Segunda à sexta, em Angra.

O relógio da igreja da Sé desperta a sonolência dos angrenses que, pelas oito e meia da manhã, já voam pelas ruas da cidade a pé, de carro ou nos minibuses em direção aos seus trabalhos. Num passo menos acelerado, vagueiam algumas velhas arrematadas que já se despacharam dos seus compromissos e agora fazem tempo para apanhar a próxima carreira. A esta hora, quem está parado na rua só pode ser louco.

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by Tiago Ormonde

Angra está a todo o gás às dez horas. O empregado de balcão já serviu nove cafés. A comerciante já atendeu oito clientes. O fiscal dos parquímetros já passou sete multas. O desempregado já deixou o currículo em seis empresas. O estafeta já entregou cinco encomendas. O contabilista já tratou das contas de quatro clientes. O médico já atendeu três pacientes. O reformado já deu dois dedos de conversas. O estudante já se baldou a uma aula.

O meio-dia anuncia a maratona dos funcionários públicos, não porque é hora de almoço mas por que precisam dar umas voltas. Desde ir à farmácia até ver o que há de novo nas lojas de roupa, os 60 minutos dividem-se entre saborear o papo-seco e aguardar na fila de atendimento das Finanças.

O martelo pneumático escondido atrás de uma casa em obras, o taxista mal humorado a apitar e uma ambulância em emergência, são a santíssima trindade das 15 horas na cidade. O júbilo do dia acontece com a chuva ou com o sol que decidiram aparecer.

Duas horas depois terminam as aulas e existem tantos putos a atravessar as ruas quanto adultos no dia inteiro. Entre pais e avós mal estacionados, há quem precise de circular por Angra por questões de trabalho.

Às sete da tarde, só se vêm turistas equipados com meias brancas e camisas arregaladas, divididos entre uma selfie com o Vasco da Gama e um olhar atento ao preço dos pratos apresentados à porta dos restaurantes.

Ao final da noite, não se vê nada nem ninguém na rua. A réstia de vida angrense esconde-se nos cafés, no cinema ou numa palestra sobre qualquer coisa, num qualquer lugar.

Depois a humidade traz frio e Angra adormece. Até amanhã, boa noite.

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by Luís Godinho

O primeiro passo…

A realidade materializou-se em dados estatísticos. Os resultados são ainda piores do que a intuição e percepção previam. A bomba caiu e rebentou com força suficiente para abalar noções, fazer perder o orgulho no trabalho já feito e semear uma nova forma de pensar.

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Angra do Heroismo by Gergely Ernő Endre

É tempo de arregaçar as mangas, investigar, experimentar e construir um futuro que seja propício para nós, nesta nova realidade.

Este é o ponto de partida. Que Deus nos ajude.

E tudo o turismo levará…

Escrevo estas linhas poucos dias depois das low-cost chegarem à Terceira. Entre os benefícios e devaneios que elas trazem (tópicos que já foram tratados neste blogue), hoje gravo, para memória futura, aquilo que foi, ainda é, mas provavelmente deixará de ser alguns aspetos da vivência da ilha Terceira. No fundo, farei uma pequena lista de ocorrências que são próprias da nossa açorianiedade e que, provavelmente, vão perder-se a breve trecho. Recordo que o investimento no turismo foi sobretudo fomentado pelo fim das cotas leiteiras. Registo aqui, aquilo que eu, nascido em meados dos anos noventa, em pleno ciclo da vaca, vi, ouvi e senti como sendo a forma de ser terceirense.

