É impossível visitar os Açores sem trazer um galo de Barcelos de recordação

A relação do homem com o meio em que está inserido leva-o muitas vezes a desenvolver artefactos únicos, ora para garantir a sua sobrevivência, ora por outros motivos​. Assim, é normal que determinados costumes e objetos fiquem associados a um sítio ou labor.

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Sunny blue by Alessandro Marini

O passar do tempo, a intervenção​ de diversos agentes ou as alterações de circunstância, fazem com que as associações mencionadas percam força, ficando muitas vezes retraídas na, por vezes fraca, memória coletiva. Ora, se o presente é fruto do passado, é fundamental que este se mantenha vivo, por exemplo, através de tradições orais, recreativas, etc. – marcas vivas da identidade de um povo.

Os Açores têm vivências muito próprias e é natural que quem nos visita queira levar recordações palpáveis de algo relacionado connosco ou com a sua experiência no arquipélago – os chamados souvenirs. Como é claro, os turistas não nos conhecem profundamente e, por isso, não têm a obrigação de entender os souvenirs que lhes colocamos à escolha. Contudo, o contrário já não é válido. Nós temos a obrigação de saber interpretar e dar a escolher recordações lógicas – peças de basalto, bandeiras do Espírito Santo, gaiolas de toiros, etc.

Neste sentido, é fundamental que deixemos de vender galos de Barcelos, louças decoradas com desenhos característicos do Alentejo, canecas com desenhos ridículos, entre outras coisas parvas, desprovidas de significado na cultura local e sem qualquer nível de qualidade de fabrico ou, pelo menos, feitas com matérias primas locais. Há tópicos nos quais temos de ser puristas e os souvenirs é um deles, pois não só são uma forma de espalhar a curiosidade pela nossa vivência e memória (i.e. promover o destino Açores), mas sobretudo um modo de as respeitar, preservar e contribuir para uma indústria turística sustentável.

“O vento enche o meio da vela, as vagas purpúreas
Saltam a grande altura, em volta da esteira do navio, que avança
e corre pelas ondas, trilhando o seu caminho.”
Homero, Ilíada

O entretenimento noturno que oferecemos aos turistas é de plástico

Uma das principais queixas que recebemos dos turistas que visitaram a Terceira em 2015/2016, prendia-se com a «inexistência» de atividade noturna. Como qualquer pessoa que vai de férias para o estrangeiro, é compreensível que os nossos visitantes tenham uma determinada expetativa do que vão encontrar na ilha – segurança, gastronomia, estadia e mobilidade, são alguns dos «requisitos mínimos», por exemplo. A isto junta-se uma lista de «coisas» para ver e/ou experimentar, que se esperam, sempre ou maioritariamente, «diferentes» ou «iguais» ao que conhecemos, consoante a nossa sede pela descoberta.

É este conflito entre o cumprimento das expetativas que os turistas trazem e a vivência açoriana, que muitas vezes nos leva a «deturpar» a realidade para nos tornarmos mais «apetecíveis turisticamente».

.. by Rui Caria on 500px.compor Rui Caria

Para combater a queixa acima apresentada, o Governo Regional desenvolveu um mecanismo de entretenimento noturno que se baseava no financiamento de música ao vivo nos bares e cafés da cidade. É claro que isto beneficia diretamente os artistas e estabelecimentos locais. Também é óbvio que os turistas ficam satisfeitos pois têm «o que fazer» à noite. Esta conjuntura levou-me a questionar o que é que nós, terceirenses, fazemos à noite, enquanto os forasteiros estão nos cafés e bares a ouvir música? A resposta é óbvia quando pensamos no verão e na primavera: estamos distribuídos pelos terreiros da ilha, a celebrar as festas em honra de divindades. Contudo, quando nos debruçamos sobre o inverno, a resposta é mais densa.

