E tudo o turismo levará…

Escrevo estas linhas poucos dias depois das low-cost chegarem à Terceira. Entre os benefícios e devaneios que elas trazem (tópicos que já foram tratados neste blogue), hoje gravo, para memória futura, aquilo que foi, ainda é, mas provavelmente deixará de ser alguns aspetos da vivência da ilha Terceira. No fundo, farei uma pequena lista de ocorrências que são próprias da nossa açorianiedade e que, provavelmente, vão perder-se a breve trecho. Recordo que o investimento no turismo foi sobretudo fomentado pelo fim das cotas leiteiras. Registo aqui, aquilo que eu, nascido em meados dos anos noventa, em pleno ciclo da vaca, vi, ouvi e senti como sendo a forma de ser terceirense.

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Green by Rui Caria

Comecemos pelas casas dos lavradores (ou vaqueiros, no calão local) tipicamente grandes e acompanhadas de tratores e cães (das raças Fila de São Miguel, Barbado da Terceira ou Pastor Australiano) que, acorrentados, defendiam os pátios de potenciais intrusos que viessem roubar umas bilhas ou a panóplia de atrelados e máquinas de trabalhar a terra. Recordo também as carrinhas de caixa aberta em madeira, meticulosamente decoradas, que demonstravam a ostentação da lavoura que serviam. O símbolo da casa gravado nas postas, a quantidade e grossura das cordas presas na dianteira e caixa do veículo, assim como a grelha, sempre personalizada e robusta, são alguns dos exemplos da importância dos lavradores. No outono e inverno são particularmente detestáveis, pois transportam silo nauseabundo pelas ruas da ilha.

cows by António Sousa on 500px.comCows by António Sousa

As vacas (felizes, por sinal), tal como as pessoas, vagueiam de um ponto A para um ponto B utilizando as estradas. Num sentido mais concreto, vão de pasto para pasto (ou de  cerrado para cerrado, como se diz por aqui) navegando, em manada, entre os carros que teimam em meter-se no caminho. Nos Açores, um dos requisitos para ser considerado um bom condutor passa por saber como atravessar uma manada de vacas, numa qualquer estrada, sem magoá-las, sem danificar o veículo e sem pisar excrementos bovinos.

Mas é na cidade que mais noto a diferença. Já se vêem poucas velhas vestidas de preto (sinal de viuvez), que vieram no autocarro (urbana ou carreira, como chamamos) para fazer as suas voltas, desde levantar os cheques (quer o grande, quer o pequenino) até comprar umas meias, ir ao mercado, ir ao médico, ou comprar umas lembranças para os netos. Tudo isto intercalado com pausas no meio da rua, quando se cruzam com outra qualquer velha, e aproveitam para fazer um briefing de mexericos ora sobre as suas vidas, ora sobre a vida dos outros. Odiadas por muitos, acredito que vão deixar saudades quando forem (como estão a ser) substituídas por turistas, a falar outras línguas, de mapa na mão e máquina fotográfica ao pescoço.

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Maria João by Rui Caria

Muitas outras coisas mudaram e vão mudar. Estes são apenas alguns exemplos. Não são as mudanças que o ciclo do turista traz que me deixam triste, mas sim o desprezo, desvalorização, destruição, ganância e excessos que esta nova era poderá trazer, e o impacto que isso terá na forma de ser terceirense. Cá para mim, o cúmulo acontecerá no dia em que fizermos uma tourada à corda para turista ver. Nesse dia, deixaremos de ser terceirenses e passaremos a ser gente sem identidade, que representa o que outrora foi, só para garantir o pão na mesa, mas cuja miséria está na alma. Oxalá, não cheguemos a esse ponto.

O segredo açoriano para a longevidade das tradições

A insularidade açoriana é inúmeras vezes apontada como um dos principais motivos pelos quais a nossa cultura tem muitos traços distintivos. Contudo, julgo que há um outro fator determinante: o envolvimento ativo das gerações mais novas nas tradições.

