Turistas? São como as vacas das ilhas!

Pronto. Já me rendi ao facto de que o turismo veio para ficar. Agora vou [tentar] convencer-me de que esta indústria é melhor do que a que vingava anteriormente (i.e. a «lavoura»).

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by Rui Caria

Num claro ensaio de automutilação intelectual, vou comparar o impacto dos turistas e das vacas na vivência açoriana, argumentando que os bovinos estão claramente em desvantagem.

É tão desagradável olhar para um lindo pasto verde e depararmo-nos com a serenidade de umas manchas brancas e pretas – algo completamente desenquadrado do ponto de vista estético. Não há nada melhor do que ver os turistas desnorteados em vestes pseudodesportivas, foleiras e altamente coloridas, que se confundem com as barras das casas de Angra.

Importa mencionar que o impacto sonoro produzido por estes é comparativamente menor, pois um badalo de uma vaca é bem mais ruidoso do que a câmara fotográfica que os forasteiros penduram no pescoço.

Esta nova indústria também beneficia praticamente os mesmos sectores que a primeira, só que no espectro oposto. Por exemplo, na medicina, se antes recorríamos aos médicos veterinários para cuidar das vacas, agora recorremos aos médicos para tratar de turistas que levaram marradas numa tourada ou que interagiram com uma água-viva. Também no sector alimentar, existem semelhanças: antes importávamos rações, agora importamos congelados.

É impossível não mencionar as melhorias no trânsito. Se antes tínhamos gado a circular aleatoriamente pelas estradas da ilha, agora temos turistas em carros alugados. A diferença não reside no estorvo, lentidão, imprevisibilidade e óbvio perigo, mas no facto de que os forasteiros, pelo menos, usam pisca-pisca.

Enfim, muitos outros exemplos poderiam ser alvo de reflexão, mas julgo que já estou convencido. Ao fim e ao cabo, os turistas são como as vacas das ilhas, não são?

A criação do bicho papão açoriano

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Ponta Delgada by João Moniz 

Estive presente na BTL 2017, onde o arquipélago dos Açores estive representado como uma região a visitar.

Se é verdade que a criação da Marca Açores veio impulsionar as ilhas enquanto destino turístico, utilizando esta aposta como um motor para a economia, tornam-se cada vez mais visível que esta desrespeita a singularidade das ilhas. Ou seja, projetar o arquipélago como um todo é negar a individualidade de cada ínsula. No fundo, a Marca transmite uma falsa realidade.

Além disto, o egoísmo micaelense, que continua a julgar-se um espelho de todo o arquipélago, faz com que as outras ilhas fiquem à sombra, sem brilho e vítimas de mitos. Passo a um exemplo prático: numa conversa informal, dois continentais demonstraram-se bastante interessados em visitar os Açores, contudo apenas podiam fazê-lo em maio. Devido ao facto de, em São Miguel, decorrerem as festas de Santo Cristo dos Milagres, eles tinham a informação de que os preços praticados no arquipélago eram mais elevados e, por isso, não iriam realizar a viagem. Blasfémia! Tendo em conta que nas outras oito ilhas a vida decorre com normalidade.

Este exemplo revela que a Marca Açores cometeu um erro estratégico grave que negligencia todas as ilhas e compromete a sua própria visão: “vender” o destino Açores como um todo é negar a insularidade que é responsável pelas nossas vivências únicas, ricas e bem preservadas.

Perante este cenário, só imagino duas soluções: ou as ilhas começam a atuar por conta própria (como é o caso das Ilhas do Triângulo) ou, no futuro, iremos tornarmo-nos numa mixórdia de coisas sem alma alguma.

É tempo de refletir e perceber o que realmente interessa e faz sentido.

O segredo açoriano para a longevidade das tradições

A insularidade açoriana é inúmeras vezes apontada como um dos principais motivos pelos quais a nossa cultura tem muitos traços distintivos. Contudo, julgo que há um outro fator determinante: o envolvimento ativo das gerações mais novas nas tradições.

