o lado: foram dez anos a abafar o assunto; dez anos a fazer de contas que nada estava errado; dez anos a deixar os açorianos a morrer sem saberem por quê.

Agora que o tópico deixou de estar sob o seu controlo, o executivo está nitidamente desnorteado e defende-se deixando os seus santos e apóstolos dissertarem argumentos idiotas, numa tentativa de dissuadir o interesse no assunto.

Tenho a perfeita noção de que a inquietação, infelicidade e morte de 56.000 terceirenses não representa nada perante a sagacidade pela riqueza e bem-estar de 323 milhões de norte-americanos ou paz de 10 milhões de portugueses. Contudo, ainda tenho esperança de que algo será feito para minimizar (e, quiçá, eliminar) a contaminação dos solos da ilha do cancro. Até isso acontecer, sempre que nos perguntarem como estamos, basta responder com a verdade: “Nós vamos morrendo, obrigado”.

Entre mortos e feridos, alguém há de escapar

Hoje, a autonomia açoriana é uma ditadura, disfarçada de democracia e movida pelo populismo. Aquilo que poderia ser uma região desenvolvida, vertical e invejável, é, na verdade, um bando de cegos, surdos e mudos controlados por uns quantos espertos que olham apenas para o seu umbigo.

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by Nuno Ferreira

A autonomia administrativa é um privilégio de poucos. Ter legitimidade para resolver os problemas próprios de um lugar, é ter a liberdade para tomar as melhores opções para todos – a bonita universalidade da autonomia. Nos Açores, existe essa legitimidade, contudo o sistema está povoado de ganância.

Ao governo regional cabia a responsabilidade de criar uma máquina, bem oleada, que servisse os açorianos. Contudo, acabou por criar um mecanismo implacável que serve a ele próprio, aniquilando os que lhe são opostos e domando todos os outros.

Atualmente, o povo dos Açores é composto por pessoas cegas (que vêem, mas não denunciam), surdas (que ouvem, mas fazem ouvidos moucos) e mudas (que vêem e ouvem, mas não podem falar). O que acontece nos nossos dias não se trata de uma fase negativa da autonomia, mas de um status quo imutável.

A pequenez insular faz com que tenhamos de estar ligados uns aos outros, para o bem e para o mal. Numa região onde abundam demasiados milhões de euros oriundos de fundos comunitários, a moeda de troca são a cunha, a conveniência e o favor. É este o preço a pagar por viver nestas ilhas de basalto salgado.

Será que este paradigma irá terminar um dia? A única esperança é que a ganância seja a causa da sua morte. Até lá, entre mortos e feridos, alguém há de escapar.

O socialismo é a morfina dos males dos fracos, a venda que tapa os olhos aos idiotas e a arma dos gananciosos. Aos outros, resta-lhes o silêncio ou uma batalha a solo.