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Green by Rui Caria

Comecemos pelas casas dos lavradores (ou vaqueiros, no calão local) tipicamente grandes e acompanhadas de tratores e cães (das raças Fila de São Miguel, Barbado da Terceira ou Pastor Australiano) que, acorrentados, defendiam os pátios de potenciais intrusos que viessem roubar umas bilhas ou a panóplia de atrelados e máquinas de trabalhar a terra. Recordo também as carrinhas de caixa aberta em madeira, meticulosamente decoradas, que demonstravam a ostentação da lavoura que serviam. O símbolo da casa gravado nas postas, a quantidade e grossura das cordas presas na dianteira e caixa do veículo, assim como a grelha, sempre personalizada e robusta, são alguns dos exemplos da importância dos lavradores. No outono e inverno são particularmente detestáveis, pois transportam silo nauseabundo pelas ruas da ilha.

cows by António Sousa on 500px.comCows by António Sousa

As vacas (felizes, por sinal), tal como as pessoas, vagueiam de um ponto A para um ponto B utilizando as estradas. Num sentido mais concreto, vão de pasto para pasto (ou de  cerrado para cerrado, como se diz por aqui) navegando, em manada, entre os carros que teimam em meter-se no caminho. Nos Açores, um dos requisitos para ser considerado um bom condutor passa por saber como atravessar uma manada de vacas, numa qualquer estrada, sem magoá-las, sem danificar o veículo e sem pisar excrementos bovinos.

Mas é na cidade que mais noto a diferença. Já se vêem poucas velhas vestidas de preto (sinal de viuvez), que vieram no autocarro (urbana ou carreira, como chamamos) para fazer as suas voltas, desde levantar os cheques (quer o grande, quer o pequenino) até comprar umas meias, ir ao mercado, ir ao médico, ou comprar umas lembranças para os netos. Tudo isto intercalado com pausas no meio da rua, quando se cruzam com outra qualquer velha, e aproveitam para fazer um briefing de mexericos ora sobre as suas vidas, ora sobre a vida dos outros. Odiadas por muitos, acredito que vão deixar saudades quando forem (como estão a ser) substituídas por turistas, a falar outras línguas, de mapa na mão e máquina fotográfica ao pescoço.

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Maria João by Rui Caria

Muitas outras coisas mudaram e vão mudar. Estes são apenas alguns exemplos. Não são as mudanças que o ciclo do turista traz que me deixam triste, mas sim o desprezo, desvalorização, destruição, ganância e excessos que esta nova era poderá trazer, e o impacto que isso terá na forma de ser terceirense. Cá para mim, o cúmulo acontecerá no dia em que fizermos uma tourada à corda para turista ver. Nesse dia, deixaremos de ser terceirenses e passaremos a ser gente sem identidade, que representa o que outrora foi, só para garantir o pão na mesa, mas cuja miséria está na alma. Oxalá, não cheguemos a esse ponto.

Angra está diferente… Ou igual?

Hoje estive no meu café favorito por um bom bocado. Decidi ir até à cidade angrense para, a toque de doces maravilhosos, colocar o trabalho em dia.

Durante a tarde ouvi portugueses (continentais), espanhóis, americanos e até alemães. Atrevo-me a dizer que por lá passaram mais estrangeiros do que locais. É, inquestionavelmente, resultado das novas políticas aplicadas ao turismo nos Açores e, sem dúvida, um fruto dos voos charter que têm cumprimentado a ilha semanalmente.

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Azores Golden Hour by Eduardo Marques

Angra é uma cidade diferente daquela que existia a apenas alguns meses. Está ligeiramente mais movimentada, sobretudo por turistas. Está a ganhar uma vida diferente daquela que tinha. Resta questionar: ainda é a Angra que conhecemos?

Sendo romântico (e tão patético quanto qualquer apaixonado), gosto de pensar que esta “nova” identidade de Angra, não é assim tão nova. Se conhecermos um pouco da sua história, sabemos que esta cidade foi ponto de passagem e de paragem de muitas pessoas, ideias e culturas. Aliás, estas mesmas gentes fizeram parte da forja que nos tornou únicos.

Será que a atual vida de Angra (visitada por indivíduos de outras partes) não é mais do que um regresso ao passado e à vivência que agitou esta cidade durante séculos? Talvez estejamos a reavivar a Angra astuta, arisca, bela e irreverente que já existiu.

Talvez esteja a iludir-me, mas gosto de pensar assim.