É impossível visitar os Açores sem trazer um galo de Barcelos de recordação

A relação do homem com o meio em que está inserido leva-o muitas vezes a desenvolver artefactos únicos, ora para garantir a sua sobrevivência, ora por outros motivos​. Assim, é normal que determinados costumes e objetos fiquem associados a um sítio ou labor.

Sunny blue by Alessandro Marini on 500px.com
Sunny blue by Alessandro Marini

O passar do tempo, a intervenção​ de diversos agentes ou as alterações de circunstância, fazem com que as associações mencionadas percam força, ficando muitas vezes retraídas na, por vezes fraca, memória coletiva. Ora, se o presente é fruto do passado, é fundamental que este se mantenha vivo, por exemplo, através de tradições orais, recreativas, etc. – marcas vivas da identidade de um povo.

Os Açores têm vivências muito próprias e é natural que quem nos visita queira levar recordações palpáveis de algo relacionado connosco ou com a sua experiência no arquipélago – os chamados souvenirs. Como é claro, os turistas não nos conhecem profundamente e, por isso, não têm a obrigação de entender os souvenirs que lhes colocamos à escolha. Contudo, o contrário já não é válido. Nós temos a obrigação de saber interpretar e dar a escolher recordações lógicas – peças de basalto, bandeiras do Espírito Santo, gaiolas de toiros, etc.

Neste sentido, é fundamental que deixemos de vender galos de Barcelos, louças decoradas com desenhos característicos do Alentejo, canecas com desenhos ridículos, entre outras coisas parvas, desprovidas de significado na cultura local e sem qualquer nível de qualidade de fabrico ou, pelo menos, feitas com matérias primas locais. Há tópicos nos quais temos de ser puristas e os souvenirs é um deles, pois não só são uma forma de espalhar a curiosidade pela nossa vivência e memória (i.e. promover o destino Açores), mas sobretudo um modo de as respeitar, preservar e contribuir para uma indústria turística sustentável.

“O vento enche o meio da vela, as vagas purpúreas
Saltam a grande altura, em volta da esteira do navio, que avança
e corre pelas ondas, trilhando o seu caminho.”
Homero, Ilíada

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Ode à ilha sonsa – Um ensaio de storytelling.

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Bruma by Rui Caria

A ilha Terceira apresenta-se hoje como uma oportunidade para experienciar o arquipélago dos Açores de forma diferenciada. Mais do que heróica e vitoriosa, é a Capital do Atlântico Norte.

Há quinhentos anos que tem uma Angra que acolhe e faz heróis. Há quinhentos anos que tem uma Praia que defende e espalha ideais. A Terceira é um símbolo vivo do intercâmbio entre as grandes civilizações, foi o berço da primeira globalização.

A centralidade da ilha foi um dos principais motivos pelos quais se tornou a sede dos poderes religioso, político, económico e militar no arquipélago durante os vários períodos da História de Portugal.

Vaidosamente renascentistas, e de braços abertos para o mar, as suas cidades têm pedras que contam histórias e janelas coloridas que desvendam paixões ardentes.

Apesar da insularidade, foram as gentes da Terceira que, de forma notável, nobre, leal e sempre constante, estiveram na vanguarda do liberalismo português. Hoje, através dos Bailinhos de Carnaval (a maior manifestação de teatro popular da Europa), o espírito crítico conjunto ainda se faz ouvir.

Circunscrito na ilha, está um cordão de freguesias pitorescas, com terceirenses hospitaleiros que cantam ao improviso, organizam festas de rua e agradecem as graças que recebem ao Divino Espírito Santo.

São nos bovinos que percorrem as estradas, nas famosas touradas à corda, que se observa a verdadeira alma terceirense, apaixonadamente ligada a uma tradição que promove o convívio e a amizade há séculos.

Nessa terra de basalto salgado, o vinho tem uma personalidade própria, a carne um sabor autêntico e o peixe um trato inesquecível. Aliás, é no bolo D. Amélia que se demonstra a hospitalidade terceirense, e na alcatra que se saboreia a abundância e tradição.

É na Serra de Santa Bárbara que se pode apreciar a floresta imaculada de laurissilva, que representa uma oportunidade para deslumbrar a natureza que existia antes do homem povoar a Europa.

É nesta ilha que os milhafres e os priolos apreciam a brisa sobre uma imensa manta de retalhos verdes. É nesta ilha que vaguear pelas fumarolas de enxofre, é sentir a respiração de uma natureza dócil e profunda. É na Terceira que os homens entram no ventre da ilha, descendo até ao Algar do Carvão, o único vulcão visitável do mundo.

