Angra está diferente… Ou igual?

Hoje estive no meu café favorito por um bom bocado. Decidi ir até à cidade angrense para, a toque de doces maravilhosos, colocar o trabalho em dia.

Durante a tarde ouvi portugueses (continentais), espanhóis, americanos e até alemães. Atrevo-me a dizer que por lá passaram mais estrangeiros do que locais. É, inquestionavelmente, resultado das novas políticas aplicadas ao turismo nos Açores e, sem dúvida, um fruto dos voos charter que têm cumprimentado a ilha semanalmente.

Azores Golden Hour by Eduardo Marques on 500px.com

Azores Golden Hour by Eduardo Marques

Angra é uma cidade diferente daquela que existia a apenas alguns meses. Está ligeiramente mais movimentada, sobretudo por turistas. Está a ganhar uma vida diferente daquela que tinha. Resta questionar: ainda é a Angra que conhecemos?

Sendo romântico (e tão patético quanto qualquer apaixonado), gosto de pensar que esta “nova” identidade de Angra, não é assim tão nova. Se conhecermos um pouco da sua história, sabemos que esta cidade foi ponto de passagem e de paragem de muitas pessoas, ideias e culturas. Aliás, estas mesmas gentes fizeram parte da forja que nos tornou únicos.

Será que a atual vida de Angra (visitada por indivíduos de outras partes) não é mais do que um regresso ao passado e à vivência que agitou esta cidade durante séculos? Talvez estejamos a reavivar a Angra astuta, arisca, bela e irreverente que já existiu.

Talvez esteja a iludir-me, mas gosto de pensar assim.

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Vivenciar a Cidade sem exageros

A minha deslocação recente ao Porto fez-me reflectir sobre o conceito de cidade. Para mim, uma urbe é muito mais do que ruas e edifícios. Uma cidade é um sistema aberto composto por diferentes elementos que se relacionam entre si. É a mistura de interações entre pessoas, ruas, edifícios, serviços, cultura, entre muitas coisas, mais ou menos complexas, mais ou menos humanas. Assim, quando visito uma cidade, mais do que apreciar a sua arquitetura, quero contemplar e envolver-me na sua vivência. Entenda-se vivência como o dia-a-dia das gentes que vivem/trabalham/revêem-se na cidade.

“Cidade: Meio geográfico e social caracterizado por uma forte concentraçãopopulacional que cria uma rede orgânica de troca de serviços (administrativos, comerciais, profissionais, educacionais e culturais).”
Dicionário Português

Ora, ao visitar o Porto, fiquei com a sensação que só consegui contemplar a sua parte arquitetónica, pois a vivência da cidade estava camuflada por uma maré gigante de turistas. Estes, que vagueavam desgovernadamente pela cidade, fotografando cada pedacinho de estátua, igreja ou rua.

Está observação fez-me levantar uma questão: será que esta mancha turística deve ser vista como uma espécie de “à parte” da vida da cidade ou deve ser aceite como a nova realidade da vivência da cidade?

Coloquei esta questão a uma amiga portuense que me indicou que existem grandes diferenças entre o Porto antes do turismo e o Porto depois do turismo. Ela começou por falar na nova vida: certas partes desta cidade, outrora entregues à criminalidade, estão agora alegremente movimentadas e seguras. Muitos dos edifícios que estavam devultos estão a ser recuperados, muitas das lonas que estavam fechadas estão a ser reabertas.

Na perspetiva da minha amiga nota-se, portanto, consequências positivas face à introdução do turismo na cidade. Contudo, no extremo oposto, fala num “exagero de turistas”. Ou seja, o balanço entre visitantes e locais é desproporcional.

Na nossa conversa notei que ela via os turistas como pessoas à parte da cidade, como uma realidade que pouco interessa à vivência quotidiana.

Fazendo agora a ponte para os Açores: será que o turismo será sempre um “à parte” ou tronar-se-á, efetivamente, na nova realidade açoriana? Tudo aponta para que esta segunda opção vingue. Tal como no Porto, o turismo trará benefícios. Mas tenhamos cuidado e aprendamos com os erros dos outros para não cairmos no “exagero”.

