Pouca terra, pouca terra…

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In his way! by José Sousa

As instituições públicas açorianas são locomotivas a vapor. Os carris, tal como o decorrer do tempo, obrigam-nas a andar para a frente, contra a inércia dos funcionários mandriões, o seu peso bruto e morto. Ao volante embandeira-se um partido qualquer, e a colocar o carvão no forno estão os dirigentes eleitos para chefiar aquela viagem. Anda-se para a frente, porque só para a frente se pode andar. Não há um destino definido porque o caminho que se faz é o próprio destino, interessa é andar para a frente.

Nas estações não entram nem saem passageiros, apenas os trabalhadores do carvão que partem para outras locomotivas mais ou menos sofisticadas. Parece que os verdadeiros passageiros são esses homens do carvão. Às vezes, perguntam-nos para onde vai a locomotiva e eles, mestres no balbuciamento de palavras vazias, dizem coisas bonitas, cheias de esperanças e utopias. Afinal, são eles que querem chegar à estação seguinte.

Há pessoas nos vales e montes destas ilhas de basalto salgado que precisam das locomotivas que passam, mas as máquinas limitam-se a manifestar a sua presença com buzinadelas trovejantes que desencorajam qualquer intento para nelas entrar, desaparecendo rapidamente no espesso fumo que para trás deixam. Sim, o fumo tóxico que deixam e que envolve as pessoas como um fantasma que faz de contas que acalma a sua solidão e pequenez. Só alguns víveres conseguem um lugar nos vagões. Ora por sorte ou cunha, cada passageiro só pode ser uma de três coisas: um peso morto, um trabalhador do carvão ou alguém que vai cuidado da própria locomotiva – estes últimos são muito estimados, mas raros.

Os homens do carvão, talvez por passarem tanto tempo no calor e escuridão ardente dos fornos, têm uma forma secreta de falar e estar uns com os outros. Entre eles há uma série de verdades não ditas, de pensamentos proibidos e desejos disfarçados. São complacentes no que diz respeito ao trajecto das locomotivas: para a frente é que se faz caminho. Não importa de onde vem o carvão, qual é a sua qualidade, preço ou impacto dos fumos que deixa para trás. Afinal, na próxima estação, irão trocar de locomotiva. Nos Açores, há muito que a vida das instituições públicas deixou de servir os açorianos e serve apenas as bandeiras partidárias e a esperteza de alguns fulanos. Tenho a sensação de que mais ninguém se preocupa com o estado dos carris. Todos aceitaram preocupar-se exclusivamente consigo mesmos.

E tu, caro leitor? Qual é o teu lugar na ferrovia?

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Tal mãe, tal filho.

Hoje, o Governo Regional é uma parideira de empresários deficientes. Quando o meu pai criou o seu próprio negócio nos anos noventa, fê-lo conforme as suas possibilidades: construiu um espaço adequado ao seu trabalho, adquiriu paulatinamente as ferramentas necessárias e, à medida do possível, foi melhorando as capacidades dos serviços que presta. Tudo o que alcançou deveu-se ao seu esforço e destreza na gestão contínua do seu negócio – isto é o que define um verdadeiro empreendedor. Vinte anos depois, já não existem pessoas capazes de criar negócios sozinhas e de forma sustentável porque o Governo Regional, em troca de votos, lobismo e favores, dá tudo o que qualquer indivíduo necessita para criar um negócio.