É recorrente que um determinado costume de uma comunidade conte com a participação de indivíduos que encarnam papéis distintos – por exemplo: um padre, um fogueteiro, etc. Quanto mais abrangente for uma determinada manifestação cultural (i.e. quanto mais pessoas estiverem envolvidas), maior a hipótese das crianças, adolescentes e jovens adultos dessa determinada comunidade estarem presentes. No caso açoriano, além destas faixas etárias assistirem, são envolvidas ativamente nas manifestações culturais, encarnando também papéis [muitas vezes] distintos.

«Com pombas aos quatro cantos
E no meio uma mais forte,
Serves de lenço nos prantos
E de sudário na morte.»
Vitorino Nemésio

Apesar da ilha Terceira ser rica em exemplos deste envolvimento, julgo que a tradição que melhor o ilustra é a coroação do Divino Espírito Santo.

Resumidamente, as coroações são uma espécie de procissão em dois atos: o primeiro constituí-se na concentração de pessoas num determinado ponto de encontro, que se organiza num desfile rumo à igreja onde, depois de uma missa e coroação (no sentido literal da palavra), começa o segundo ato no qual a comunidade (com cada um dos indivíduos bem cientes do seu papel) enverga bandeiras, coroas e varas, dirigindo-se até ao Império (pequena ermida do Divino Espírito Santo).

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Espírito Santo, por António Araújo

Apesar do número geralmente elevado de participantes, todos conhecem o seu lugar. Ora vejamos:

a) As crianças de muito tenra idade (aquelas que começaram a andar à pouco tempo) são recrutadas para serem coroadas (i.e. ostentarem uma coroa de prata sob a cabeça).

b) As crianças mais crescidas, aquelas que andam pela primária, seguram, aos pares, a coroa de quem está a ser coroado.

c) Intercalados com as coroas, vão os adolescentes masculinos (embora, hoje, já se tolerem meninas) que levam as bandeiras do Divino Espírito Santo ao ombro (desde que a sua robustez física o permita), acompanhados por uma rapariga, também adolescente, em cada lado. Este padrão coroa/bandeira repete-se quantas coroas houverem disponíveis.

d) Os jovens adultos (candidatos à mordomia dos Impérios), levam as coroas (ou pratos destas, conforme o ato) no final da coroação, antes da filarmónica.

e) Todos os restantes elementos da comunidade, desde que a saúde o permita, acompanham o aparato em duas alas, uma de cada lado, junto às bermas da estrada.

f) Se a idade avançada ou a saúde não permitem que alguns dos membros da comunidade participem na coroação, estes assistem à mesma debruçados nas janelas abertas, enfeitadas com as melhores mantas de retalhos ou colchas que a casa tem.

Apesar destes papéis se alterem ligeiramente de freguesia para freguesia e de geração para geração, julgo que é um exemplo extraordinário do que foi exposto anteriormente.

es2012_363388.jpgEspírito Santo, por António Araújo

Muito mais do que assistir, julgo que é o envolvimento ativo das gerações mais novas que levam a que as tradições permaneçam nas comunidades. É este fator que justifica argumentos como «isto é assim desde que me lembro».

Além de permitir a manutenção de vivências, o envolvimento juvenil ativo permite que as tradições sejam otimizadas e modernizadas permanentemente, contribuindo para a sua longevidade, mesmo que, às vezes, estes ajustes não correspondam a uma melhoria efetiva das tradições.

«As festas do Espírito Santo, comuns a todas as ilhas açorianas, têm nesta ilha Terceira um esplendor mais alto e, com as touradas à corda, que são diversão exclusiva, constituem valioso repositório de todas as manifestações folclóricas do nosso povo, as únicas que não se têm abastardado pela introdução de modernismos, a que a aproximação de povos com outros costumes e diferente educação, não podem ser estranhos.»
Ata da 2ª sessão ordinária de 1960 no Boletim do IHIT

Ao refletir continuamente sobre a insularidade açoriana, percebi que a pequenez das ilhas são a sua maior riqueza, e que o mar, que as isola do resto do mundo, o seu melhor guardião. Claro, não poderemos viver infinitamente enclausurados do cosmos, mas a discussão sobre o limbo que diferencia a nossa cultura de outras deve ser constantemente vigiado, pelos menos para garantir que permaneceremos com a alma, dita, açoriana.