Uma visão para Angra do Heroísmo

Tenho tenra idade e ocupo uma parte significativa do meu tempo com trabalho. Talvez por estar envolvido numa organização que tem jurisdição direta sobre a cidade, cruzo-me muitas vezes com tarefas que envolvem conhecimentos históricos. Este facto despertou em mim a necessidade de conhecer mais sobre o passado da Muito Nobre, Leal e Sempre Constante Cidade de Angra do Heroísmo. O conhecimento que vou apreendendo, de forma paulatina e parca, deixa-me sucessivamente maravilhado com a grandeza desta urbe. À vista da atualidade, custa-me acreditar que nesta mesma cidade já tenham passado reis e senhores de muitos mundos – Angra foi uma capital em muitos sentidos.

Hoje, Angra parece que não vale muito. Tem paredes que contam história, mas poucos sabem lê-las. É uma cidade que vive das 9h00 às 5h00, de segunda à sexta, e depois adormece, ficando ao mercê do turista desconsolado, que vagueia pelas ruas despidas de vida. Noutros dias, está entregue aos loucos que, embora inofensivos, não perdem a oportunidade para cravar uns trocos e contar a sua história, meia real, meia inventada. Esta urbe, outrora grandiosa, está a morrer paulatinamente nos nossos braços e nós, simultaneamente ingénuos e vis, entregamo-a à podridão. É uma cidade desgovernada que navega ao sabor do vento e do tempo.

“A concepção moderna do progresso chega a ser anti-histórica e, deste modo, contraditória: o passado é visto a partir dos sucessos atuais e tido sem valor referencial; e o presente a si próprio se aniquila, na ansia das promessas tecnológicas futuras, que desconhece. Como não há ponto transcendente e uma definição a priori, o progresso é ilusório. Há um eterno presente sem memória e insatisfeito.”
Mário T. Cabral

Pensar sobre o futuro de Angra, é cair num paradoxo desconfortável, onde a sua designação enquanto Património Mundial é simultaneamente amada e odiada. Os dois olhares futuristas vagueiam no limbo de duas ideias: ou evoluímos condicionando (ou mesmo “destruindo”) o que existe, ou mantemos o que temos, sobre o custo de “não evoluirmos”. Embalados pela crítica constante da corja desta cidade, parecemos incapazes de ultrapassar este paradoxo.

Nesta conjuntura, julgo que os problemas de Angra residem em três fatores basilares, nomeadamente: falta de auto-conhecimento, falta de criatividade e falta de vontade.

Passo a esmiuçar.

Só é possivel construir o futuro se estivermos munidos de dois alicerces fundamentais: uma visão e a vontade de alcançá-la.

Neste momento, Angra tem poucas visões aparentemente. Continua a centrar-se na resolução de pequenos focos de ação. Tal não é necessariamente mau, aliás, é através de pequenos passos que se alcançam objetivos maiores. Contudo, continua a faltar uma grande visão. Por exemplo, daqui a 10 anos, queremos ser quem? Queremos alcançar o quê? São as respostas a perguntas como estas que nos permitem entender o que pretendemos conquistar e, com isso, definir e seguir um caminho. Até agora, parece que existe falta de vontade para se desenvolver e perseguir um grande objetivo.

Esta aparente falta de motivação, ou sentimento de apatia, pode justificar-se por vários fatores. Talvez, o mais simples, trata-se do facto de não nos conhecermos a nós próprios. Será possível sabermos o que queremos, se não temos conhecimento de quem somos? Não me parece. Este é o primeiro desafio de Angra: promover o auto-conhecimento. Em Angra, é possível  chegar a tal objetivo, temos as infraestruturas e recursos humanos para tal.  Depois de nos conhecermos, saberemos com toda a certeza, onde nos posicionamos, o que temos e o que queremos alcançar.

