Nós vamos morrendo, obrigado.

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by Arsénio Romeiro

A contaminação dos solos da ilha Terceira despertou a atenção do Diário Insular em 2008. Desde então, este jornal local tem, incansavelmente, acompanhado, investigado e trazido à estampa todos os aspetos relacionados com esta temática. Foi uma batalha a solo com apenas duas frágeis armas: a persistência e a noção de que o jornalismo serve os cidadãos.

Hoje, passados dez anos, o tema que até agora estava contido no arquipélago, já está a ser discutido em canais de comunicação nacionais e internacionais.

Por que motivo é que o assunto só saltou para a ribalta agora? Quantas pessoas, inconscientes, é que já foram afetadas ou estão em contacto permanente com a contaminação?

O Governo dos Açores está de parabéns pela sua excelente capacidade para varrer o tema para debaixo do tapete e assobiar para o lado: foram dez anos a abafar o assunto; dez anos a fazer de contas que nada estava errado; dez anos a deixar os açorianos a morrer sem saberem por quê.

Agora que o tópico deixou de estar sob o seu controlo, o executivo está nitidamente desnorteado e defende-se deixando os seus santos e apóstolos dissertarem argumentos idiotas, numa tentativa de dissuadir o interesse no assunto.

Tenho a perfeita noção de que a inquietação, infelicidade e morte de 56.000 terceirenses não representa nada perante a sagacidade pela riqueza e bem-estar de 323 milhões de norte-americanos ou paz de 10 milhões de portugueses. Contudo, ainda tenho esperança de que algo será feito para minimizar (e, quiçá, eliminar) a contaminação dos solos da ilha do cancro. Até isso acontecer, sempre que nos perguntarem como estamos, basta responder com a verdade: “Nós vamos morrendo, obrigado”.

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Entre mortos e feridos, alguém há de escapar

Hoje, a autonomia açoriana é uma ditadura, disfarçada de democracia e movida pelo populismo. Aquilo que poderia ser uma região desenvolvida, vertical e invejável, é, na verdade, um bando de cegos, surdos e mudos controlados por uns quantos espertos que olham apenas para o seu umbigo.

"I 'm a tuna fisherman" by Nuno Ferreira on 500px.com
by Nuno Ferreira

A autonomia administrativa é um privilégio de poucos. Ter legitimidade para resolver os problemas próprios de um lugar, é ter a liberdade para tomar as melhores opções para todos – a bonita universalidade da autonomia. Nos Açores, existe essa legitimidade, contudo o sistema está povoado de ganância.

Ao governo regional cabia a responsabilidade de criar uma máquina, bem oleada, que servisse os açorianos. Contudo, acabou por criar um mecanismo implacável que serve a ele próprio, aniquilando os que lhe são opostos e domando todos os outros.

Atualmente, o povo dos Açores é composto por pessoas cegas (que vêem, mas não denunciam), surdas (que ouvem, mas fazem ouvidos moucos) e mudas (que vêem e ouvem, mas não podem falar). O que acontece nos nossos dias não se trata de uma fase negativa da autonomia, mas de um status quo imutável.

A pequenez insular faz com que tenhamos de estar ligados uns aos outros, para o bem e para o mal. Numa região onde abundam demasiados milhões de euros oriundos de fundos comunitários, a moeda de troca são a cunha, a conveniência e o favor. É este o preço a pagar por viver nestas ilhas de basalto salgado.

Será que este paradigma irá terminar um dia? A única esperança é que a ganância seja a causa da sua morte. Até lá, entre mortos e feridos, alguém há de escapar.

O socialismo é a morfina dos males dos fracos, a venda que tapa os olhos aos idiotas e a arma dos gananciosos. Aos outros, resta-lhes o silêncio ou uma batalha a solo.