Uma ilha será sempre uma ilha.

Esta é uma terra negra e salgada que faz tudo o que pode para sacudir a gente de si para fora. Mesmo aqueles que nascem nela e decidem aqui viver, não morrem quando querem, mas quando ela quiser. Uma ilha será sempre uma ilha. Um homem será sempre um homem.

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by Luís Melo

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Um mal que veio por bem?

As estatísticas recentes indicam que o turismo na Terceira teve um crescimento inferior quando comparado com as outras ilhas açorianas. A maioria das pessoas e empresários receberam esta notícia com desagrado, apontando o dedo à sagacidade micaelense e à incompetência do Governo na promoção da igualdade entre todas as ínsulas.

Poucas almas irão perceber que este contratempo poderá ser bem aproveitado para, por exemplo, organizar a oferta, clarificar a estratégia turística e salvaguardar a nossa identidade. Contudo, a ferocidade terceirense é de tal ordem, que tudo o que esteja além do curto-prazo não é equacionado no presente.

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by Aragami

Alguém já reparou que a centralidade de São Miguel poderá ser uma forma de nos tornarmos mais sustentáveis? Vejamos: se a ilha-ananás for a porta de entrada do turismo nos Açores, ela ficará com os visitantes de todas as classes, mas só as que têm posses e grau de interesse superiores (de grosso modo, as mais «endinheiradas» e «cultas») darão os passos necessários para visitarem outras ínsulas. A título de exemplo ilustrativo, enquanto São Miguel ganha 1000€ com 100 turistas  (e acarreta as responsabilidades inerentes), as restantes ilhas, com o tal público mais avantajado, precisa de 25 forasteiros para angariar o mesmo valor.

Nesta perspectiva satisfaz-se, claramente, a questão da sustentabilidade do destino, pois é mais fácil lidar com um milhar de turistas em São Miguel do que no Corvo.

Posto isto, e voltando à questão de partida, será que queremos mesmo igualdade em todas as ilhas? É claro que o acesso aos apoios para a criação das infraestruturas turísticas tem de ser uniformemente permitido – mas não é isso que está em causa.

Deixem São Miguel ficar com tudo e que ele sirva para separar o trigo do joio. Sejamos espertos e saibamos tirar o melhor proveito da sagacidade dos outros. Geralmente, na Terceira, todos os males vêm por bem.