A morte da alma ilhéu

A ilha Terceira (e a cidade de Angra do Heroísmo, consequentemente) necessita de se distinguir das restantes ilhas e centros urbanos regionais, no que diz respeito à oferta turística que dispõe. Num post anterior, já tinha defendido que, se há algo que distingue a ilha de Jesus Cristo das restantes, é a sua cultura e história ricas e únicas, no contexto regional, nacional e mesmo internacional.

Se olharmos para o turismo como uma fonte de rendimento, também devemos olhá-lo como uma forma de desenvolvimento (sim, desenvolvimento e rendimento são tópicos bem distintos). Neste sentido, e tendo em conta o que foi descrito no primeiro parágrafo, é expectável e desejável que a ilha Terceira tire partido da sua história e cultura para gerar rendimento e desenvolvimento.

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Touch by André Fagundes

É fácil, do ponto de vista material, usufruir da nossa história para tirar proveito do turismo. Por um lado (em linhas gerais), basta identificar, valorizar e preservar o património natural e edificado; e, por outro, estudar o que foi (e ainda é) escrito sobre a Terceira – felizmente, a nossa ilha conta com um vasto acervo de documentos de grande qualidade sobre a sua história. Neste sentido,usufruir do património para gerar rendimento na área do turismo é algo relativamente fácil (pelo menos do ponto de vista das empresas de animação turística). Contudo, não nos esqueçamos de apostar continuamente no desenvolvimento, quer da história per si, quer nos métodos de a transmitir.

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Azorean green fields by Rui Caria

Se nalguns aspectos, a história e cultura terceirenses devem ser vistas como um todo, fico reticente no que toca às formas de usufruto destas para gerar rendimento. De vez em quando, aparece um grupo de folclore aqui ou ali a atuar, ora porque atracou um cruzeiro no porto, ora porque há um charter qualquer que chegou ao Aeródromo das Lajes. Se perguntarem por aí, vão perceber que existem muitas pessoas locais que não ligam a este tipo de intervenções. Naturalmente, refuta-se a ideia defendendo que estas atividades estão direcionadas para os turistas e não para os ilhéus – ao que tudo indica, o objetivo é mesmo demonstrar aos visitantes o que por aqui se pratica. Contudo, se pensarmos bem, a genuinidade destes actos é praticamente nula. Repare-se que as atuações dos grupos de folclore acontecem sobretudo nas festas de freguesia durante o verão, onde a comunidade local se reúne em torno do palco improvisado e da iluminação escassa; onde a tasca se enche de gente bem disposta e o padre da freguesia conta uma anedota tão picante quanto a do lavrador. Neste sentido, a atuação de um grupo folclore por si só não vale grande coisa. Esta manifestação cultural faz parte de um contexto (i.e. têm um tempo e espaço específicos) que a torna realmente nossa, autêntica e  verdadeiramente terceirense. Do mesmo modo que devemos promover uma História de qualidade aos nossos turistas, devemos também demonstrar/partilhar uma cultura autêntica – porque esta é viva e faz parte do presente e diferencia-se da história por não estar retida no passado. Já que temos cultura verdadeira, não demonstremos versões “turísticas” em tardes ventosas de outono numa rua citadina, onde ninguém se conhece.

Infelizmente, muitas discussões se resumem a dinheiro e, neste caso, à viabilidade da cultura terceirense enquanto geradora de receita. Haverá quem defenda que mais vale realizar umas 15 ou 20 versões “turísticas” da nossa cultura para gerar rendimento ao longo dos 365 dias do ano, do que aguardar pelo Carnaval, por exemplo, que acontece em 3 ou 4 apenas, para “vender” cultura autêntica.

E é exactamente aqui que surge uma questão perigosa: se aparentemente não é possível tirar partido da cultura terceirense para gerar rendimento no turismo, será este ramo verdadeiramente apropriado para o desenvolvimento da ilha?

Assim fica a descoberto o meu maior receio: tenho medo que a pressão para gerar rendimento através do turismo esmague a nossa cultura, património (natural e edificado), identidade e valores. Sejamos prudentes, não deixemos que a ganância e o dinheiro fácil nos transformem em gente sem alma.

Rememos todos para o mesmo lado

Nos últimos meses, os Açores têm elevado a sua notoriedade no mundo. Os esforços recentes na promoção turística da região, têm levado a que estas ínsulas andem nas bocas do mundo. Elogiadas pelo contato com a natureza pura e por atividades de animação turísticas sustentáveis, o arquipélago tem se afirmado como um local de visita obrigatória para os amantes de manchas verdes.