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Hor… by Rui Caria

Nos dias que correm, é impossível contabilizar os programas de financiamento (muitos deles, a fundo perdido) destinados aos «empreendedores», assim como as entidades que lhes prestam apoio (Direções Regionais, SDEA, Câmaras do Comércio e afins). A quantidade de euros comunitários é tão abundante que se criam espaços megalómanos, muito superiores aos mercados que procuram satisfazer. Aliás, a mama é tão grande que até os recursos humanos são dádivas do Governo, através dos inúmero programas de estágio e ocupação que existem. Esta conjuntura permite que o empreendedorismo nos Açores, nos nossos dias, funcione da seguinte forma: não importa quão insustentável ou estapafúrdia é a ideia de um empreendedor, pois o Governo encontra todo o dinheiro necessário para concretizar a idiotice, assim como os fâmulos que irão, por uns meses ou anos, fazer a coisa parecer que funciona. Se o negócio estoirar não há qualquer problema, pois existe mais dinheiro à disposição para criar outros negócios. Será que estes novos e modernos empreendedores, que evoluem a toque de biberon para CEO, poderão fortalecer a economia da Região Autónoma dos Açores? Não, pois são empresários deficientes que não enfrentaram as verdadeiras tormentas da odisseia empreendedora.
PS: Não se esqueça de fazer uma visita de estudo à Web Summit.

A política dos pensos rápidos

A máquina governativa socialista açoriana está a descaracterizar a autonomia, a ludibriar o povo e a exterminar o futuro da região.

A independência na administração dos Açores ganhou sentido quando o governo de Lisboa, depois da Revolução dos Cravos, continuava a emanar políticas que não se ajustavam à realidade insular. Foi este o mote que criou o princípio autonomista, onde se defende que as pessoas mais indicadas para encontrar uma solução, são as mesmas que conhecem o problema.

Desde 8 de setembro de 1976, data em que o primeiro Governo Regional tomou posse, os açorianos experimentaram, primeiro, uma lide social-democrata e, desde 1996, um maneio socialista. Em 22 anos, a esquerda conseguiu desenvolver uma máquina implacável que, em vez de servir os açorianos, serve ela própria. Como é que chegamos a este ponto?

Para garantir as sucessivas reeleições, os governos de Carlos César e Vasco Cordeiro dão aquilo que as pessoas mais desejam: emprego. Isto poderia ser uma utopia tornada realidade, contudo o problema reside na qualidade dessa dádiva, pois são trabalhos precários que replicam e complicam as responsabilidades do poder regional. Naturalmente, este facto materializa-se sobretudo através da criação de entidades público-privadas, onde o governo paga as despesas e uns privados – muito saudosos e exclusivos – arrecadam os lucros. Este método tem «ocupado» o povo que retribuí o «favor» através de votos, mantendo a esquerda na dianteira.

Esta receita, com resultados repetidamente comprovados, levou ao estado atual das coisas: um Governo insolvente que usa o dinheiro para sustentar empregos fictícios e serviços duplicados. Na verdade, o que a administração açoriana deveria fazer – porque é esta a sua responsabilidade primordial – seria minimizar os condicionalismos da insularidade, com vista à melhoria da importação e exportação de bens e serviços produzidos na região, para que as empresas locais pudessem ser competitivas no panorama extrarregional e, por sua vez, permitir a criação de empregos dignos para os açorianos.

Há muito tempo que a forma de governança à esquerda nos Açores demonstrou que dá peixe em vez de ensinar a pescar. Qual poderá ser o futuro de uma região que é incapaz de pensar num prazo mais lato que quatro anos? Qual é o futuro de um Governo que há demasiado tempo recorre a pensos rápidos, em vez de suturar as feridas?

Entre mortos e feridos, alguém há de escapar

Hoje, a autonomia açoriana é uma ditadura, disfarçada de democracia e movida pelo populismo. Aquilo que poderia ser uma região desenvolvida, vertical e invejável, é, na verdade, um bando de cegos, surdos e mudos controlados por uns quantos espertos que olham apenas para o seu umbigo.

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by Nuno Ferreira

A autonomia administrativa é um privilégio de poucos. Ter legitimidade para resolver os problemas próprios de um lugar, é ter a liberdade para tomar as melhores opções para todos – a bonita universalidade da autonomia. Nos Açores, existe essa legitimidade, contudo o sistema está povoado de ganância.