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Handmade blankets by Jorge Borges

O verão açoriano é feito de tudo um pouco…

O verão açoriano tem um tanto de belo, religioso, profano, exagero, simplicidade, encanto e estranheza.

Antes do calor chegar, já o estalar de cascos bovinos no asfalto e de foguetes no ar anunciam aquilo que é o verão na ilha Terceira. A cerveja na mão, o riso no rosto e o olho a fitar o toiro para evitar um “Ai ai ai!” em sobressalto conjunto, definem a maioria das tardes terceirenses. Aos mais corajosos, está entregue a tarefa de manusear a capa encarnada para desassossegar a bravura dos toiros.

O verão açoriano ajuda a limpar o pó ao Santo António, a São João, às Nossas Senhoras da Conceição, da Ajuda, da Agonia, da Penha de França, dos Milagres, da Boa Viagem… Enfim, a todos aqueles e aquelas que vão em procissão dar uma volta às suas freguesias, servindo de mote para as festinhas e grandiosas festas dos lugarinhos e terreiros das freguesias desta ilha.

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Bravery por André Fagundes

O verão açoriano faz as cidades encherem-se de festa própria com luzes, desfiles e concertos que atraem residentes, emigrantes e forasteiros. Ao som da cantiga ao improviso, do fado, do pimba ou de um qualquer DJ, amores tornam-se em dissabores e namoricos em coisas sérias.

As noites de verão terceirenses são passadas num terreiro, de uma qualquer freguesia, iluminada e com um palco, ao qual sobem as bandas do costume, salve um ou outro artista do continente que as comissões mais arrojadas conseguiram pagar.

Ao sabor de tremoço, cerveja ou sangria (conforme o gosto de cada um), democratizam-se conversas animadas, ora sobre os problemas do dia-a-dia, ora sobre mexericos. Num ambiente de festa, fala-se de futebol, política, sociedade e de tudo o resto.

Mas existem pessoas que preferem ir só até à cidade mais próxima, teoricamente para tomar café com os amigos, quando, na verdade, acabam todos por beber cerveja na esplanada do costume. De quando em vez, também são surpreendidos com a atuação de uma qualquer banda constituída por amigos que às vezes vão para as esplanadas e outras vezes para os terreiros.

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Launching Site por Eduardo Marques

O verão açoriano é feito de churrascos no mato, à sombra de grandes árvores que acalmam o calor e que dão lugar às grandes jogadas de cartas, dominó e marralhinha. É a calmaria das criptomérias que dá o mote às canções de quem levou um violão e inspira os temperos de quem vira o frango sobre a brasa.

Enquanto o milho cresce nos cerrados, pescadores e outros entusiastas armam-se em punho com a pequena navalha com que apanham as lapas, cracas e caracóis, saboreados em todos os cantos e recantos da ilha.

Mais certo do que o pão do bodo, é banhar-se no mar em dias de sol, não vá o tempo virar no dia seguinte. É queimar a pele para ficar moreno e apanhar uma “vardascada” de água-viva. Ah! E depois colocar vinagre ou xixi em cima para aliviar a dor (embora sejam remédios cuja eficácia ainda deixe alguns turistas reticentes).

Existem também aqueles que, no verão, dão um salto a outra ilha para fazer estas mesmas coisas, mas ao som de um outro sotaque.

E lá para os fins de agosto e os inícios de setembro, aparece um ou outro furação, tempestade tropical ou chuva intensa que tentam anunciar o fim do verão, embora seja o dia 15 de outubro, já num outono maduro, que se fecha definitivamente. Os Açores devem ser dos poucos sítios do mundo onde a primavera e o outono se fundem no verão e este tem data de início e de fim, independentemente das circunstâncias.

Há quem pense que o verão açoriano é palco de convívio, harmonia e festa porque o resto do ano é demasiado chuvoso, ventoso, friorento ou desajeitado para tudo isto. Nestes pedacinhos de basalto salgado pelo mar, assombrados por vulcões, terramotos e tempestades, percebemos, faz muito tempo, que o melhor que temos é o convívio uns com os outros. Por isso, é bom vivenciar todas estas coisas (e outras tantas que não foram aqui mencionadas) enquanto a severidade da natureza está de férias.