É recorrente que um determinado costume de uma comunidade conte com a participação de indivíduos que encarnam papéis distintos – por exemplo: um padre, um fogueteiro, etc. Quanto mais abrangente for uma determinada manifestação cultural (i.e. quanto mais pessoas estiverem envolvidas), maior a hipótese das crianças, adolescentes e jovens adultos dessa determinada comunidade estarem presentes. No caso açoriano, além destas faixas etárias assistirem, são envolvidas ativamente nas manifestações culturais, encarnando também papéis [muitas vezes] distintos.

«Com pombas aos quatro cantos
E no meio uma mais forte,
Serves de lenço nos prantos
E de sudário na morte.»
Vitorino Nemésio

Apesar da ilha Terceira ser rica em exemplos deste envolvimento, julgo que a tradição que melhor o ilustra é a coroação do Divino Espírito Santo.

Resumidamente, as coroações são uma espécie de procissão em dois atos: o primeiro constituí-se na concentração de pessoas num determinado ponto de encontro, que se organiza num desfile rumo à igreja onde, depois de uma missa e coroação (no sentido literal da palavra), começa o segundo ato no qual a comunidade (com cada um dos indivíduos bem cientes do seu papel) enverga bandeiras, coroas e varas, dirigindo-se até ao Império (pequena ermida do Divino Espírito Santo).

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Espírito Santo, por António Araújo

Apesar do número geralmente elevado de participantes, todos conhecem o seu lugar. Ora vejamos:

a) As crianças de muito tenra idade (aquelas que começaram a andar à pouco tempo) são recrutadas para serem coroadas (i.e. ostentarem uma coroa de prata sob a cabeça).

b) As crianças mais crescidas, aquelas que andam pela primária, seguram, aos pares, a coroa de quem está a ser coroado.

c) Intercalados com as coroas, vão os adolescentes masculinos (embora, hoje, já se tolerem meninas) que levam as bandeiras do Divino Espírito Santo ao ombro (desde que a sua robustez física o permita), acompanhados por uma rapariga, também adolescente, em cada lado. Este padrão coroa/bandeira repete-se quantas coroas houverem disponíveis.

d) Os jovens adultos (candidatos à mordomia dos Impérios), levam as coroas (ou pratos destas, conforme o ato) no final da coroação, antes da filarmónica.

e) Todos os restantes elementos da comunidade, desde que a saúde o permita, acompanham o aparato em duas alas, uma de cada lado, junto às bermas da estrada.

f) Se a idade avançada ou a saúde não permitem que alguns dos membros da comunidade participem na coroação, estes assistem à mesma debruçados nas janelas abertas, enfeitadas com as melhores mantas de retalhos ou colchas que a casa tem.

Apesar destes papéis se alterem ligeiramente de freguesia para freguesia e de geração para geração, julgo que é um exemplo extraordinário do que foi exposto anteriormente.

es2012_363388.jpgEspírito Santo, por António Araújo

Muito mais do que assistir, julgo que é o envolvimento ativo das gerações mais novas que levam a que as tradições permaneçam nas comunidades. É este fator que justifica argumentos como «isto é assim desde que me lembro».

Além de permitir a manutenção de vivências, o envolvimento juvenil ativo permite que as tradições sejam otimizadas e modernizadas permanentemente, contribuindo para a sua longevidade, mesmo que, às vezes, estes ajustes não correspondam a uma melhoria efetiva das tradições.

«As festas do Espírito Santo, comuns a todas as ilhas açorianas, têm nesta ilha Terceira um esplendor mais alto e, com as touradas à corda, que são diversão exclusiva, constituem valioso repositório de todas as manifestações folclóricas do nosso povo, as únicas que não se têm abastardado pela introdução de modernismos, a que a aproximação de povos com outros costumes e diferente educação, não podem ser estranhos.»
Ata da 2ª sessão ordinária de 1960 no Boletim do IHIT

Ao refletir continuamente sobre a insularidade açoriana, percebi que a pequenez das ilhas são a sua maior riqueza, e que o mar, que as isola do resto do mundo, o seu melhor guardião. Claro, não poderemos viver infinitamente enclausurados do cosmos, mas a discussão sobre o limbo que diferencia a nossa cultura de outras deve ser constantemente vigiado, pelos menos para garantir que permaneceremos com a alma, dita, açoriana.