Ao governo regional cabia a responsabilidade de criar uma máquina, bem oleada, que servisse os açorianos. Contudo, acabou por criar um mecanismo implacável que serve a ele próprio, aniquilando os que lhe são opostos e domando todos os outros.

Atualmente, o povo dos Açores é composto por pessoas cegas (que vêem, mas não denunciam), surdas (que ouvem, mas fazem ouvidos moucos) e mudas (que vêem e ouvem, mas não podem falar). O que acontece nos nossos dias não se trata de uma fase negativa da autonomia, mas de um status quo imutável.

A pequenez insular faz com que tenhamos de estar ligados uns aos outros, para o bem e para o mal. Numa região onde abundam demasiados milhões de euros oriundos de fundos comunitários, a moeda de troca são a cunha, a conveniência e o favor. É este o preço a pagar por viver nestas ilhas de basalto salgado.

Será que este paradigma irá terminar um dia? A única esperança é que a ganância seja a causa da sua morte. Até lá, entre mortos e feridos, alguém há de escapar.

O socialismo é a morfina dos males dos fracos, a venda que tapa os olhos aos idiotas e a arma dos gananciosos. Aos outros, resta-lhes o silêncio ou uma batalha a solo.

Os meus pêsames.

... by Rui Caria on 500px.com
… by Rui Caria

O povo diz que “a esperança é a última a morrer”, numa vã tentativa de enveredar algum alento nas lutas difíceis. Contudo, no que toca à gestão do turismo na Terceira, ela não resistiu a tanta negligência e acabou por falecer.

“A dôr é tão necessaria ás modificações sucessivas da Natureza como ao progresso e desenvolvimento humano. Ela é condição imposta á vida e elemento imprescindível da arte; ela é a base inevitavel da evolução social.”
por Gervásio Lima, 1929.

O POTRAA (Plano de Ornamento Turístico da Região Autónoma dos Açores) caducou e o governo insular está a realizar a sua [imperativa] atualização de forma faseada. Este processo conta com uma equipa multidisciplinar que está, na etapa atual, a visitar todos os concelhos açorianos para ouvir e debater sobre a sua realidade turística, a fim de desenvolver um plano exequível. Além de ser uma demonstração clara do sentido democrático da autonomia, é uma atitude humilde , que revela que o executivo está verdadeiramente interessado no desenvolvimento de uma estratégia de ordenamento turístico apropriado à nossa realidade.

Nesta sessão aberta ao público, onde se poderia debater a realidade atual da ilha face ao turismo e defender um melhor posicionamento no seu futuro, estavam presentes meia dúzia de gatos pingados, uns com objetivos ocultos e outros com cara de frete. Prezo a abertura da comissão que ouviu, com igual atenção e ânimo, todos os que quiseram falar. Condeno a atitude desprevenida dos gatos, pois entre palpites e distorções da realidade, os felinos (maioritariamente ligados às atividades náuticas) dedicaram-se ao debate de problemas internos do seu gatil (localizado na Marina, junto ao Cais d’Angra) e a pedinchar por coisas que qualquer empresa privada tem a obrigação de considerar (por exemplo, a promoção do produto e a garantia da qualidade do serviço prestado). A postura da Câmara do Comércio demonstrou a madrasta má que é, pois foi a primeira a intervir, num discurso fantasioso que visou representar todos os presentes e ausentes, tentando afastar qualquer outro contributo para a discussão.

Depois deste encontro fatídico, a esperança quanto à possibilidade de virmos a ter uma gestão turística inteligente morreu. E agora? É fácil. Vamos continuar como até aqui fizemos: reconhecemos que há um problema mas depois vê-se o que se vai fazer, porque agora é hora de ir para os toiros.

Esperança? Paz à sua alma.

Um mal que veio por bem?

As estatísticas recentes indicam que o turismo na Terceira teve um crescimento inferior quando comparado com as outras ilhas açorianas. A maioria das pessoas e empresários receberam esta notícia com desagrado, apontando o dedo à sagacidade micaelense e à incompetência do Governo na promoção da igualdade entre todas as ínsulas.

