Rememos todos para o mesmo lado

Nos últimos meses, os Açores têm elevado a sua notoriedade no mundo. Os esforços recentes na promoção turística da região, têm levado a que estas ínsulas andem nas bocas do mundo. Elogiadas pelo contato com a natureza pura e por atividades de animação turísticas sustentáveis, o arquipélago tem se afirmado como um local de visita obrigatória para os amantes de manchas verdes.

Com um buzz tão alargado, é natural que cada vez mais pessoas venham à região. Contudo, devido à sua dispersão, [ainda] condicionada mobilidade inter-ilhas, diferentes níveis de desenvolvimento e diversificadas realidades, cada ilha tem feito o seu melhor para se distinguir das restantes a fim de se tornar numa paragem obrigatória.

Sete Cidades by João Moniz on 500px.com
Sete Cidades by João Moniz

A estratégia promocional adotada tem “vendido” um arquipélago “certificado pela natureza” – é este o mote da marca Açores. Indiscutivelmente, é de todo o interesse que se venda o conjunto como um todo (mesmo que contenha nove ilhas dispersas ao longo de 600km). As paisagens de São Miguel e do Triângulo (i.e. São Jorge, Pico e Faial) assentam como uma luva nesta tagline. Contudo, outras ilhas, por mais que tentem, dificilmente vingaram neste sector. Umas delas é a Terceira.

Calma! Todos sabemos que a ilha de Jesus Cristo tem paisagens bonitas: Caldeira Guilherme Moniz, Serra do Cume, Serra de Santa Bárbara, etc. Contudo, do ponto de vista de um turista, estão muito aquém da Lagoa das Sete Cidades, da Paisagem Protegida da Vinha do Pico, das Fajãs de São Jorge ou mesmo do Vulcão dos Capelinhos – verdade seja dita. Nesta perspetiva, ao definir-mo-nos como um destino de natureza no mercado açoriano, seria um convite aberto ao título da ilha “naturalmente menos bonita”. Isto não significa que devemos deixar de ter atividades de animação turística relacionadas com a natureza – não é isto que se defende neste post. Pelo contrário, temos sido elogiados por termos experiências naturais mais “selvagens” (i.e. naturais) do que outras ilhas, mas isto não determina que temos necessariamente as paisagens mais bonitas nem que os turistas apenas procuram tal. Descrito este ponto, entende-se que a Terceira tem de se diferenciar daquilo que há, ou seja, deve “oferecer” algo que as outras ilhas não têm. E se pensarmos numa perspectiva histórica e cultural, temos muito mais que elas todas juntas, literalmente. Ser capital de Portugal duas vezes, ser sede da Diocese Açoriana, ter acolhido a Capitania Geral do Açores, ter sido porto de abrigo de naus e caravelas de todo o mundo, ser berço do Liberalismo, ter Bailinhos de Carnaval, Touradas à Corda, entre outros, não são “coisas” que outras ilhas possam contar sobre os seus 500 anos de história. E é aqui que a Terceira tem de se centrar. Esta deve ser a marca a ostentar pela ilha.

Perceber como nos devemos diferenciar no mercado regional é apenas o primeiro passo. Trabalhar cultura tem contornos bem mais complexos do que tratar natureza. Enquanto que esta está à vista e pode ser rapidamente explicada, uma compreensão total da cultura e da história dependem da interpretação de dados ou vestígios do passado que estão, mais ou menos, bem preservados e presentes na atualidade. Se a Terceira aceitar a posição que defendi acima, a batalha seguinte será materializar/traduzir em produtos turísticos essa mesma cultura e história, para que os visitantes da ilha possam, de facto, entendê-la como um local de cultura e história.

Esta etapa exige um enorme esforço e coordenação de todas as entidades envolvidas neste assunto (desde as instituições públicas, passando pelas empresas do sector e associações governamentais, até à população em geral) para que seja possível, finalmente, tirar partido do turismo na ilha. Posto isto, segue-se a questão desconfortável: quem é que deve estar na dianteira desta coordenação? Ou seja, quem é que tem (ou devia ter) a competência legalmente atribuída para estar “nos galhos do toiro”?