“A paisagem é o testemunho das obras de todas as gerações que passaram, usaram ou viveram num determinado espaço.”
Ingold & Bradle, 1993

Outro problema recorrente nesta cidade, principalmente nas últimas décadas,  baseia-se no facto de termos assistido ao esvaziamento e abandono de muitos edifícios do centro histórico. Em parte, porque as condições de habitabilidade, face à contemporaneidade, tornam o centro histórico quase “desaquado” à qualidade de vida que muitas pessoas pretendem. Por outro lado, temos assistido à construção de muitos edifícios/equipamentos que nos primeiros tempos de vida parecem bastante úteis, mas que como passar dos anos, tornam-se casas despidas de vida e atividade. É na resolução destes dois sentidos que a criatividade, que nos tem faltado, é útil. Esta é sobretudo importante para reapropriar os espaços existentes para novas funções e rentabilizar os novos edifícios. A atual ausência de criatividade pode ser causada pela nossa insularidade, contudo, na atual aldeia global, a proximidade é tão distante quanto a vontade de atravessar fronteiras. Neste sentido, temos de nos conhecer e ser criativos no desenvolvimento de uma visão e estratégia.

Por fim, falta vontade. E não é só vontade política. Falta intenção institucional, organizacional e até mesmo individual.

Qual é o primeiro passo? Estarmos juntos. Para irmos longe, temos de juntar várias vontades, forças e pontos de vista. Esta tem sido a receita mais apropriada para as longas mas firmes caminhadas. Esta é uma das principais conclusões que tiro da discussão da gestão do centro histórico de Angra, que se tem traduzido em múltiplas conferências organizadas pela Direção Regional da Cultura.

Estas são as minhas sinceras ideias sobre o assunto. Teria imenso gosto em fazer parte desta caminhada, mesmo que a minha importância na discussão seja minúscula.

“(…) Se a Sapateira não der
Para acalmar a minha alma inquieta,
Estou para o seu der e vier
Nas voltas da Chamarrita.”
in Chamateia, 1987

O presente do Carnaval da Terceira

Não consigo deixar de ficar emocionado quando ouço e vejo as primeiras danças e bailinhos de Carnaval a cada ano. Fico infinitamente maravilhado com a circunstância: homens e mulheres do dia-a-dia que, durante noites a fio, preparam músicas e representações teatrais sobre as mais variadas temáticas, para exibi-las a troco de alegria, boa disposição e pura tradição.

Os festejos carnavalescos remontam à época medieval. Esta celebração, que tem lugar entre o bom tempo da primavera e a escuridão do inverno, pretendia expulsar os demónios que o homem foi criando e acumulando durante o frio invernoso. Era necessário, a toque de música, exaltação e festa rija, expelir as trevas e preparar as comunidades para as colheitas e abundâncias da primavera.

2-carnavalFotografia de António Araújo

Desde os desfiles brasileiros ao som do samba até aos caretos de trás-os-montes,  o Carnaval é celebrado em inúmeras comunidades ao longo do planeta, com maior ou menor exuberância, sentido religioso ou festivo.

Esta manifestação cultural também tem lugar no arquipélago dos Açores, com principal destaque para a Terceira. Apesar de acontecer nos limitados quatrocentos quilómetros quadrados da ínsula, é largamente reconhecido como a maior manifestação de teatro popular de língua portuguesa em todo o mundo. O impacto do Carnaval na comunidade é tão alargado que o Governo Regional permite a realização de tolerâncias de ponto enaltecendo “a participação voluntariosa de milhares de cidadãos nas suas mais variadas vertentes: dramatúrgica, performativa, musical e logística”.

“(…) é um fenómeno cultural com um conjunto de características que o torna único. É um fenómeno que, uma vez por ano, durante quatro dias e quatro noites, transforma a nossa ilha numa plateia de trinta e cinco ou quarenta mil pessoas que naqueles dias comem e dormem à pressa para poderem assistir ao maior número possível de danças e bailinhos.”
por Hélio Costa

A alegria e amizade cozinhada e manifestada no carnaval terceirense atrai sucessivamente a participação de muitas pessoas. Popularmente reconhecido como o “bichinho”, o carnaval agarra emotivamente todos os seus participantes e admiradores.

No trabalho preparado pelos vários grupos, contam-se histórias do dia-a-dia saturadas de crítica social. O Carnaval terceirense, mais do que uma oportunidade, é um manifestação clara da opinião pública sobre os mais variados assuntos: política, sociedade, desporto, saúde, educação, etc. Tudo isto, cuidadosamente tecido em rimas e personagens tão bem trabalhadas quanto a experiência e o “jeito” (i.e. talento) permitir.