Angra está diferente… Ou igual?

Hoje estive no meu café favorito por um bom bocado. Decidi ir até à cidade angrense para, a toque de doces maravilhosos, colocar o trabalho em dia.

Durante a tarde ouvi portugueses (continentais), espanhóis, americanos e até alemães. Atrevo-me a dizer que por lá passaram mais estrangeiros do que locais. É, inquestionavelmente, resultado das novas políticas aplicadas ao turismo nos Açores e, sem dúvida, um fruto dos voos charter que têm cumprimentado a ilha semanalmente.

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Azores Golden Hour by Eduardo Marques

Angra é uma cidade diferente daquela que existia a apenas alguns meses. Está ligeiramente mais movimentada, sobretudo por turistas. Está a ganhar uma vida diferente daquela que tinha. Resta questionar: ainda é a Angra que conhecemos?

Sendo romântico (e tão patético quanto qualquer apaixonado), gosto de pensar que esta “nova” identidade de Angra, não é assim tão nova. Se conhecermos um pouco da sua história, sabemos que esta cidade foi ponto de passagem e de paragem de muitas pessoas, ideias e culturas. Aliás, estas mesmas gentes fizeram parte da forja que nos tornou únicos.

Será que a atual vida de Angra (visitada por indivíduos de outras partes) não é mais do que um regresso ao passado e à vivência que agitou esta cidade durante séculos? Talvez estejamos a reavivar a Angra astuta, arisca, bela e irreverente que já existiu.

Talvez esteja a iludir-me, mas gosto de pensar assim.

Rememos todos para o mesmo lado

Nos últimos meses, os Açores têm elevado a sua notoriedade no mundo. Os esforços recentes na promoção turística da região, têm levado a que estas ínsulas andem nas bocas do mundo. Elogiadas pelo contato com a natureza pura e por atividades de animação turísticas sustentáveis, o arquipélago tem se afirmado como um local de visita obrigatória para os amantes de manchas verdes.

Com um buzz tão alargado, é natural que cada vez mais pessoas venham à região. Contudo, devido à sua dispersão, [ainda] condicionada mobilidade inter-ilhas, diferentes níveis de desenvolvimento e diversificadas realidades, cada ilha tem feito o seu melhor para se distinguir das restantes a fim de se tornar numa paragem obrigatória.

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Sete Cidades by João Moniz

A estratégia promocional adotada tem “vendido” um arquipélago “certificado pela natureza” – é este o mote da marca Açores. Indiscutivelmente, é de todo o interesse que se venda o conjunto como um todo (mesmo que contenha nove ilhas dispersas ao longo de 600km). As paisagens de São Miguel e do Triângulo (i.e. São Jorge, Pico e Faial) assentam como uma luva nesta tagline. Contudo, outras ilhas, por mais que tentem, dificilmente vingaram neste sector. Umas delas é a Terceira.

Calma! Todos sabemos que a ilha de Jesus Cristo tem paisagens bonitas: Caldeira Guilherme Moniz, Serra do Cume, Serra de Santa Bárbara, etc. Contudo, do ponto de vista de um turista, estão muito aquém da Lagoa das Sete Cidades, da Paisagem Protegida da Vinha do Pico, das Fajãs de São Jorge ou mesmo do Vulcão dos Capelinhos – verdade seja dita. Nesta perspetiva, ao definir-mo-nos como um destino de natureza no mercado açoriano, seria um convite aberto ao título da ilha “naturalmente menos bonita”. Isto não significa que devemos deixar de ter atividades de animação turística relacionadas com a natureza – não é isto que se defende neste post. Pelo contrário, temos sido elogiados por termos experiências naturais mais “selvagens” (i.e. naturais) do que outras ilhas, mas isto não determina que temos necessariamente as paisagens mais bonitas nem que os turistas apenas procuram tal. Descrito este ponto, entende-se que a Terceira tem de se diferenciar daquilo que há, ou seja, deve “oferecer” algo que as outras ilhas não têm. E se pensarmos numa perspectiva histórica e cultural, temos muito mais que elas todas juntas, literalmente. Ser capital de Portugal duas vezes, ser sede da Diocese Açoriana, ter acolhido a Capitania Geral do Açores, ter sido porto de abrigo de naus e caravelas de todo o mundo, ser berço do Liberalismo, ter Bailinhos de Carnaval, Touradas à Corda, entre outros, não são “coisas” que outras ilhas possam contar sobre os seus 500 anos de história. E é aqui que a Terceira tem de se centrar. Esta deve ser a marca a ostentar pela ilha.

