A ressurreição política dos mortos

As eleições autárquicas são uma espécie de ressurreição dos mortos. As motivações dos candidatos oscilam entre a sede de poder, a obrigatoriedade de marcar presença partidária e o verdadeiro interesse em melhorar o rumo das localidades.

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«O toureiro da Terceira» by SkyBlue

As autárquicas são, provavelmente, a mais nobre materialização da democracia, pois dão a hipótese de eleger pessoas cujo passado, capacidade e motivações são conhecidas dos eleitores. Ora, nesta conjuntura, as campanhas deveriam ser sempre uma época de intensa e rica discussão de ideias e estratégias. Muito mais do que discursos partidários, seriam uma oportunidade para dialogar sobre o passado, o presente e o futuro de cada sítio, com implicações reais no dia-a-dia da população.

Contudo, este ano as autárquicas parecem a folha dos jornais dedicada a anunciar quem faleceu, pois não existem propostas verdadeiramente úteis para a realidade que enfrentamos. Os candidatos não sabem onde começam e terminam as responsabilidades das autarquias. Desconhecem que algumas das suas propostas não fazem parte da esfera pública e que são do âmbito privado. Insistem em falar da ilha como um todo, quando cada concelho tem os seus próprios problemas e prioridades. Inventam adversidades que não existem e soluções que já foram implementadas.

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Rua do Galo by Rui Caria

Tratam-se de mortos em espírito, inteligência e sabedoria. São zombies que nem estiveram atentos ao que aconteceu nos últimos anos e que agora, subitamente, ressuscitam para a vida. Se estas pessoas estivessem verdadeiramente interessadas na esfera pública, estariam sempre vivas no dia-a-dia do povo, e as campanhas autárquicas seriam uma oportunidade para reforçar ideias e mudar o rumo do futuro. Contudo, são projetos dedicados a apresentarem pessoas desconhecidas (ou adormecidas), fretes, ideias descabidas e interesses duvidosos. Atinem, porque dos fracos não reza a história.

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