“(…) o Carnaval da Terceira é uma Mesa posta a toda a gente, incluindo quem nos visita. Onde todos podem saborear de forma gratuita, muita Harmonia, Amizade, Alegria, Criatividade, Música, Poesia e Fulgores. O Carnaval da Ilha Terceira é um Vulcão Cultural como no Mundo não há igual.”
por Hélio Costa

José Nelson Coderniz, numa crónica divulgada em fevereiro no Diário Insular, descreve de forma inteligentemente prática e sucinta o surgimento desde género teatral.

Foi a burguesia italiana do séc. XVII que começou por construir os primeiros teatros públicos. Com o objetivo de ter acesso à ópera (género que antes estava exclusivamente disponível para a nobreza), esta camada social apresentava temas sobretudo de teor mitológico que gradualmente, até ao séc. XIX, foram substituídos por temas do quotidiano. Este tipo de teatro era exibido em quatro momentos do ano, alcançando o seu expoente máximo no Carnaval (época em que as pessoas tinham maior propensão para o convívio noturno em lugares quentes e iluminados).

“Segundo uma perspetiva inglesa, podemos caracterizar os géneros artísticos, do Carnaval terceirense, quase como semi-óperas.”
Por José Nelson Coderniz

Na Terceira, e até aos anos 70 de novecentos, existiam apenas as Danças de Pandeiro (também conhecidas pelas Danças da Noite) e a Dança de Espada (ou Danças de Dia). A partir de 1980, os espaços de exibição sofreram alterações e os conceitos tratados nas danças alteraram-se.

“A Dança de Pandeiro definia-se, essencialmente, pela existência de duas alas de dançarinos, com cerca de 6 elementos por ala, uma composta por músicos e a outra pelos atores, sendo a figura central, o mestre, que além de cantar, devia usar mestria no manuseio do pandeiro. (…) Existia também, uma personagem típica, o ratão, que tinha a função de contraponto jocoso no contexto teatral. Por regra, este género performativo, cómico, só atuava de noite (…) em casas ou espaços particulares, normalmente dos participantes, e só assistia quem fosse convidado.”
Por José Nelson Coderniz

“A Dança de Espada caracterizava-se pela temática dramática, com assuntos históricos/religiosos que foram sendo gradualmente trocados por outros associados ao quotidiano. Composta por duas alas de dançarinos, a ação era dirigida por um mestre munido de uma espada. Atuava de dia, (…) tinha como espaços de atuação os terreiros e as zonas em frente às casas dos principais intervenientes.”
Por José Nelson Coderniz

Dadas as limitações de locomoção da época, os grupos apenas exibiam as suas peças na sua freguesias e nas vizinhas. Normalmente, só participavam homens e era comum estes vestirem-se de mulher para interpretar algum papel.

Com a construção de salões (i.e. pequenos teatros) pelas freguesias (e consequente melhoria das condições de visualização e audição), assim como o avanço nos meios de transportes, os grupos deixaram os pátios e ruas e começaram a atuar por toda a ilha.

Sendo uma manifestação totalmente organizada pelo povo e um organismo vivo que retrata a sua identidade, o Carnaval têm sofrido alterações mais ou menos naturais ao longo dos últimos 35 aos.

“Com a emancipação da mulher no Carnaval terceirense; a criação de escolas de ensino de guitarra/acordeão/bandolim e uma vontade generalizada dos músicos das bandas filarmónicas em participar no Carnaval,o número de grupos aumentou, havendo ainda uma transposição dos parâmetros que definiam tais géneros: o número de músicos ultrapassou os antigos cânones, obrigando a deslocação dos atores para fora das alas e surgiu outro género cómico, o Bailinho.”
Por José Nelson Coderniz

Contudo, nos últimos anos, e numa prespetiva pessoal, apesar do número de danças e bailinhos terem aumentado, o mesmo não tem acontecido com a qualidade. Cada vez mais, a vontade de participar na manifestação se sobrepõe à qualidade performativa. Tem havido uma tendência para a perda da rima e da história consistente. Aparentemente, os grupos têm-se protegido da falta de talento na concepção de histórias e músicas, recorrendo às “piadas da internet” e “arranjos do grupo” (baseados na adaptação de canções existentes). Não deixo de ficar frustrado, quando vejo que uma dança distorce o rumo da sua narrativa apenas para “colar à força” uma anedota com graça, mas descontextualizada. Tenho pena que muitos grupos estejam a seguir este rumo pois, no mínimo, retrata falta de genuinidade. Será que este é o preço do progresso?