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Handmade blankets by Jorge Borges

O verão açoriano é feito de tudo um pouco…

O verão açoriano tem um tanto de belo, religioso, profano, exagero, simplicidade, encanto e estranheza.

Antes do calor chegar, já o estalar de cascos bovinos no asfalto e de foguetes no ar anunciam aquilo que é o verão na ilha Terceira. A cerveja na mão, o riso no rosto e o olho a fitar o toiro para evitar um “Ai ai ai!” em sobressalto conjunto, definem a maioria das tardes terceirenses. Aos mais corajosos, está entregue a tarefa de manusear a capa encarnada para desassossegar a bravura dos toiros.

O verão açoriano ajuda a limpar o pó ao Santo António, a São João, às Nossas Senhoras da Conceição, da Ajuda, da Agonia, da Penha de França, dos Milagres, da Boa Viagem… Enfim, a todos aqueles e aquelas que vão em procissão dar uma volta às suas freguesias, servindo de mote para as festinhas e grandiosas festas dos lugarinhos e terreiros das freguesias desta ilha.

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Bravery por André Fagundes

O verão açoriano faz as cidades encherem-se de festa própria com luzes, desfiles e concertos que atraem residentes, emigrantes e forasteiros. Ao som da cantiga ao improviso, do fado, do pimba ou de um qualquer DJ, amores tornam-se em dissabores e namoricos em coisas sérias.

As noites de verão terceirenses são passadas num terreiro, de uma qualquer freguesia, iluminada e com um palco, ao qual sobem as bandas do costume, salve um ou outro artista do continente que as comissões mais arrojadas conseguiram pagar.

Ao sabor de tremoço, cerveja ou sangria (conforme o gosto de cada um), democratizam-se conversas animadas, ora sobre os problemas do dia-a-dia, ora sobre mexericos. Num ambiente de festa, fala-se de futebol, política, sociedade e de tudo o resto.

Mas existem pessoas que preferem ir só até à cidade mais próxima, teoricamente para tomar café com os amigos, quando, na verdade, acabam todos por beber cerveja na esplanada do costume. De quando em vez, também são surpreendidos com a atuação de uma qualquer banda constituída por amigos que às vezes vão para as esplanadas e outras vezes para os terreiros.

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Launching Site por Eduardo Marques

O verão açoriano é feito de churrascos no mato, à sombra de grandes árvores que acalmam o calor e que dão lugar às grandes jogadas de cartas, dominó e marralhinha. É a calmaria das criptomérias que dá o mote às canções de quem levou um violão e inspira os temperos de quem vira o frango sobre a brasa.

Enquanto o milho cresce nos cerrados, pescadores e outros entusiastas armam-se em punho com a pequena navalha com que apanham as lapas, cracas e caracóis, saboreados em todos os cantos e recantos da ilha.

Mais certo do que o pão do bodo, é banhar-se no mar em dias de sol, não vá o tempo virar no dia seguinte. É queimar a pele para ficar moreno e apanhar uma “vardascada” de água-viva. Ah! E depois colocar vinagre ou xixi em cima para aliviar a dor (embora sejam remédios cuja eficácia ainda deixe alguns turistas reticentes).

Existem também aqueles que, no verão, dão um salto a outra ilha para fazer estas mesmas coisas, mas ao som de um outro sotaque.

E lá para os fins de agosto e os inícios de setembro, aparece um ou outro furação, tempestade tropical ou chuva intensa que tentam anunciar o fim do verão, embora seja o dia 15 de outubro, já num outono maduro, que se fecha definitivamente. Os Açores devem ser dos poucos sítios do mundo onde a primavera e o outono se fundem no verão e este tem data de início e de fim, independentemente das circunstâncias.