Agasalhado do frio e da chuva, o entretenimento noturno dos terceirenses começa logo em janeiro, nos ensaios de bailinhos e danças de Carnaval, «escondidos» em garagens e sociedades; acontece nas igrejas e centros paroquiais, onde se juntam para resolver problemas sociais; têm lugar nas igrejas e salas onde os grupos de jovens, escuteiros e filarmónicas funde a sabedoria com a partilha, a música e os valores; acontece nas casas de pasto, entre as botas de cano de um dia de trabalho e as discussões sobre as partidas de futebol; aparece nos impérios, onde se preparam as festas do Divino Espírito Santo, e onde a arrematação é bem mais divertida do que a novela que passa na televisão. O entretenimento noturno terceirense existe e é munido de partilha, amizade e tradição – uma experiência única que demonstra com veracidade a vivência da nossa insularidade.

Será que vale a pena «dar música» aos turistas, quando podemos partilhar pedacinhos da nossa imensa riqueza cultural?

O segredo açoriano para a longevidade das tradições

A insularidade açoriana é inúmeras vezes apontada como um dos principais motivos pelos quais a nossa cultura tem muitos traços distintivos. Contudo, julgo que há um outro fator determinante: o envolvimento ativo das gerações mais novas nas tradições.

É recorrente que um determinado costume de uma comunidade conte com a participação de indivíduos que encarnam papéis distintos – por exemplo: um padre, um fogueteiro, etc. Quanto mais abrangente for uma determinada manifestação cultural (i.e. quanto mais pessoas estiverem envolvidas), maior a hipótese das crianças, adolescentes e jovens adultos dessa determinada comunidade estarem presentes. No caso açoriano, além destas faixas etárias assistirem, são envolvidas ativamente nas manifestações culturais, encarnando também papéis [muitas vezes] distintos.

«Com pombas aos quatro cantos
E no meio uma mais forte,
Serves de lenço nos prantos
E de sudário na morte.»
Vitorino Nemésio

Apesar da ilha Terceira ser rica em exemplos deste envolvimento, julgo que a tradição que melhor o ilustra é a coroação do Divino Espírito Santo.

Resumidamente, as coroações são uma espécie de procissão em dois atos: o primeiro constituí-se na concentração de pessoas num determinado ponto de encontro, que se organiza num desfile rumo à igreja onde, depois de uma missa e coroação (no sentido literal da palavra), começa o segundo ato no qual a comunidade (com cada um dos indivíduos bem cientes do seu papel) enverga bandeiras, coroas e varas, dirigindo-se até ao Império (pequena ermida do Divino Espírito Santo).

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Espírito Santo, por António Araújo

Apesar do número geralmente elevado de participantes, todos conhecem o seu lugar. Ora vejamos:

a) As crianças de muito tenra idade (aquelas que começaram a andar à pouco tempo) são recrutadas para serem coroadas (i.e. ostentarem uma coroa de prata sob a cabeça).

b) As crianças mais crescidas, aquelas que andam pela primária, seguram, aos pares, a coroa de quem está a ser coroado.

c) Intercalados com as coroas, vão os adolescentes masculinos (embora, hoje, já se tolerem meninas) que levam as bandeiras do Divino Espírito Santo ao ombro (desde que a sua robustez física o permita), acompanhados por uma rapariga, também adolescente, em cada lado. Este padrão coroa/bandeira repete-se quantas coroas houverem disponíveis.

d) Os jovens adultos (candidatos à mordomia dos Impérios), levam as coroas (ou pratos destas, conforme o ato) no final da coroação, antes da filarmónica.

e) Todos os restantes elementos da comunidade, desde que a saúde o permita, acompanham o aparato em duas alas, uma de cada lado, junto às bermas da estrada.

f) Se a idade avançada ou a saúde não permitem que alguns dos membros da comunidade participem na coroação, estes assistem à mesma debruçados nas janelas abertas, enfeitadas com as melhores mantas de retalhos ou colchas que a casa tem.

Apesar destes papéis se alterem ligeiramente de freguesia para freguesia e de geração para geração, julgo que é um exemplo extraordinário do que foi exposto anteriormente.

es2012_363388.jpgEspírito Santo, por António Araújo

Muito mais do que assistir, julgo que é o envolvimento ativo das gerações mais novas que levam a que as tradições permaneçam nas comunidades. É este fator que justifica argumentos como «isto é assim desde que me lembro».