Com um buzz tão alargado, é natural que cada vez mais pessoas venham à região. Contudo, devido à sua dispersão, [ainda] condicionada mobilidade inter-ilhas, diferentes níveis de desenvolvimento e diversificadas realidades, cada ilha tem feito o seu melhor para se distinguir das restantes a fim de se tornar numa paragem obrigatória.

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Sete Cidades by João Moniz

A estratégia promocional adotada tem “vendido” um arquipélago “certificado pela natureza” – é este o mote da marca Açores. Indiscutivelmente, é de todo o interesse que se venda o conjunto como um todo (mesmo que contenha nove ilhas dispersas ao longo de 600km). As paisagens de São Miguel e do Triângulo (i.e. São Jorge, Pico e Faial) assentam como uma luva nesta tagline. Contudo, outras ilhas, por mais que tentem, dificilmente vingaram neste sector. Umas delas é a Terceira.

Calma! Todos sabemos que a ilha de Jesus Cristo tem paisagens bonitas: Caldeira Guilherme Moniz, Serra do Cume, Serra de Santa Bárbara, etc. Contudo, do ponto de vista de um turista, estão muito aquém da Lagoa das Sete Cidades, da Paisagem Protegida da Vinha do Pico, das Fajãs de São Jorge ou mesmo do Vulcão dos Capelinhos – verdade seja dita. Nesta perspetiva, ao definir-mo-nos como um destino de natureza no mercado açoriano, seria um convite aberto ao título da ilha “naturalmente menos bonita”. Isto não significa que devemos deixar de ter atividades de animação turística relacionadas com a natureza – não é isto que se defende neste post. Pelo contrário, temos sido elogiados por termos experiências naturais mais “selvagens” (i.e. naturais) do que outras ilhas, mas isto não determina que temos necessariamente as paisagens mais bonitas nem que os turistas apenas procuram tal. Descrito este ponto, entende-se que a Terceira tem de se diferenciar daquilo que há, ou seja, deve “oferecer” algo que as outras ilhas não têm. E se pensarmos numa perspectiva histórica e cultural, temos muito mais que elas todas juntas, literalmente. Ser capital de Portugal duas vezes, ser sede da Diocese Açoriana, ter acolhido a Capitania Geral do Açores, ter sido porto de abrigo de naus e caravelas de todo o mundo, ser berço do Liberalismo, ter Bailinhos de Carnaval, Touradas à Corda, entre outros, não são “coisas” que outras ilhas possam contar sobre os seus 500 anos de história. E é aqui que a Terceira tem de se centrar. Esta deve ser a marca a ostentar pela ilha.

Perceber como nos devemos diferenciar no mercado regional é apenas o primeiro passo. Trabalhar cultura tem contornos bem mais complexos do que tratar natureza. Enquanto que esta está à vista e pode ser rapidamente explicada, uma compreensão total da cultura e da história dependem da interpretação de dados ou vestígios do passado que estão, mais ou menos, bem preservados e presentes na atualidade. Se a Terceira aceitar a posição que defendi acima, a batalha seguinte será materializar/traduzir em produtos turísticos essa mesma cultura e história, para que os visitantes da ilha possam, de facto, entendê-la como um local de cultura e história.

Esta etapa exige um enorme esforço e coordenação de todas as entidades envolvidas neste assunto (desde as instituições públicas, passando pelas empresas do sector e associações governamentais, até à população em geral) para que seja possível, finalmente, tirar partido do turismo na ilha. Posto isto, segue-se a questão desconfortável: quem é que deve estar na dianteira desta coordenação? Ou seja, quem é que tem (ou devia ter) a competência legalmente atribuída para estar “nos galhos do toiro”?

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Photo by Rui Caria

Esta pergunta não pretende desvalorizar ou desencorajar os esforços que têm sido feitos (e têm sido muitos), mas sim apelar a que todas as pessoas e instituições se unem para que “rememos todos para o mesmo lado”. Esta tem sido a maior lição de todas as adversidades naturais, políticas e sociais que têm atingido a nossa ilha, e que caracteriza tão bem a nossa identidade – saibamos, pois, pensar e atuar em conjunto para que voltemos a ser “a capital do coração do atlântico”.