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Photo by Rui Caria

Esta pergunta não pretende desvalorizar ou desencorajar os esforços que têm sido feitos (e têm sido muitos), mas sim apelar a que todas as pessoas e instituições se unem para que “rememos todos para o mesmo lado”. Esta tem sido a maior lição de todas as adversidades naturais, políticas e sociais que têm atingido a nossa ilha, e que caracteriza tão bem a nossa identidade – saibamos, pois, pensar e atuar em conjunto para que voltemos a ser “a capital do coração do atlântico”.

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Progresso inconsciente é retrocesso progressivo

Vivemos numa época incrível. Hoje, conseguimos fixar tudo aquilo que capta o nosso interesse: lugares, experiências, pessoas… Enfim. Tudo pode ser facilmente fotografado, gravado e filmado através de um único dispositivo de bolso. Além disto, é possível partilhar o que se viu, sentiu ou pensou com pessoas que estão do outro lado do mundo.

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Inaccessible Universe by André Farinha

O tempo, a experimentação e a melhoria continua levam inevitavelmente ao progresso. Este, que muitas vezes envergonha as formas de pensar, técnicas e ferramentas que o precederam, faz-nos esquecer propositadamente do passado. Demasiadas vezes, em nome do “moderno”, “avançado” e “atual” desvalorizamos o que esteve na sua origem.

Desde a sua origem que os equipamentos (multi)média se distinguiram pela possibilidade de fixar no tempo aquilo que antes era efémero. Depois do seu aparecimento, uma narração, uma música, um pensamento ou um qualquer aparato em movimento poderia ser repetidamente apreciado. Talvez, sem uma noção explícita, começou a ser possível fixar aquilo que fazia parte das vivências de uma outra forma.

Geralmente dispendiosos e de difícil manuseamento, as máquinas fotográficas, gravadores e máquinas de filmar estavam quase exclusivamente destinados às classes mais abastadas. Com o tempo, os equipamentos ganharam relevância, foram continuamente aperfeiçoados e tornaram-se cada vez mais acessíveis.

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Hoje, a evolução acelerada dos equipamentos digitais e a sede por uma internet cada vez mais omnipresente, levam a que a fronteira entre a realidade e a virtualidade seja cada vez mais ténue. Não nos devemos esquecer do passado ou deixar que as suas marcas desapareçam em nome do progresso. Com os equipamentos de que dispomos atualmente, é imperdoável que, pelo menos, não gravemos ou filmemos as manifestações identitárias que nos rodeiam. O progresso nunca deverá ser um motivo para se esquecer uma qualquer manifestação popular. Pelo contrário, o progresso deve acatar a responsabilidade de não deixar o passado cair no esquecimento.

A insignificância da linha costeira para os açorianos

Numa das minhas leituras aleatórias, li um pequeno artigo sobre um estudo realizado à gestão da linha costeira das ilhas açorianas. Neste documento, falava-se da forma como os ilhéus tinham usufruído das estruturas geológicas para criar zonas balneares, umas vezes utilizando-as tal como elas são e outras modificando-as para torná-las mais cómodas. O texto desencadeou em mim uma reflexão sobre a forma com que o açoriano vê o limite entre a terra e o mar.

Anonymous Paradise by André Farinha on 500px.com

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Durante os meus estudo no continente, muitas pessoas perguntavam-me como é que eu conseguia viver num espaço tão circunscrito. A questão parecia afligi-las, como se imaginassem a ilha enquanto prisão de quatro paredes por onde não se consegue escapar. A minha resposta baseava-se simplesmente em descrever dois pontos distintos: por um lado, expor a naturalidade com que o ilhéu olha para a linha costeira, i.e. trata-se apenas da faixa onde o mar e a terra se misturam; e, por outra, da forma aberta com que o açoriano acolhe a vastidão do mar.