Além de permitir a manutenção de vivências, o envolvimento juvenil ativo permite que as tradições sejam otimizadas e modernizadas permanentemente, contribuindo para a sua longevidade, mesmo que, às vezes, estes ajustes não correspondam a uma melhoria efetiva das tradições.

«As festas do Espírito Santo, comuns a todas as ilhas açorianas, têm nesta ilha Terceira um esplendor mais alto e, com as touradas à corda, que são diversão exclusiva, constituem valioso repositório de todas as manifestações folclóricas do nosso povo, as únicas que não se têm abastardado pela introdução de modernismos, a que a aproximação de povos com outros costumes e diferente educação, não podem ser estranhos.»
Ata da 2ª sessão ordinária de 1960 no Boletim do IHIT

Ao refletir continuamente sobre a insularidade açoriana, percebi que a pequenez das ilhas são a sua maior riqueza, e que o mar, que as isola do resto do mundo, o seu melhor guardião. Claro, não poderemos viver infinitamente enclausurados do cosmos, mas a discussão sobre o limbo que diferencia a nossa cultura de outras deve ser constantemente vigiado, pelos menos para garantir que permaneceremos com a alma, dita, açoriana.

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Handmade blankets by Jorge Borges

O presente do Carnaval da Terceira

Não consigo deixar de ficar emocionado quando ouço e vejo as primeiras danças e bailinhos de Carnaval a cada ano. Fico infinitamente maravilhado com a circunstância: homens e mulheres do dia-a-dia que, durante noites a fio, preparam músicas e representações teatrais sobre as mais variadas temáticas, para exibi-las a troco de alegria, boa disposição e pura tradição.

Os festejos carnavalescos remontam à época medieval. Esta celebração, que tem lugar entre o bom tempo da primavera e a escuridão do inverno, pretendia expulsar os demónios que o homem foi criando e acumulando durante o frio invernoso. Era necessário, a toque de música, exaltação e festa rija, expelir as trevas e preparar as comunidades para as colheitas e abundâncias da primavera.

2-carnavalFotografia de António Araújo

Desde os desfiles brasileiros ao som do samba até aos caretos de trás-os-montes,  o Carnaval é celebrado em inúmeras comunidades ao longo do planeta, com maior ou menor exuberância, sentido religioso ou festivo.

Esta manifestação cultural também tem lugar no arquipélago dos Açores, com principal destaque para a Terceira. Apesar de acontecer nos limitados quatrocentos quilómetros quadrados da ínsula, é largamente reconhecido como a maior manifestação de teatro popular de língua portuguesa em todo o mundo. O impacto do Carnaval na comunidade é tão alargado que o Governo Regional permite a realização de tolerâncias de ponto enaltecendo “a participação voluntariosa de milhares de cidadãos nas suas mais variadas vertentes: dramatúrgica, performativa, musical e logística”.

“(…) é um fenómeno cultural com um conjunto de características que o torna único. É um fenómeno que, uma vez por ano, durante quatro dias e quatro noites, transforma a nossa ilha numa plateia de trinta e cinco ou quarenta mil pessoas que naqueles dias comem e dormem à pressa para poderem assistir ao maior número possível de danças e bailinhos.”
por Hélio Costa

A alegria e amizade cozinhada e manifestada no carnaval terceirense atrai sucessivamente a participação de muitas pessoas. Popularmente reconhecido como o “bichinho”, o carnaval agarra emotivamente todos os seus participantes e admiradores.

No trabalho preparado pelos vários grupos, contam-se histórias do dia-a-dia saturadas de crítica social. O Carnaval terceirense, mais do que uma oportunidade, é um manifestação clara da opinião pública sobre os mais variados assuntos: política, sociedade, desporto, saúde, educação, etc. Tudo isto, cuidadosamente tecido em rimas e personagens tão bem trabalhadas quanto a experiência e o “jeito” (i.e. talento) permitir.

“(…) o Carnaval da Terceira é uma Mesa posta a toda a gente, incluindo quem nos visita. Onde todos podem saborear de forma gratuita, muita Harmonia, Amizade, Alegria, Criatividade, Música, Poesia e Fulgores. O Carnaval da Ilha Terceira é um Vulcão Cultural como no Mundo não há igual.”
por Hélio Costa

José Nelson Coderniz, numa crónica divulgada em fevereiro no Diário Insular, descreve de forma inteligentemente prática e sucinta o surgimento desde género teatral.