 

Esta coisa das tempestades

As tempestades, à semelhança dos vulcões e terramotos, fazem parte do dia-a-dia açoriano. Mais ou menos chuvosas, mais ou menos ventosas, mais ou menos agitadas, as tempestades são algo normal na vivência de quem vive nestas ilhas. A ocorrência frequente deste tipo de fenómenos meteorológicos, faz com que os ilhéus olhem com naturalidade para a coisa. Aliás, verdadeiramente surpreendente, é quando o final do verão, outono ou inverno não nos trazem uns alertas amarelos, laranjas ou até mesmo vermelhos.

ng5670106Fotografia “Neptuno”, por José Henrique Azevedo

Ora, recentemente, uma tempestade/furação passou pelos Açores. Além de ter acontecido nesta altura, em pleno mês de janeiro (normalmente, este tipo de fenómenos tem lugar no final do verão e início do outono), não detém mais nada de especial. Diga-se, assim, que é apenas mais uma, só que veio mais cedo ou tarde, conforme a perspetiva. Apelidado de Alex, este furação recebeu uma cobertura mediática gigante por parte da comunicação social. Desde reportagens em directo de hora a hora, até notícias de abertura dos telejornais, o furacão e os preparos para o enfrentar estiveram no centro das atenções durante alguns dias. A calamidade que estes meios de comunicação antecipavam, justificou a emissão de alertas vermelhos, encerramento de escolas e serviços públicos.

Engracei sobretudo com as entrevistas à chuva, a partir da ilha de São Miguel, e com o típico discurso sensacionalista e repetitivo de quem não sabe bem onde está e o que está a fazer. Entremeado com as já habituais calinadas geográficas, o sensacionalismo desenfreado reproduzido pelos jornalistas/repórteres parecia descrever o fim do mundo nos Açores.

É claro que mais vale prevenir do que remediar, mas ninguém conhece melhor as tempestades dos Açores do que os açorianos. “Graças a Deus”, o Alex foi simpático e não fez mais do que deitar uma ou outra árvore abaixo. Aliás, neste mesmo inverno, já tiveram lugar várias tempestades que fizeram muitos mais estragos.

“O Alex passou sem sopro maior, o próximo do abecedário também passará sem deixar marcas, e mesmo que as deixe, o açorianismo – que parece ser algo semelhante a resiliência, – saberá impor-se para manter o equilíbrio de quem sabe viver no meio do mar, com o mundo à sua volta.”
por Rui Caria

Recorde-se que até à atualidade, o arquipélago recebeu inúmeras tempestades, algumas de grande intensidade, e que provocaram imensos estragos pessoais e materiais. Destas, pouco se ouviu falar na comunicação social do continente – às vezes apenas se viam umas pecinhas  de alguns segundos. Será que com as low cost e a elevada notoriedade turística, passámos a valer o custo-benefício de transmitir notícias a partir do arquipélago?

“O jornalismo cria as suas próprias realidades. O real noticioso prevalece. A comunicação social não se limita a dar as notícias – em caso de não existência, simplesmente inventa-as. Os media conseguem ser mais tempestuosos do que o próprio furacão. A notícia é para render até ao tutano. O conceito da desgraça prevalece – quanto pior, melhor.”
por João Rocha

Com melhor ou pior cobertura mediática, como sempre, os açorianos estavam prontos para o que desse e viesse, não fossemos nós as gentes que habitam estas ilhas de basalto salgado pelo mar, esculpido pelo vento e esverdeado pela chuva.