A percepção do limite, enquanto ilhéu, é muito clara e presente. O limite é a linha que o mar desenha na terra. No entanto, não é barreira, o mar é continuidade e não motivo de exílio, é o espaço onde o ilhéu mensura a sua própria concepção de infinito, onde desenha o seu caminho de evasão.

Por Filipa Bettencourt Picanço

Nunca senti que o mar fosse um monstro claustrofóbico e inibidor de ver mundo. Pelo contrário, sempre senti que o mar fosse libertador. Enquanto que uns vêem o oceano como o limite do alcançável, os açorianos vêem-no como a certeza de que conhecem tudo o que existe, que não há mais nada a observar ou conquistar. Assim, o mar é o expoente máximo do que há para conhecer: nele tudo começa e acaba.

O mar é uma referência geográfica, olhá-lo é saber onde se está. Da mesma forma que o pastor usa os montes para se guiar pelos campos, os açorianos usam o mar e a linha costeira para vaguear pelas ilhas (de forma física ou espiritual). Assim, é expectável que alguns açorianos se sintam desnorteados e encurralados quando estão nas grandes cidades, onde os prédios os sufocam, inibindo-os de ver o mar. Nesta perspectiva, o oceano, por estar libertado e ser libertador, é também entendido como uma enorme fonte de inspiração. A arte no açoriano surge em pleno mar deserto: é na [falsa] percepção de se conhecer tudo o que a visão alcança que a criação decorre. Provavelmente, é este mesmo facto que leva à originalidade e excepcionalidade da cultura açoriana, criando-se um paradoxo: o que inibe é simultaneamente o que liberta.

Wind by Rui Caria on 500px.com Wind by Rui Caria on 500px.com

A naturalidade com que o açoriano vê a linha costeira torna-a insignificante. Não importa se é uma calheta, uma angra ou uma falésia: o açoriano vê a costa como uma porta para o mar, numa relação de respeito e profunda ternura como aquela que se tem com um amigo de longa data.

Terceira Island Azores by Eduardo Marques on 500px.com Terceira Island Azores by Eduardo Marques on 500px.com

Esta é, a vez primeira. A vez primeira: que neste auditório canto.

Nasci numa ilha em pleno oceano atlântico que, com outras oito, forma o arquipélago dos Açores. Todos os dias, há diferentes tons de azul e verde que me enchem os olhos. Apenas o basalto negro permanece igual, lembrando a origem vulcânica destas ínsulas.

Tendo em conta que estão distribuídas ao longo de 600km, designá-las num todo como arquipélago é relativamente recente.

Então, o que há de interesse num local tão remoto? Esta é a questão de partida. Seria mais correto definir cada ilha como um arquipélago per si, do que num conjunto. Nos Açores, cada ilha é um arquipélago.

A posição do conjunto insular no atlântico tornou-se fundamental nos trajectos marítimos dos séculos XV a XVIII, permitindo o interesse e fixação de gentes. As condições atmosféricas e solo rico levaram ao desenvolvimento de indústrias agrícolas e pecuárias produtivas. Contudo, estas ilhas não se deixam domar facilmente e lembram constantemente que são filhos da natureza: erupções vulcânicas, terramotos e tempestades são as mais temíveis demonstrações da soberania destas ilhas.

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Todos estes factores influenciaram as gentes que se fixaram e prosperaram nestas terras de basalto negro, desenvolvendo assim uma identidade açoriana, fruto do isolamento e circunstância insular.

O tempo e o isolamento poderiam ser os causadores da sua morte, mas são estes que [também] mantêm a identidade que ainda hoje se manifesta de forma intensa através de oralidades, tradições e vivências.

Basalto Salgado é um blogue que materializa reflexões sobre a insularidade açoriana: o seu imaginário, identidade e vivência. Estes pensamentos, mais ou menos profundos, não se preocupam com atributos científicos porque são fruto de uma figura simultaneamente passiva e ativa que observa, toca, prova, ouve e sente a insularidade açoriana.

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