Há quem pense que o verão açoriano é palco de convívio, harmonia e festa porque o resto do ano é demasiado chuvoso, ventoso, friorento ou desajeitado para tudo isto. Nestes pedacinhos de basalto salgado pelo mar, assombrados por vulcões, terramotos e tempestades, percebemos, faz muito tempo, que o melhor que temos é o convívio uns com os outros. Por isso, é bom vivenciar todas estas coisas (e outras tantas que não foram aqui mencionadas) enquanto a severidade da natureza está de férias.

Bem-vinda à nova era, Terceira.

Recentemente, foi instalado um posto de informação turística na Praça Velha. Embora tenha um aspeto humilde, rudimentar e um tanto ou quanto improvisado para a sua finalidade, não deixa de ser um enorme símbolo da contemporaneidade e futuro açorianos.

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A Praça Velha já foi o alicerce do primeiríssimo edifício camarário desta cidade, já foi um charco e um descampado. Já teve um pelourinho, um candeeiro, um repuxo, um coreto e uma estátua de Álvaro Martins Homem (fundador da vila de Angra). Já assistiu a touradas, degolações, manifestações e falsas declarações da república. Teve e tem uma esplanada. E hoje tem um posto de informação turística.

Se a paisagem é um reflexo dos usos que o homem lhe dá, a colocação de um quiosque de turismo na Praça Velha, é assumir que já vencemos a inércia e estamos de braços abertos à nova era da história açoriana. Sim, nova era – o turismo enquanto motor económico principal dos Açores. Nós já tirámos sustento do pastel, do trigo, da cevada, da laranja, da baleia, da vaca (e dos americanos?). Agora, por força da circunstância, mudámos o rumo e navegamos por outras águas.

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Voltando ao quiosque da Praça Velha, peço que se repare no fato do mesmo se intitular “Centro de Informação ao Visitante” e não algo como “Posto de Turismo” ou “Informação Turística”. Repare-se no trato que é dado ao turista: visitante. Esta postura, menos pejorativa, deve ser tomada como um exemplo e fazer parte do nosso dia-a-dia. Afinal, estamos a partilhar a nossa vivência com alguém como nós, simplesmente.

Este é um pequeno exemplo. Ainda há muito para fazer, é verdade. Contudo, paulatinamente, chegaremos lá. Pelo menos, diz-se, estamos a fazê-lo com juízo, algo que também é conhecido por sustentabilidade.

Angra está diferente… Ou igual?

Hoje estive no meu café favorito por um bom bocado. Decidi ir até à cidade angrense para, a toque de doces maravilhosos, colocar o trabalho em dia.

Durante a tarde ouvi portugueses (continentais), espanhóis, americanos e até alemães. Atrevo-me a dizer que por lá passaram mais estrangeiros do que locais. É, inquestionavelmente, resultado das novas políticas aplicadas ao turismo nos Açores e, sem dúvida, um fruto dos voos charter que têm cumprimentado a ilha semanalmente.

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Azores Golden Hour by Eduardo Marques

Angra é uma cidade diferente daquela que existia a apenas alguns meses. Está ligeiramente mais movimentada, sobretudo por turistas. Está a ganhar uma vida diferente daquela que tinha. Resta questionar: ainda é a Angra que conhecemos?

Sendo romântico (e tão patético quanto qualquer apaixonado), gosto de pensar que esta “nova” identidade de Angra, não é assim tão nova. Se conhecermos um pouco da sua história, sabemos que esta cidade foi ponto de passagem e de paragem de muitas pessoas, ideias e culturas. Aliás, estas mesmas gentes fizeram parte da forja que nos tornou únicos.

Será que a atual vida de Angra (visitada por indivíduos de outras partes) não é mais do que um regresso ao passado e à vivência que agitou esta cidade durante séculos? Talvez estejamos a reavivar a Angra astuta, arisca, bela e irreverente que já existiu.

Talvez esteja a iludir-me, mas gosto de pensar assim.