A morte da alma ilhéu

A ilha Terceira (e a cidade de Angra do Heroísmo, consequentemente) necessita de se distinguir das restantes ilhas e centros urbanos regionais, no que diz respeito à oferta turística que dispõe. Num post anterior, já tinha defendido que, se há algo que distingue a ilha de Jesus Cristo das restantes, é a sua cultura e história ricas e únicas, no contexto regional, nacional e mesmo internacional.

Se olharmos para o turismo como uma fonte de rendimento, também devemos olhá-lo como uma forma de desenvolvimento (sim, desenvolvimento e rendimento são tópicos bem distintos). Neste sentido, e tendo em conta o que foi descrito no primeiro parágrafo, é expectável e desejável que a ilha Terceira tire partido da sua história e cultura para gerar rendimento e desenvolvimento.

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Touch by André Fagundes

É fácil, do ponto de vista material, usufruir da nossa história para tirar proveito do turismo. Por um lado (em linhas gerais), basta identificar, valorizar e preservar o património natural e edificado; e, por outro, estudar o que foi (e ainda é) escrito sobre a Terceira – felizmente, a nossa ilha conta com um vasto acervo de documentos de grande qualidade sobre a sua história. Neste sentido,usufruir do património para gerar rendimento na área do turismo é algo relativamente fácil (pelo menos do ponto de vista das empresas de animação turística). Contudo, não nos esqueçamos de apostar continuamente no desenvolvimento, quer da história per si, quer nos métodos de a transmitir.

Azorean green fields. by Rui Caria on 500px.com
Azorean green fields by Rui Caria

Se nalguns aspectos, a história e cultura terceirenses devem ser vistas como um todo, fico reticente no que toca às formas de usufruto destas para gerar rendimento. De vez em quando, aparece um grupo de folclore aqui ou ali a atuar, ora porque atracou um cruzeiro no porto, ora porque há um charter qualquer que chegou ao Aeródromo das Lajes. Se perguntarem por aí, vão perceber que existem muitas pessoas locais que não ligam a este tipo de intervenções. Naturalmente, refuta-se a ideia defendendo que estas atividades estão direcionadas para os turistas e não para os ilhéus – ao que tudo indica, o objetivo é mesmo demonstrar aos visitantes o que por aqui se pratica. Contudo, se pensarmos bem, a genuinidade destes actos é praticamente nula. Repare-se que as atuações dos grupos de folclore acontecem sobretudo nas festas de freguesia durante o verão, onde a comunidade local se reúne em torno do palco improvisado e da iluminação escassa; onde a tasca se enche de gente bem disposta e o padre da freguesia conta uma anedota tão picante quanto a do lavrador. Neste sentido, a atuação de um grupo folclore por si só não vale grande coisa. Esta manifestação cultural faz parte de um contexto (i.e. têm um tempo e espaço específicos) que a torna realmente nossa, autêntica e  verdadeiramente terceirense. Do mesmo modo que devemos promover uma História de qualidade aos nossos turistas, devemos também demonstrar/partilhar uma cultura autêntica – porque esta é viva e faz parte do presente e diferencia-se da história por não estar retida no passado. Já que temos cultura verdadeira, não demonstremos versões “turísticas” em tardes ventosas de outono numa rua citadina, onde ninguém se conhece.

Infelizmente, muitas discussões se resumem a dinheiro e, neste caso, à viabilidade da cultura terceirense enquanto geradora de receita. Haverá quem defenda que mais vale realizar umas 15 ou 20 versões “turísticas” da nossa cultura para gerar rendimento ao longo dos 365 dias do ano, do que aguardar pelo Carnaval, por exemplo, que acontece em 3 ou 4 apenas, para “vender” cultura autêntica.

E é exactamente aqui que surge uma questão perigosa: se aparentemente não é possível tirar partido da cultura terceirense para gerar rendimento no turismo, será este ramo verdadeiramente apropriado para o desenvolvimento da ilha?

Assim fica a descoberto o meu maior receio: tenho medo que a pressão para gerar rendimento através do turismo esmague a nossa cultura, património (natural e edificado), identidade e valores. Sejamos prudentes, não deixemos que a ganância e o dinheiro fácil nos transformem em gente sem alma.

Angra: cultura natural ou natureza cultural?