Todos estes fatores levaram a que os terceirenses saibam celebrar a vida. Por isso, não faltam festas e festivais, desde profanos a religiosos.

A ilha Terceira é a embaixatriz da História dos Açores, exemplar imaculado da natureza vulcânica, a guardiã de uma vivência e cultura únicas e Património da Humanidade.

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Road by Rui Caria

Angra: cultura natural ou natureza cultural?

Acompanhando a tendência actual para apostar na promoção turística do arquipélago açoriano, solicitaram-me que desenhasse um banner publicitário para a cidade de Angra do Heroísmo. Dado o espaço reduzido para trabalhar, tive de me centrar no básico, definindo Angra da forma mais sucinta e atractiva possível. Esta conjuntura levou-me naturalmente a recorrer ao uso de algumas imagens e uma tagline.

Foi fácil seleccionar fotografias de Angra, bastou recorrer aos clássicos: a vista sobre a cidade a partir do Alto da Memória, uma vista mais abrangente que demonstrasse a posição da cidade entre o mar e o verde dos campos (a Serra da Nasce-Água é excepcional para este efeito) e uma foto do casario colorido da cidade.

Ora, bem mais complexo, foi criar uma tagline que resumisse Angra. Necessariamente, tinha de se tratar de uma frase que a diferencia-se no mercado dos destinos turísticos quer internacionais, quer regionais. Contudo, não poderia criar especulativas para um lugar que nada tem a ver com Angra.

Mais que a materialidade das coisas Angra precisa de novas formas de ser olhada, com carinho e com respeito pelo enorme valor que é.
Angra tem a enorme vantagem de dispor de duas janelas escancaradas: a materialidade e a imaterialidade, conjugadas no seu recurso cultural colectivo, que é património comum da humanidade.”
Por Francisco Maduro-Dias

A Direção Regional da Cultura (DRC) está a desenvolver um Plano de Gestão para a Zona Central da Cidade de Angra do Heroísmo, i.e. um ponto de chegada e, simultaneamente, de partida para aquilo que poderá ser um futuro promissor e sustentável para a cidade Património Mundial. Paralelamente ao desenvolvimento deste documento, a DRC tem promovido uma série de conferências divididas em três temas, nomeadamente, “História e Herança”, “Tecnologia, Valorização e Desenvolvimento” e “Cidade Vivida”. Cada capítulo conta com quatro palestrantes (ao todo são doze) de áreas variadas e de interesse para o assunto em questão. Numa das discussões, referiu-se algo basilar sobre Angra: a cidade, tal como a conhecemos hoje, é fruto de gente com uma cultura (do sul da Europa, nomeadamente) que usufruiu da natureza (uma estrutura natural que protegia os navios das adversidades – i.e. uma angra – e uma ribeira capaz de sustentar a vida naquele vale – Ribeira dos Moinhos) e que, consequentemente, gerou uma civilização cultural.

A isto, soma-se a “sorte” de Angra estar no sítio certo para acolher os navios que atravessaram os mares em rotas marítimas que davam, literalmente, a volta ao mundo.

“A cidade de Angra do Heroísmo, Património Mundial da Humanidade, assumiu, desde os primeiros anos da sua história um papel predominante. Inicialmente, reconhecida como um ponto geoestratégico no meio do Atlântico Norte, posteriormente, como um interposto logístico de navegação, a sua posição foi, e é ainda, consensual, no que concerne à ligação entre os vários continentes. “Intensamente portuguesa e, todavia portuguesa de além-mar, Angra deve ver-se com os olhos de quem vê projeção ibérica fora da Península”
Elevação de Angra a Património da Humanidade, O Processo

Fomos procurados e valorizados no passado devido [sobretudo] à nossa posição estratégica no Atlântico e pela hipótese de reabastecer navios nas rotas comerciais. Por aqui passaram muitas pessoas, culturas e formas de pensar. O título de Património Mundial (pelo critério 4º e 6º) atribuído pela UNESCO, é um selo que garante que nós, ainda hoje, muito mais do que um símbolo, somos uma prova viva e bem preservada desse movimento no Atlântico.

Angra do Heroísmo - Ilha Terceira - Azores  - Cais da Alfândega
by Marco Monteiro

Por isto tudo e muitas outras coisas, decidi que a tagline deveria ser: Angra do Heroísmo, Capital Cultural do Atlântico | Património Mundial. Soberba ou arrogante, esta frase resume a mais pura das verdades. Saibamos, pois, ostentar com gozo a pojança que este título exige. Não nos desviemos da verdade, não inventemos aquilo que não somos, pois somos isto e saibamos tirar partido disto mesmo.