Vivenciar a Cidade sem exageros

A minha deslocação recente ao Porto fez-me reflectir sobre o conceito de cidade. Para mim, uma urbe é muito mais do que ruas e edifícios. Uma cidade é um sistema aberto composto por diferentes elementos que se relacionam entre si. É a mistura de interações entre pessoas, ruas, edifícios, serviços, cultura, entre muitas coisas, mais ou menos complexas, mais ou menos humanas. Assim, quando visito uma cidade, mais do que apreciar a sua arquitetura, quero contemplar e envolver-me na sua vivência. Entenda-se vivência como o dia-a-dia das gentes que vivem/trabalham/revêem-se na cidade.

“Cidade: Meio geográfico e social caracterizado por uma forte concentraçãopopulacional que cria uma rede orgânica de troca de serviços (administrativos, comerciais, profissionais, educacionais e culturais).”
Dicionário Português

Ora, ao visitar o Porto, fiquei com a sensação que só consegui contemplar a sua parte arquitetónica, pois a vivência da cidade estava camuflada por uma maré gigante de turistas. Estes, que vagueavam desgovernadamente pela cidade, fotografando cada pedacinho de estátua, igreja ou rua.

Está observação fez-me levantar uma questão: será que esta mancha turística deve ser vista como uma espécie de “à parte” da vida da cidade ou deve ser aceite como a nova realidade da vivência da cidade?

Coloquei esta questão a uma amiga portuense que me indicou que existem grandes diferenças entre o Porto antes do turismo e o Porto depois do turismo. Ela começou por falar na nova vida: certas partes desta cidade, outrora entregues à criminalidade, estão agora alegremente movimentadas e seguras. Muitos dos edifícios que estavam devultos estão a ser recuperados, muitas das lonas que estavam fechadas estão a ser reabertas.

Na perspetiva da minha amiga nota-se, portanto, consequências positivas face à introdução do turismo na cidade. Contudo, no extremo oposto, fala num “exagero de turistas”. Ou seja, o balanço entre visitantes e locais é desproporcional.

Na nossa conversa notei que ela via os turistas como pessoas à parte da cidade, como uma realidade que pouco interessa à vivência quotidiana.

Fazendo agora a ponte para os Açores: será que o turismo será sempre um “à parte” ou tronar-se-á, efetivamente, na nova realidade açoriana? Tudo aponta para que esta segunda opção vingue. Tal como no Porto, o turismo trará benefícios. Mas tenhamos cuidado e aprendamos com os erros dos outros para não cairmos no “exagero”.

Uma visão para Angra do Heroísmo

Tenho tenra idade e ocupo uma parte significativa do meu tempo com trabalho. Talvez por estar envolvido numa organização que tem jurisdição direta sobre a cidade, cruzo-me muitas vezes com tarefas que envolvem conhecimentos históricos. Este facto despertou em mim a necessidade de conhecer mais sobre o passado da Muito Nobre, Leal e Sempre Constante Cidade de Angra do Heroísmo. O conhecimento que vou apreendendo, de forma paulatina e parca, deixa-me sucessivamente maravilhado com a grandeza desta urbe. À vista da atualidade, custa-me acreditar que nesta mesma cidade já tenham passado reis e senhores de muitos mundos – Angra foi uma capital em muitos sentidos.

Hoje, Angra parece que não vale muito. Tem paredes que contam história, mas poucos sabem lê-las. É uma cidade que vive das 9h00 às 5h00, de segunda à sexta, e depois adormece, ficando ao mercê do turista desconsolado, que vagueia pelas ruas despidas de vida. Noutros dias, está entregue aos loucos que, embora inofensivos, não perdem a oportunidade para cravar uns trocos e contar a sua história, meia real, meia inventada. Esta urbe, outrora grandiosa, está a morrer paulatinamente nos nossos braços e nós, simultaneamente ingénuos e vis, entregamo-a à podridão. É uma cidade desgovernada que navega ao sabor do vento e do tempo.