Acompanhando a tendência actual para apostar na promoção turística do arquipélago açoriano, solicitaram-me que desenhasse um banner publicitário para a cidade de Angra do Heroísmo. Dado o espaço reduzido para trabalhar, tive de me centrar no básico, definindo Angra da forma mais sucinta e atractiva possível. Esta conjuntura levou-me naturalmente a recorrer ao uso de algumas imagens e uma tagline.

Foi fácil seleccionar fotografias de Angra, bastou recorrer aos clássicos: a vista sobre a cidade a partir do Alto da Memória, uma vista mais abrangente que demonstrasse a posição da cidade entre o mar e o verde dos campos (a Serra da Nasce-Água é excepcional para este efeito) e uma foto do casario colorido da cidade.

Ora, bem mais complexo, foi criar uma tagline que resumisse Angra. Necessariamente, tinha de se tratar de uma frase que a diferencia-se no mercado dos destinos turísticos quer internacionais, quer regionais. Contudo, não poderia criar especulativas para um lugar que nada tem a ver com Angra.

Mais que a materialidade das coisas Angra precisa de novas formas de ser olhada, com carinho e com respeito pelo enorme valor que é.
Angra tem a enorme vantagem de dispor de duas janelas escancaradas: a materialidade e a imaterialidade, conjugadas no seu recurso cultural colectivo, que é património comum da humanidade.”
Por Francisco Maduro-Dias

A Direção Regional da Cultura (DRC) está a desenvolver um Plano de Gestão para a Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, i.e. um ponto de chegada e, simultaneamente, de partida para aquilo que poderá ser um futuro promissor e sustentável para a cidade Património Mundial. Paralelamente ao desenvolvimento deste documento, a DRC tem promovido uma série de conferências divididas em três temas, nomeadamente, “História e Herança”, “Tecnologia, Valorização e Desenvolvimento” e “Cidade Vivida”. Cada capítulo conta com quatro palestrantes (ao todo são doze) de áreas variadas e de interesse para o assunto em questão. Numa das discussões, referiu-se algo basilar sobre Angra: a cidade, tal como a conhecemos hoje, é fruto de gente com uma cultura (do sul da Europa, nomeadamente) que usufruiu da natureza (uma estrutura natural que protegia os navios das adversidades – i.e. uma angra – e uma ribeira capaz de sustentar a vida naquele vale – Ribeira dos Moinhos) e que, consequentemente, gerou uma civilização cultural.

A isto, soma-se a “sorte” de Angra estar no sítio certo para acolher os navios que atravessaram os mares em rotas marítimas que davam, literalmente, a volta ao mundo.

“A cidade de Angra do Heroísmo, Património Mundial da Humanidade, assumiu, desde os primeiros anos da sua história um papel predominante. Inicialmente, reconhecida como um ponto geoestratégico no meio do Atlântico Norte, posteriormente, como um interposto logístico de navegação, a sua posição foi, e é ainda, consensual, no que concerne à ligação entre os vários continentes. “Intensamente portuguesa e, todavia portuguesa de além-mar, Angra deve ver-se com os olhos de quem vê projeção ibérica fora da Península”
Elevação de Angra a Património da Humanidade, O Processo

Fomos procurados e valorizados no passado devido [sobretudo] à nossa posição estratégica no Atlântico e pela hipótese de reabastecer navios nas rotas comerciais. Por aqui passaram muitas pessoas, culturas e formas de pensar. O título de Património Mundial (pelo critério 4º e 6º) atribuído pela UNESCO, é um selo que garante que nós, ainda hoje, muito mais do que um símbolo, somos uma prova viva e bem preservada desse movimento no Atlântico.

Angra do Heroísmo - Ilha Terceira - Azores  - Cais da Alfândega
by Marco Monteiro

Por isto tudo e muitas outras coisas, decidi que a tagline deveria ser: Angra do Heroísmo, Capital Cultural do Atlântico | Património Mundial. Soberba ou arrogante, esta frase resume a mais pura das verdades. Saibamos, pois, ostentar com gozo a pojança que este título exige. Não nos desviemos da verdade, não inventemos aquilo que não somos, pois somos isto e saibamos tirar partido disto mesmo.