Foi a burguesia italiana do séc. XVII que começou por construir os primeiros teatros públicos. Com o objetivo de ter acesso à ópera (género que antes estava exclusivamente disponível para a nobreza), esta camada social apresentava temas sobretudo de teor mitológico que gradualmente, até ao séc. XIX, foram substituídos por temas do quotidiano. Este tipo de teatro era exibido em quatro momentos do ano, alcançando o seu expoente máximo no Carnaval (época em que as pessoas tinham maior propensão para o convívio noturno em lugares quentes e iluminados).

“Segundo uma perspetiva inglesa, podemos caracterizar os géneros artísticos, do Carnaval terceirense, quase como semi-óperas.”
Por José Nelson Coderniz

Na Terceira, e até aos anos 70 de novecentos, existiam apenas as Danças de Pandeiro (também conhecidas pelas Danças da Noite) e a Dança de Espada (ou Danças de Dia). A partir de 1980, os espaços de exibição sofreram alterações e os conceitos tratados nas danças alteraram-se.

“A Dança de Pandeiro definia-se, essencialmente, pela existência de duas alas de dançarinos, com cerca de 6 elementos por ala, uma composta por músicos e a outra pelos atores, sendo a figura central, o mestre, que além de cantar, devia usar mestria no manuseio do pandeiro. (…) Existia também, uma personagem típica, o ratão, que tinha a função de contraponto jocoso no contexto teatral. Por regra, este género performativo, cómico, só atuava de noite (…) em casas ou espaços particulares, normalmente dos participantes, e só assistia quem fosse convidado.”
Por José Nelson Coderniz

“A Dança de Espada caracterizava-se pela temática dramática, com assuntos históricos/religiosos que foram sendo gradualmente trocados por outros associados ao quotidiano. Composta por duas alas de dançarinos, a ação era dirigida por um mestre munido de uma espada. Atuava de dia, (…) tinha como espaços de atuação os terreiros e as zonas em frente às casas dos principais intervenientes.”
Por José Nelson Coderniz

Dadas as limitações de locomoção da época, os grupos apenas exibiam as suas peças na sua freguesias e nas vizinhas. Normalmente, só participavam homens e era comum estes vestirem-se de mulher para interpretar algum papel.

Com a construção de salões (i.e. pequenos teatros) pelas freguesias (e consequente melhoria das condições de visualização e audição), assim como o avanço nos meios de transportes, os grupos deixaram os pátios e ruas e começaram a atuar por toda a ilha.

Sendo uma manifestação totalmente organizada pelo povo e um organismo vivo que retrata a sua identidade, o Carnaval têm sofrido alterações mais ou menos naturais ao longo dos últimos 35 aos.

“Com a emancipação da mulher no Carnaval terceirense; a criação de escolas de ensino de guitarra/acordeão/bandolim e uma vontade generalizada dos músicos das bandas filarmónicas em participar no Carnaval,o número de grupos aumentou, havendo ainda uma transposição dos parâmetros que definiam tais géneros: o número de músicos ultrapassou os antigos cânones, obrigando a deslocação dos atores para fora das alas e surgiu outro género cómico, o Bailinho.”
Por José Nelson Coderniz

Contudo, nos últimos anos, e numa prespetiva pessoal, apesar do número de danças e bailinhos terem aumentado, o mesmo não tem acontecido com a qualidade. Cada vez mais, a vontade de participar na manifestação se sobrepõe à qualidade performativa. Tem havido uma tendência para a perda da rima e da história consistente. Aparentemente, os grupos têm-se protegido da falta de talento na concepção de histórias e músicas, recorrendo às “piadas da internet” e “arranjos do grupo” (baseados na adaptação de canções existentes). Não deixo de ficar frustrado, quando vejo que uma dança distorce o rumo da sua narrativa apenas para “colar à força” uma anedota com graça, mas descontextualizada. Tenho pena que muitos grupos estejam a seguir este rumo pois, no mínimo, retrata falta de genuinidade. Será que este é o preço do progresso?