Esta coisa das tempestades

As tempestades, à semelhança dos vulcões e terramotos, fazem parte do dia-a-dia açoriano. Mais ou menos chuvosas, mais ou menos ventosas, mais ou menos agitadas, as tempestades são algo normal na vivência de quem vive nestas ilhas. A ocorrência frequente deste tipo de fenómenos meteorológicos, faz com que os ilhéus olhem com naturalidade para a coisa. Aliás, verdadeiramente surpreendente, é quando o final do verão, outono ou inverno não nos trazem uns alertas amarelos, laranjas ou até mesmo vermelhos.

ng5670106Fotografia “Neptuno”, por José Henrique Azevedo

Ora, recentemente, uma tempestade/furação passou pelos Açores. Além de ter acontecido nesta altura, em pleno mês de janeiro (normalmente, este tipo de fenómenos tem lugar no final do verão e início do outono), não detém mais nada de especial. Diga-se, assim, que é apenas mais uma, só que veio mais cedo ou tarde, conforme a perspetiva. Apelidado de Alex, este furação recebeu uma cobertura mediática gigante por parte da comunicação social. Desde reportagens em directo de hora a hora, até notícias de abertura dos telejornais, o furacão e os preparos para o enfrentar estiveram no centro das atenções durante alguns dias. A calamidade que estes meios de comunicação antecipavam, justificou a emissão de alertas vermelhos, encerramento de escolas e serviços públicos.

Engracei sobretudo com as entrevistas à chuva, a partir da ilha de São Miguel, e com o típico discurso sensacionalista e repetitivo de quem não sabe bem onde está e o que está a fazer. Entremeado com as já habituais calinadas geográficas, o sensacionalismo desenfreado reproduzido pelos jornalistas/repórteres parecia descrever o fim do mundo nos Açores.

É claro que mais vale prevenir do que remediar, mas ninguém conhece melhor as tempestades dos Açores do que os açorianos. “Graças a Deus”, o Alex foi simpático e não fez mais do que deitar uma ou outra árvore abaixo. Aliás, neste mesmo inverno, já tiveram lugar várias tempestades que fizeram muitos mais estragos.

“O Alex passou sem sopro maior, o próximo do abecedário também passará sem deixar marcas, e mesmo que as deixe, o açorianismo – que parece ser algo semelhante a resiliência, – saberá impor-se para manter o equilíbrio de quem sabe viver no meio do mar, com o mundo à sua volta.”
por Rui Caria

Recorde-se que até à atualidade, o arquipélago recebeu inúmeras tempestades, algumas de grande intensidade, e que provocaram imensos estragos pessoais e materiais. Destas, pouco se ouviu falar na comunicação social do continente – às vezes apenas se viam umas pecinhas  de alguns segundos. Será que com as low cost e a elevada notoriedade turística, passámos a valer o custo-benefício de transmitir notícias a partir do arquipélago?

“O jornalismo cria as suas próprias realidades. O real noticioso prevalece. A comunicação social não se limita a dar as notícias – em caso de não existência, simplesmente inventa-as. Os media conseguem ser mais tempestuosos do que o próprio furacão. A notícia é para render até ao tutano. O conceito da desgraça prevalece – quanto pior, melhor.”
por João Rocha

Com melhor ou pior cobertura mediática, como sempre, os açorianos estavam prontos para o que desse e viesse, não fossemos nós as gentes que habitam estas ilhas de basalto salgado pelo mar, esculpido pelo vento e esverdeado pela chuva.

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A insignificância da linha costeira para os açorianos

Numa das minhas leituras aleatórias, li um pequeno artigo sobre um estudo realizado à gestão da linha costeira das ilhas açorianas. Neste documento, falava-se da forma como os ilhéus tinham usufruído das estruturas geológicas para criar zonas balneares, umas vezes utilizando-as tal como elas são e outras modificando-as para torná-las mais cómodas. O texto desencadeou em mim uma reflexão sobre a forma com que o açoriano vê o limite entre a terra e o mar.

Anonymous Paradise by André Farinha on 500px.com

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Durante os meus estudo no continente, muitas pessoas perguntavam-me como é que eu conseguia viver num espaço tão circunscrito. A questão parecia afligi-las, como se imaginassem a ilha enquanto prisão de quatro paredes por onde não se consegue escapar. A minha resposta baseava-se simplesmente em descrever dois pontos distintos: por um lado, expor a naturalidade com que o ilhéu olha para a linha costeira, i.e. trata-se apenas da faixa onde o mar e a terra se misturam; e, por outra, da forma aberta com que o açoriano acolhe a vastidão do mar.

A percepção do limite, enquanto ilhéu, é muito clara e presente. O limite é a linha que o mar desenha na terra. No entanto, não é barreira, o mar é continuidade e não motivo de exílio, é o espaço onde o ilhéu mensura a sua própria concepção de infinito, onde desenha o seu caminho de evasão.

Por Filipa Bettencourt Picanço

Nunca senti que o mar fosse um monstro claustrofóbico e inibidor de ver mundo. Pelo contrário, sempre senti que o mar fosse libertador. Enquanto que uns vêem o oceano como o limite do alcançável, os açorianos vêem-no como a certeza de que conhecem tudo o que existe, que não há mais nada a observar ou conquistar. Assim, o mar é o expoente máximo do que há para conhecer: nele tudo começa e acaba.

O mar é uma referência geográfica, olhá-lo é saber onde se está. Da mesma forma que o pastor usa os montes para se guiar pelos campos, os açorianos usam o mar e a linha costeira para vaguear pelas ilhas (de forma física ou espiritual). Assim, é expectável que alguns açorianos se sintam desnorteados e encurralados quando estão nas grandes cidades, onde os prédios os sufocam, inibindo-os de ver o mar. Nesta perspectiva, o oceano, por estar libertado e ser libertador, é também entendido como uma enorme fonte de inspiração. A arte no açoriano surge em pleno mar deserto: é na [falsa] percepção de se conhecer tudo o que a visão alcança que a criação decorre. Provavelmente, é este mesmo facto que leva à originalidade e excepcionalidade da cultura açoriana, criando-se um paradoxo: o que inibe é simultaneamente o que liberta.

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A naturalidade com que o açoriano vê a linha costeira torna-a insignificante. Não importa se é uma calheta, uma angra ou uma falésia: o açoriano vê a costa como uma porta para o mar, numa relação de respeito e profunda ternura como aquela que se tem com um amigo de longa data.

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