Perceber como nos devemos diferenciar no mercado regional é apenas o primeiro passo. Trabalhar cultura tem contornos bem mais complexos do que tratar natureza. Enquanto que esta está à vista e pode ser rapidamente explicada, uma compreensão total da cultura e da história dependem da interpretação de dados ou vestígios do passado que estão, mais ou menos, bem preservados e presentes na atualidade. Se a Terceira aceitar a posição que defendi acima, a batalha seguinte será materializar/traduzir em produtos turísticos essa mesma cultura e história, para que os visitantes da ilha possam, de facto, entendê-la como um local de cultura e história.

Esta etapa exige um enorme esforço e coordenação de todas as entidades envolvidas neste assunto (desde as instituições públicas, passando pelas empresas do sector e associações governamentais, até à população em geral) para que seja possível, finalmente, tirar partido do turismo na ilha. Posto isto, segue-se a questão desconfortável: quem é que deve estar na dianteira desta coordenação? Ou seja, quem é que tem (ou devia ter) a competência legalmente atribuída para estar “nos galhos do toiro”?

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Photo by Rui Caria

Esta pergunta não pretende desvalorizar ou desencorajar os esforços que têm sido feitos (e têm sido muitos), mas sim apelar a que todas as pessoas e instituições se unem para que “rememos todos para o mesmo lado”. Esta tem sido a maior lição de todas as adversidades naturais, políticas e sociais que têm atingido a nossa ilha, e que caracteriza tão bem a nossa identidade – saibamos, pois, pensar e atuar em conjunto para que voltemos a ser “a capital do coração do atlântico”.

Progresso inconsciente é retrocesso progressivo

Vivemos numa época incrível. Hoje, conseguimos fixar tudo aquilo que capta o nosso interesse: lugares, experiências, pessoas… Enfim. Tudo pode ser facilmente fotografado, gravado e filmado através de um único dispositivo de bolso. Além disto, é possível partilhar o que se viu, sentiu ou pensou com pessoas que estão do outro lado do mundo.

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Inaccessible Universe by André Farinha

O tempo, a experimentação e a melhoria continua levam inevitavelmente ao progresso. Este, que muitas vezes envergonha as formas de pensar, técnicas e ferramentas que o precederam, faz-nos esquecer propositadamente do passado. Demasiadas vezes, em nome do “moderno”, “avançado” e “atual” desvalorizamos o que esteve na sua origem.

Desde a sua origem que os equipamentos (multi)média se distinguiram pela possibilidade de fixar no tempo aquilo que antes era efémero. Depois do seu aparecimento, uma narração, uma música, um pensamento ou um qualquer aparato em movimento poderia ser repetidamente apreciado. Talvez, sem uma noção explícita, começou a ser possível fixar aquilo que fazia parte das vivências de uma outra forma.

Geralmente dispendiosos e de difícil manuseamento, as máquinas fotográficas, gravadores e máquinas de filmar estavam quase exclusivamente destinados às classes mais abastadas. Com o tempo, os equipamentos ganharam relevância, foram continuamente aperfeiçoados e tornaram-se cada vez mais acessíveis.

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Hoje, a evolução acelerada dos equipamentos digitais e a sede por uma internet cada vez mais omnipresente, levam a que a fronteira entre a realidade e a virtualidade seja cada vez mais ténue. Não nos devemos esquecer do passado ou deixar que as suas marcas desapareçam em nome do progresso. Com os equipamentos de que dispomos atualmente, é imperdoável que, pelo menos, não gravemos ou filmemos as manifestações identitárias que nos rodeiam. O progresso nunca deverá ser um motivo para se esquecer uma qualquer manifestação popular. Pelo contrário, o progresso deve acatar a responsabilidade de não deixar o passado cair no esquecimento.