Poucas almas irão perceber que este contratempo poderá ser bem aproveitado para, por exemplo, organizar a oferta, clarificar a estratégia turística e salvaguardar a nossa identidade. Contudo, a ferocidade terceirense é de tal ordem, que tudo o que esteja além do curto-prazo não é equacionado no presente.

Lagoa do Fogo and green valley on San Miguel island by aragami12345 on 500px.com
by Aragami

Alguém já reparou que a centralidade de São Miguel poderá ser uma forma de nos tornarmos mais sustentáveis? Vejamos: se a ilha-ananás for a porta de entrada do turismo nos Açores, ela ficará com os visitantes de todas as classes, mas só as que têm posses e grau de interesse superiores (de grosso modo, as mais «endinheiradas» e «cultas») darão os passos necessários para visitarem outras ínsulas. A título de exemplo ilustrativo, enquanto São Miguel ganha 1000€ com 100 turistas  (e acarreta as responsabilidades inerentes), as restantes ilhas, com o tal público mais avantajado, precisa de 25 forasteiros para angariar o mesmo valor.

Nesta perspectiva satisfaz-se, claramente, a questão da sustentabilidade do destino, pois é mais fácil lidar com um milhar de turistas em São Miguel do que no Corvo.

Posto isto, e voltando à questão de partida, será que queremos mesmo igualdade em todas as ilhas? É claro que o acesso aos apoios para a criação das infraestruturas turísticas tem de ser uniformemente permitido – mas não é isso que está em causa.

Deixem São Miguel ficar com tudo e que ele sirva para separar o trigo do joio. Sejamos espertos e saibamos tirar o melhor proveito da sagacidade dos outros. Geralmente, na Terceira, todos os males vêm por bem.

A ressurreição política dos mortos

As eleições autárquicas são uma espécie de ressurreição dos mortos. As motivações dos candidatos oscilam entre a sede de poder, a obrigatoriedade de marcar presença partidária e o verdadeiro interesse em melhorar o rumo das localidades.

O Toureiros de Terceira by SkyBlue Photography on 500px.com
«O toureiro da Terceira» by SkyBlue

As autárquicas são, provavelmente, a mais nobre materialização da democracia, pois dão a hipótese de eleger pessoas cujo passado, capacidade e motivações são conhecidas dos eleitores. Ora, nesta conjuntura, as campanhas deveriam ser sempre uma época de intensa e rica discussão de ideias e estratégias. Muito mais do que discursos partidários, seriam uma oportunidade para dialogar sobre o passado, o presente e o futuro de cada sítio, com implicações reais no dia-a-dia da população.

Contudo, este ano as autárquicas parecem a folha dos jornais dedicada a anunciar quem faleceu, pois não existem propostas verdadeiramente úteis para a realidade que enfrentamos. Os candidatos não sabem onde começam e terminam as responsabilidades das autarquias. Desconhecem que algumas das suas propostas não fazem parte da esfera pública e que são do âmbito privado. Insistem em falar da ilha como um todo, quando cada concelho tem os seus próprios problemas e prioridades. Inventam adversidades que não existem e soluções que já foram implementadas.

Rua do Galo by Rui Caria on 500px.com
Rua do Galo by Rui Caria

Tratam-se de mortos em espírito, inteligência e sabedoria. São zombies que nem estiveram atentos ao que aconteceu nos últimos anos e que agora, subitamente, ressuscitam para a vida. Se estas pessoas estivessem verdadeiramente interessadas na esfera pública, estariam sempre vivas no dia-a-dia do povo, e as campanhas autárquicas seriam uma oportunidade para reforçar ideias e mudar o rumo do futuro. Contudo, são projetos dedicados a apresentarem pessoas desconhecidas (ou adormecidas), fretes, ideias descabidas e interesses duvidosos. Atinem, porque dos fracos não reza a história.