“A concepção moderna do progresso chega a ser anti-histórica e, deste modo, contraditória: o passado é visto a partir dos sucessos atuais e tido sem valor referencial; e o presente a si próprio se aniquila, na ansia das promessas tecnológicas futuras, que desconhece. Como não há ponto transcendente e uma definição a priori, o progresso é ilusório. Há um eterno presente sem memória e insatisfeito.”
Mário T. Cabral

Pensar sobre o futuro de Angra, é cair num paradoxo desconfortável, onde a sua designação enquanto Património Mundial é simultaneamente amada e odiada. Os dois olhares futuristas vagueiam no limbo de duas ideias: ou evoluímos condicionando (ou mesmo “destruindo”) o que existe, ou mantemos o que temos, sobre o custo de “não evoluirmos”. Embalados pela crítica constante da corja desta cidade, parecemos incapazes de ultrapassar este paradoxo.

Nesta conjuntura, julgo que os problemas de Angra residem em três fatores basilares, nomeadamente: falta de auto-conhecimento, falta de criatividade e falta de vontade.

Passo a esmiuçar.

Só é possivel construir o futuro se estivermos munidos de dois alicerces fundamentais: uma visão e a vontade de alcançá-la.

Neste momento, Angra tem poucas visões aparentemente. Continua a centrar-se na resolução de pequenos focos de ação. Tal não é necessariamente mau, aliás, é através de pequenos passos que se alcançam objetivos maiores. Contudo, continua a faltar uma grande visão. Por exemplo, daqui a 10 anos, queremos ser quem? Queremos alcançar o quê? São as respostas a perguntas como estas que nos permitem entender o que pretendemos conquistar e, com isso, definir e seguir um caminho. Até agora, parece que existe falta de vontade para se desenvolver e perseguir um grande objetivo.

Esta aparente falta de motivação, ou sentimento de apatia, pode justificar-se por vários fatores. Talvez, o mais simples, trata-se do facto de não nos conhecermos a nós próprios. Será possível sabermos o que queremos, se não temos conhecimento de quem somos? Não me parece. Este é o primeiro desafio de Angra: promover o auto-conhecimento. Em Angra, é possível  chegar a tal objetivo, temos as infraestruturas e recursos humanos para tal.  Depois de nos conhecermos, saberemos com toda a certeza, onde nos posicionamos, o que temos e o que queremos alcançar.

“A paisagem é o testemunho das obras de todas as gerações que passaram, usaram ou viveram num determinado espaço.”
Ingold & Bradle, 1993

Outro problema recorrente nesta cidade, principalmente nas últimas décadas,  baseia-se no facto de termos assistido ao esvaziamento e abandono de muitos edifícios do centro histórico. Em parte, porque as condições de habitabilidade, face à contemporaneidade, tornam o centro histórico quase “desaquado” à qualidade de vida que muitas pessoas pretendem. Por outro lado, temos assistido à construção de muitos edifícios/equipamentos que nos primeiros tempos de vida parecem bastante úteis, mas que como passar dos anos, tornam-se casas despidas de vida e atividade. É na resolução destes dois sentidos que a criatividade, que nos tem faltado, é útil. Esta é sobretudo importante para reapropriar os espaços existentes para novas funções e rentabilizar os novos edifícios. A atual ausência de criatividade pode ser causada pela nossa insularidade, contudo, na atual aldeia global, a proximidade é tão distante quanto a vontade de atravessar fronteiras. Neste sentido, temos de nos conhecer e ser criativos no desenvolvimento de uma visão e estratégia.

Por fim, falta vontade. E não é só vontade política. Falta intenção institucional, organizacional e até mesmo individual.

Qual é o primeiro passo? Estarmos juntos. Para irmos longe, temos de juntar várias vontades, forças e pontos de vista. Esta tem sido a receita mais apropriada para as longas mas firmes caminhadas. Esta é uma das principais conclusões que tiro da discussão da gestão do centro histórico de Angra, que se tem traduzido em múltiplas conferências organizadas pela Direção Regional da Cultura.

Estas são as minhas sinceras ideias sobre o assunto. Teria imenso gosto em fazer parte desta caminhada, mesmo que a minha importância na discussão seja minúscula.

“(…) Se a Sapateira não der
Para acalmar a minha alma inquieta,
Estou para o seu der e vier
Nas voltas da Chamarrita.”
in Chamateia, 1987